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Quando crescer é uma ousadia
Beatriz Braga

Quando crescer é uma ousadia

Publicado em 03/04/2019 por Revista algomais às 14:11

Twyla Tharp é uma famosa coreógrafa estadunidense que já ganhou algo em torno de 10 Tony Awards. Toda vez que ela entra no estúdio para fazer uma nova dança, segundo relata Tara Mohr, autora do best-seller Ouse crescer, ela tem certeza que chegou no derradeiro momento de sua carreira – no qual a plateia irá embora rindo ao perceber que seu talento acabou.

Insegurança não é exclusividade feminina, mas podemos dizer que alguns aspectos sociais distanciam a mulher de sentir-se confiante, ao contrário do que acontece com o homem, que é mais estimulado a enxergar seu potencial.

Existe uma diferença básica de feedback recebido por mulheres e homens nos espaços de trabalho. Um estudo realizado em Harvard por Karen Snyder com 30 empresas de tecnologia, mostrou que 73% dos feedbacks que as mulheres recebem são críticas às suas personalidades. No caso dos homens, o número cai para apenas 2% – o resto está relacionado somente com competência.

Há outros vários estudos sobre a mensagem passada para mulheres de que agradar os outros é mais importante que qualquer outra qualidade. Hábito social que reconhecemos nas narrativas que consumimos ao longo da vida, no qual há o imperativo de “boa moça”, o típico papel da menina estudiosa, quieta, bem comportada versus os personagens masculinos, malandros e brincalhões que se safavam de tudo.

O cuidado exagerado em agradar tem respaldo histórico no quesito “sobrevivência”. Afinal, no passado, o único caminho pelo qual mulheres poderiam crescer socialmente era através de suas conexões, uma vez que não tinham acesso ao poder latifundiário, financeiro, político ou físico.

A necessidade de cativar e o medo de não conseguir fazê-lo é algo que nos é indissociável. O que nos leva a uma análise muitas vezes errada de nossos atributos. Nos julgamos menos preparadas, inteligentes e merecedoras de promoções, salários mais altos e oportunidades.

“Se você perguntar aos homens por que eles fizeram um bom trabalho, eles dirão: ‘Sou demais. Obviamente. Por que você está perguntando?’. Se você questionar o mesmo às mulheres, elas dirão que alguém as ajudou, que tiveram sorte, que trabalharam duro. Por que isso importa? Importa muito porque ninguém é promovido se não acreditar que merece o sucesso, ou se não entender o próprio sucesso”, explica Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook, na palestra Por que temos tão poucas líderes.

Em um cenário sexista e racista, é difícil para as mulheres se sentirem confiantes. Já que o mundo muda a passos de formiga, o livro de Tara traz algumas ideias de como podemos lidar melhor com a autocrítica que termina por nos autoflagelar.

O conselho de “sinta-se confiante”, segundo a autora, é inútil. “Nem as mulheres bem sucedidas se sentem confiantes”, diz.

Uma das suas estratégias é enxergar o feedback como ele é. Toda e qualquer crítica vem carregada de preconceitos e cargas subjetivas próprias. “O feedback só pode dizer algo sobre a pessoa que está dizendo e não sobre quem recebe”, repete como um mantra.

O que não significa que devemos ignorá-lo, mas entender que aquela informação reflete os seus stakeholders. O ambiente que você quer atingir espera aquilo de você. Enxergando assim, “ficamos menos na defensiva e mais curiosas com a crítica”. Para Tara, mudar nosso relacionamento com nós mesmas começa na mudança do nosso relacionamento com críticas e elogios.

Além disso, é preciso identificar a voz interior que nos coloca constantemente para baixo. Já imaginou se você fizesse um diário no qual anotasse todos os pensamentos a respeito de você mesma diariamente?

Nesse barulhento caos de exigências, acabamos com uma voz irritante que nos compara incessantemente e nos vicia a enxergar-nos insuficientes. Essa voz seria nossa “censora interior”. No momento em que você a identifica, consegue enxergar que a maioria das vezes ela está apenas sendo cruel.

Essa voz se preocupa em nos manter seguras na zona de conforto, assumindo menos riscos. Crie, por outro lado, uma “mentora interior” e atribua a ela aspectos de uma persona que você admira e se pergunte constantemente “o que ela faria?”. Se estiver disposta, atribua aspectos bem descritivos (hábitos alimentares, hobbies, maneira de se vestir, como se comporta…) e tente se guiar por ela, tirando a censora de cena.

Apesar de inicialmente ter julgado o livro pelo seu caráter de “coaching”, reconheci-me em tudo que Tara fala (sugiro googlear mais sobre ela por aí). Principalmente quando diz que olha para as mulheres ao redor e pensa que o mundo precisa desse potencial feminino, embora as mulheres não se reconheçam um potencial.

Não é à toa a quantidade de mulheres incríveis em relacionamentos péssimos. Quantas você conhece que se avaliam sempre por menos? Se o lado de fora não ajuda, é preciso trabalhar o que acontece dentro.

O título do livro em português é meio brega, Ouse Crescer (em inglês é Playing big), mas para muitas mulheres, crescer é realmente uma ousadia diante da quantidade de obstáculos que enfrentam. Estive surpresa quando ouvi Tara dizer que, estatisticamente, gerentes mulheres conseguem ser mais cruéis com suas subordinadas que gerentes homens.

A verdade é que não conseguiremos apoiar em outra pessoa aquilo sacrificamos em nós mesmas. Mesmo que você não se considere uma agente de mudança, é importante entender que ao fazer essa viagem para dentro e destruir a casca a qual nos submetemos, estaremos abrindo caminho para que outras mulheres façam o mesmo.

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