A última do português
Pano rápido
Joca Souza Leão

A última do português

Publicado em 19/09/2016 por Revista algomais às 15:04

Antigamente, as piadas eram de português, Juquinha e papagaio. Português burro, Juquinha safo e papagaio irreverente.
Juquinha era um garoto esperto da idade da gente, suponho, porque ainda estudava com professora e não com professor como os meninos mais velhos do ginásio.
“Quem desenhou isso aqui?” – a professora pergunta por perguntar, pois já sabia quem tinha desenhado o grande pênis no quadro-negro. “Vão todos para o recreio. Menos Juquinha!” – diz ela, trancando a porta da sala de aula. “Dessa vez, ele tá ferrado” – pensam os colegas. Passado algum tempo, abre-se a porta e sai Juquinha todo prosa, atacando a braguilha: “Nada como uma boa propaganda.”
O “currupaco, paco” pontuava a fala do irreverente e sacana papagaio de anedota. Brasileiríssimo. Tanto latia, imitando cachorro pra afugentar ladrão de galinha (bons tempos, aqueles, em que ladrões roubavam galinhas), quanto imitava a fala da empregada assediada pelo patrão, para denunciá-lo à esposa ameaçada de traição.
E a última de português, pá, é ganhar dinheiro da gente, os brasileiros sabidos das piadas de antigamente.
Seguinte. Os portugueses, que não são burros nem nada, preservaram suas cidades. Não uma ou outra, mas todas. Preservaram a história, os monumentos, casas, aldeias, ruas e becos. Preservaram sua identidade. Lá, há o que ver.
Aqui, nós, os remediados, moramos empoleirados em edifícios sem graça e os endinheirados vivem confinados em condomínios, ameaçados pela violência, resultante da brutal desigualdade social. Lá, moramos no primeiro andar de um sobrado. Compramos frutas e verduras na quitanda da esquina.
Hoje, quem tem uma graninha, não precisa nem ser muita, prefere ter uma casinha em Portugal a uma casa de campo ou de praia por aqui.
Se, nas férias, em vez de subir as Ruças (subir as “russas” também é bom, mas é outra coisa), você decidir subir para Montesinho, em Trás-os-montes, Norte de Portugal, vai gastar menos do que indo pra Gravatá, pá!
Em ’78, voltando para o Brasil depois de quatro anos em Londres, pensei ficar em Portugal. Portugal recém-saído da Revolução dos Cravos. Tudo era efervescência política e intelectual. Fim do salazarismo e libertação das colônias. Se tivesse encontrado com meu amigo Duda Guennes, que não estava em casa porque tinha viajado de férias, talvez tivesse ficado. A vida, por certo, teria sido outra.
Eu nem estaria aqui pra contar. E, no final das contas, sabe lá se teria sido melhor ou pior!
Sabe lá, pá!

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