Digital Tax e Abbey Road
Alessandro Carneiro

Digital Tax e Abbey Road

Publicado em 10/10/2019 por Revista algomais às 18:59

Muito se tem falado sobre contabilidade digital e contabilidade on-line. Elas têm conceitos, aplicações e consumidores diferentes.

Para não me alongar em conceitos técnicos, basicamente o que distingue a contabilidade digital da on-line é que a primeira é igual a contabilidade tradicional (podemos dizer analógica), acrescida de tecnologias que tornam o processo de escrituração mais ágil e cada vez menos dependente de “contadores escriturários” para a geração da informação (balanço, DRE ou apuração de impostos). Podemos dizer que o contador digital é o contador analógico com “air-bag” (no sentido que ele pode proteger mais a empresa). Ele cuida do negócio, da estratégia tributária, daquela contingência eminente que cruza com o robô da Receita Federal, o temido SPED.

Já o contador on-line é o próprio cliente alimentando uma base de dados (geralmente notas fiscais) para a produção do que hoje os contadores analógicos entregam (impostos e conformidades legais). Dito isso, não existem duas contabilidades, nem tampouco elas são concorrentes. Uma é mais simples (on-line) para serviços simples (impostos e obrigações legais), outra é mais complexa (digital), para serviços complexos (balanços auditados, planejamentos tributários, análise de custos, consultoria financeira, etc). Ambas são obrigatórias, diga-se de passagem. Experimente participar de licitação, obter um financiamento ou se cadastrar junto a um cliente grande. Na próxima década, empresa sem balanço “verdadeiro” será um “cidadão” sem identidade.

Nos anos 1980 e 1990, com o advento da informatização, ganhamos, da mesma forma, mais agilidade nos processos, no entanto, diferentemente do que acontece hoje, o que mudou foi apenas a plataforma para fazer as mesmas coisas. Mesmo saindo da máquina de escrever e indo pro poderoso PC 386, não se transformou o conceito do que entregar. As empresas e contadores continuavam presos aos mesmos papéis: manter a prática de apurar impostos e gerar informações pro governo fiscalizar mais fácil. Muitas informações! Uma verdadeira sopa de letras: SEF, DCTF, ECD, ECF, DIMOB, DMED, etc. E o que mudou agora? Justamente o conceito do que o profissional deve entregar.

A geração dessas informações tem ficado cada vez mais autônomas, sem a interferência de “humanos”. Fazendo uma analogia para as chamadas cirurgias “minimamente invasivas” na medicina (sem a necessidade de grandes cortes), na contabilidade a produção das obrigações do governo tendem a ser produzidas pela “nuvem” dos fatos fiscais alimentados em tempo real pelas empresas e pessoas, sem a necessidade de tantas “agressões” (cortes de despesas, acréscimos de receitas, estornos, correções, etc). Aquela famosa piada sobre os contadores: “Quanto é que você quer que dê o resultado?” Parece ter seus dias contados. Estamos cada vez menos dependentes de pessoas e muito mais conectados por meio de sistemas de integração que “gravam” os fatos e alimentam a cadeia necessária à geração dos relatórios contábeis e fiscais. Estamos na era da digital tax (impostos digitais).

Há exatos 50 anos, em 26 de setembro de 1969 os Beatles lançaram o álbum “Abbey Road” (nome do famoso estúdio de gravação em Londres, localizado na rua de mesmo nome). Foi lá que os Beatles lançaram “All You Need is Love”, que se tornou a primeira transmissão ao vivo via satélite, em junho de 1967. Eles saíram da fase analógica. Esse disco foi, assim como a contabilidade digital, marcado pelo uso de novos recursos tecnológicos que surgiam na época. Não por acaso, os engenheiros de som que trabalharam no LP, ganharam o Grammy. Veja, os Beatles já eram os Beatles. Mas o que é bom sempre pode ficar melhor. Um produto ou serviço ruim dificilmente fica bom apenas com o incremento de tecnologia. Serviços tradicionais ancorados por grandes profissionais sempre ficarão melhores com novas tecnologias. Já pensou se George Martin (produtor musical dos Beatles) tivesse apenas a tecnologia (softwares) do estúdio e o talento dos engenheiros (TI)? Sem o talento e dedicação dos, até então “analógicos” Paul, John, George e Ringo? Será que ele faria um Abbey Road?

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