Os muitos frevos de um Carnaval
Leonardo Dantas Silva

Os muitos frevos de um Carnaval

Publicado em 26/02/2019 por Revista algomais às 9:44

Denominado inicialmente de “marcha”, e posteriormente, de “marcha-carnavalesca-pernambucana” e por alguns compositores de “marcha-frevo”, a exemplo de Levino Ferreira e Edgard Moraes, o frevo como música tem, como já vimos, suas origens nos repertórios das bandas militares e civis existentes no Recife na segunda metade do século 19: O maxixe, o tango brasileiro, a quadrilha e, mais particularmente, o dobrado e a polca-marcha, combinaram-se, fundiram-se dando como resultado o frevo, ritmo popular ainda hoje em franca evolução rítmica e coreográfica.

Esclarece o musicólogo Guerra Peixe, em artigo publicado no jornal A Gazeta (São Paulo), sob o título A música e os passos no frevo, edição de 26 de dezembro de 1959: “As marchas mais antigas que se conhecem eram cantadas, como ainda hoje ocorre, nos agrupamentos populares recifenses chamados blocos, nos quais participam alguns poucos instrumentos de sopro e de percussão, enquanto um enorme coro canta sob fundo harmônico de grande número de violões.”

Nos anos de 1930, com a popularização do ritmo pelas gravações em disco e sua transmissão pelos programas do rádio, convencionou-se dividir o frevo em frevo-de-rua (quando puramente instrumental), frevo-canção (este derivado da ária, tem uma introdução orquestral e andamento melódico, típico dos frevos de rua) e o frevo-de-bloco. Este último executado por orquestra de madeiras e cordas (pau e cordas, como são popularmente conhecidas), é chamado pelos compositores mais tradicionais de marcha-de-bloco (Edgard Moraes, 1904-1973) sendo característica dos “Blocos Carnavalescos Mistos” do Recife.

No Frevo-de-bloco está a melhor parte da poesia do Carnaval pernambucano, diante do misto da saudade e evocação que contém nas letras e nas melodias de grande parte de suas estrofes. Como Evocação (1957) de Nelson Ferreira (1902-1976):

Felinto, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores,
Andaluzas, Pirilampos, Apôis Fum!
Dos carnavais saudosos?!

A exemplo do frevo-de-bloco, o frevo-canção também possui uma letra que vem logo a seguir da introdução orquestral, geralmente com 16 compassos.
Tão velho quanto o frevo-de-rua (frevo instrumental), o frevo-canção é responsável pela grande animação dos salões e das multidões que acompanham as agremiações carnavalescas e Freviocas durante os dias de Carnaval . Os motivos das suas letras são os mais diversos, inclusive a própria animação do frevo, como bem afirmam Luiz Bandeira e Ernani Séve:

Êta frevo, bom danado!
Êta povo, animado!
Quando o frevo começa,
parece que o mundo já vai se acabar
Êh!
Quem cai no passo não quer mais parar.

O frevo-de-rua, muito embora presente em todos os salões durante os dias de Carnaval, foi feito inicialmente para ser executado a céu aberto. Na rua, como a sua denominação está a exigir. Sua base melódica é responsável pela coreografia do passo e pela movimentação das multidões não só do Recife, como de Olinda e ou outras cidades da região.

O frevo vem conquistando fronteiras, tentando integrar-se ao movimento de Música Popular Brasileira, sendo composto até por não pernambucanos, como Caetano Veloso, Moraes Moreira, Gilberto Gil, Edu Lobo, Chico Buarque de Holanda, Maranhão, dentre outros, para não falar na lista interminável de compositores naturais ou radicados em Pernambuco que fizeram do Recife a Capital do Frevo.

Falando sobre essa expansão, Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa), um dos mais premiados e bem-sucedidos compositores do Carnaval pernambucano, assim se expressa: “Vivemos uma época de vibração e comunicação, e, sendo assim, nada melhor que o frevo para aproximar nossos irmãos. O frevo é o ritmo comunicativo, que nasceu do povo, para o povo; e é por isso que ele está aproximando todos os brasileiros numa só onda, num só passo ao som do vibrante ritmo sincopado que nasceu em Pernambuco”.

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