Cheiros da vida (por Bruno Moury Fernandes)
Bruno Moury Fernandes

Cheiros da vida (por Bruno Moury Fernandes)

Publicado em 07/08/2017 por Revista algomais às 5:00

Sinto cheiro de flores e frutas tropicais quando estou perto de Tetê e Quinca, meus filhos. É o cheiro do sol nascendo de manhã, da pura natureza. Sinto cheiro de morango com chantili quando estou perto de Milena. É o cheiro do desejo. Sinto cheiro de banana batida com leite condensado e farinha láctea quando estou perto da minha mãe. É o cheiro da minha infância. Sou um homem olfativo. Trabalho esse sentido, diariamente.

Quando cheiro alguma coisa lembro de pessoas ou de lugares. Amo quando alguém fuma perto de mim. É o cheiro do meu pai. Fico impregnado de saudade. Cheiro de guisado na panela então é o mesmo que receber um abraço seu, daquele bem apertado. Cheiro de sargaço remete-me a Itamaracá. Amendoim, me põe no colo da Tia Lídia. Cheirar os pelos de um cavalo é pensar em Fifa, meu irmão. Terra molhada leva-me à Granja Riacho Azul. Perfume francês leva-me ao meu tio Honório, a cabeça mais cheirosa da humanidade.

Até cheiro de suor remete-me a coisa boa: o Carnaval do Recife. O cheiro não precisa ser bom. Cheiro de peido, por exemplo, é estar no meu quarto, adolescente, dormindo com meu irmão. O melhor lugar do mundo, apesar das bufas. Cheiro de milho verde remete-me ao amigo de infância, Macaxeira, que vomitou em cima de mim, após comer misturado com quibe. Cheiro de cachorro quente remete-me ao colégio Atual. Cheiro de fritura me leva às coxinhas de aquário que comia nos jogos do Sport, na Ilha do Retiro.

Posso passear sem sair de casa. Se me trouxeres coentro e cebolinho estou na feira de Casa Amarela. Se me deres café estou na casa da minha avó. Se me falas de perto com hortelã estou sentado na cadeira de Tio Tuca, meu dentista.
Haja nariz para tanto cheiro. Mas esse não é um problema para as pessoas da minha família. Meus tios não têm narizes, na verdade eles possuem naralhos! Um deles resolveu fazer uma plástica para diminuir. A esposa pediu “tore outra coisa que é melhor”. Perguntado o motivo, ela respondeu com franqueza: “gostaria de preservar a única coisa grande e dura que ainda há em ti”.

Se me trazes manjericão estou em Milão. Se colocas camarão na panela, mergulhado no azeite, estou no Pinóquio, em Lisboa. Se me entregas salsa estou na casa da sogra. Perfume de bebê, meu afilhado Guigui e meu sobrinho Tomé. Cheiro de energético leva-me à farra. Creolina me põe com meus cachorros, na casa onde morávamos, em Casa Forte. Cominho é de fome. Bromélia é de rede e varanda. Mas cheiro bom mesmo é de livro. Melhor do que ler, é cheirá-lo.
Quero sentir cheiro e catinga, para lembrar que a vida é feita de altos e baixos. Quero todos os cheiros que a vida possa me dar. Quero cheirar o mundo! Quero cheirar cada esquina por onde já passei e por onde vou passar. Quero cheirar até o cangote azedo de Joaquim quando da escola chegar. Quero cheirar o perfume da vida até a morte se apresentar. Esticar o tempo até sentir o cheiro que a malvada terá. Suspeito que seja de avenca. Aquela que enfeitou o caixão do Dr. Edmar.

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