Como não ser machista – versão Copa do Mundo
Beatriz Braga

Como não ser machista – versão Copa do Mundo

Publicado em 21/06/2018 por Revista algomais às 10:54
Divulgação/ Chega do FiuFiu

*Por Beatriz Braga

Alguns brasileiros acharam bonito constranger uma mulher russa ao fazê-la engrossar o coro sobre a sua “boceta rosa” sem saber o que aquilo significava.

Os homens acabaram com suas carinhas estampadas em anúncio repelente de “macho escroto”. Há, no entanto, quem chame de apenas uma brincadeira infantil.

Precisamos conversar sobre o que o vídeo (e as reações a ele) realmente significa. Para isso, quatro das expressões que ouvi relacionadas aos comentários sobre a repercussão:

1. “Eles estavam só brincando”.

Sabe quando somos crianças, ouvimos uma brincadeira machista e repetimos por aí? Ou quando aprendemos nas novelas que homens não podem “ver um rabo de saia” e que só pensam em sexo? Ou quando nos ensinam que “mulheres que servem para casar” são quietinhas? Você lembra quantas vezes já ouviu que uma mulher bêbada estava “pedindo” para que algo ruim acontecesse? E que o tamanho da saia define a decência de quem a usa?

Nós crescemos ouvindo na mídia, nas brincadeiras e no dia-a-dia: homens são impulsivos e predadores. Mulheres são a caça a ser desfrutada. O homem conquista. A mulher disputa sua atenção.

Vamos combinar: machismo fode todo mundo. Homens também são vítimas, mulheres também são algozes. Mas nós todos estamos inseridos na chamada Cultura do Estupro, a lógica que torna a violência contra a mulher uma coisa normal (isso não é ponto de vista, é um fato: www.relogiosdaviolencia.com.br)

O que nos levou a números tão alarmantes foi a naturalização do comportamento machista. Começa na piadinha, no comentário que escutamos e levamos para escola, na propaganda que compara mulher a cerveja, no assobio “inocente” na rua, quando dizemos que a mulher drogada estava fácil e aquele short era de “rapariga”.

A violência contra mulher é um fenômeno social. Por isso é tão comum e tão difícil de ser combatida. A cultura do estupro está em todo canto, inclusive na piada que fala da cor da boceta de uma mulher sem ela entender nada.
Não se engane. Todos esses movimentos tantas vezes “sutis” lembram ao homem constantemente que ele tem poder sobre a mulher. E diz à mulher toda hora que ela é inferior.

A brincadeira machista é a ponta do iceberg que culmina no cara que bate na mulher ou no tio que abusa do corpo da sobrinha. É um reflexo do que acontece todo dia e não viraliza. É parte da mesma lógica na qual 33 homens se sentem no direito de estuprar uma garota ao mesmo tempo e gravar para mostrar a outros homens. A brincadeira é a marca de uma sociedade que faz de todo homem um potencial opressor e de toda mulher um alvo.

2) “Ela estava se divertindo”.

O argumento não se aplica ao caso, pois a mulher não sabia do que se tratava a risadagem. Mas digamos que ela achasse graça. Ou no caso da mulher entrevistada que não viu problema. Ou na mulher que diz adorar ser chamada de gostosa na rua. Sempre vão existir mulheres a reproduzir atitudes machistas. Mas isso não muda o fato de que o machismo ocorreu.

Quantas vezes ainda me pegarei reproduzindo atitudes sexistas, racistas e preconceituosas. Mas o feminismo me ensina a refletir sobre elas.

Uma mulher defender uma atitude machista não legitima o ato. Até porque ela não se beneficiará em nada daquilo. O homem é beneficiado na escala de poder. A mulher continua saindo na rua a evitar becos escuros com medo do sexo oposto, enquanto o homem branco, hétero e classe média continua no topo da pirâmide.

Vivemos em sociedade. Toda vez que uma mulher é assediada afeta a todas mulheres. Quando vejo uma companheira reclamar do “mimimi” feminista, penso que tenho que lutar em dobro em nome dela. O homem que traz esse argumento vai ter que torcer, em dobro, para que ela não acorde. Porque quando acordar, meu querido, será uma revolução.

3) “Eles são uns meninos”.

Quando uma menina de 13 anos é assediada, dizem que ela tem corpo de mulher, que provocou, que a roupa que usava não era de criança. Quando um homem assedia, ele é menino, não sabia o que estava fazendo, deixa pra lá.
Se a mulher bebe, ela pediu por aquilo.
Se o cara está bêbado, aquele não era o seu verdadeiro “eu” agindo no momento.
Nossos hormônios nos fazem histéricas, loucas.
Para o homem, sua biologia lhe serve de desculpa.
Talvez, a passos lentos e de formiguinha, chegou a hora dos homens começarem a serem responsabilizados. Os poderosos de Hollywood estão caindo. Os brasileiros do vídeo poderão ser punidos. Não tem menino ali. Só vejo adultos vacinados. Em nenhuma de suas respostas, no entanto, eles admitem o erro. Enquanto não aprendem na conversa, vão entender na marra.

4) “Tem que ter cuidado com a internet”.

Que tal trocarmos a frase “tem que ter cuidado com o que postar na rede” por “tem que ter cuidado com o que faz”?.
A culpa não é da internet, não é nossa por estarmos problematizando uma “brincadeira de mal gosto”. Não é das mulheres mal amadas que adorariam atenção de homens. A culpa é de quem não está prestando atenção.
Aproveito para sugerir outra substituição. Vamos trocar “e se fosse sua filha?” para “e se fosse um ser humano?”. Vamos esquecer a lógica dos nossos representantes políticos que chegam no palanque e creditam o voto às suas famílias. Não merecemos respeito por sermos filha ou alguma coisa de algum homem.
Somos seres vivos e isso basta.
Pois bem, é isso que pedimos: diante de uma mulher, enxerguem um ser humano e não apenas uma boceta rosa.……

Tive a oportunidade de conversar com uma russa uma vez. Ela havia se mudado para a Espanha porque disse não aguentar os homens do seu país. “Vim para Barcelona encontrar amor”, confessou.

A Rússia é um lugar altamente machista e repressor. Lembro de ter dito que a situação no Brasil também não é legal. “Somos um dos países que mais mata mulher no mundo”. No final do papo, desejei felicidade durante a busca.

Ao ver o vídeo, lembrei dessa conversa e me perguntei se aquela garota que disse “saí da Rússia porque cansei de lidar com a falta de respeito em casa” conseguiu encontrar o que procurava em outro lugar.

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