Chocolate
Bruno Moury Fernandes

Chocolate

Publicado em 29/01/2019 por Revista algomais às 12:21

Faltava quase meia hora para o início da audiência quando adentrei na Vara do Trabalho de uma cidade da Mata Sul de Pernambuco. A advogada do trabalhador veio em minha direção e perguntou-me, como de costume, se havia proposta de acordo. Seria mais um dia normal de trabalho na rotina de um advogado trabalhista de usina. O negócio era meio que tabelado. O trabalhador safrista receberia R$ 500, caso cedesse ao acordo. Se estivesse “reclamando duas safras”, o valor seria R$ 1 mil.

Bastava acionar o piloto automático e o dia seria como outro qualquer. A ordem da usina era fazer uma proposta em valores inferiores, até que se chegasse, no máximo, aos limites pré-fixados. Como Sr. Irineu tinha laborado apenas uma safra, a proposta a ser feita era de míseros R$ 300, para se chegar até no máximo a quinhentas pratas, limite imposto pelo meu cliente.
Depois de fazer milhares de acordos em período de um ano, passei a enxergar as pessoas como números, sem saber as histórias e experiências de vida que possuem as linhas daquelas mãos ásperas e calejadas. Passei a ignorar, por força da rotina e por insensibilidade mesmo, que diante de mim existiam expectativas, sonhos, amarguras, desejos, necessidades e frustrações.

Adentramos na sala de audiência. Como de praxe, a juíza perguntou se as partes tinham interesse numa conciliação. Eu disse que do lado da usina interesse existia. A advogada do reclamante sugeriu o valor R$ 1.500. Do lado de cá eu disse que a proposta seria trezentos contos. Um abismo entre os dois polos. O jogo se joga assim mesmo. Três pessoas discutindo valores como se naquele recinto não houvesse mais ninguém, nem mesmo Sr. Irineu, o dono do dinheiro. Depois de alguns minutos de negociação, ouve-se a voz mansa e calma vinda do caboclo:
“Eu aceito”

A Juíza retrucou:
“Sr. Irineu, essa proposta da usina é muito baixa. Eu não homologo o acordo se o valor for este”.

“Mas eu quero”, insistiu o pobre coitado, agora com a voz embargada.

“Mas não vou homologar não senhor”.

“Excelência, a usina chega a R$ 500 pra fechar agora”, encurtei o papo porque a juíza já havia homologado milhares de acordos nesse mesmo patamar e não havia porque não fazer o mesmo neste caso.

“Seja lá qual for o valor, por favor, encerrem logo isso, e me entreguem o dinheiro”. O tom de voz já meio choroso do trabalhador, deixou transparecer um certo desespero, fazendo pairar no ar a curiosidade de todos, deixando a sala em silêncio. Ele continuou:
“Hoje é aniversário da minha filha, Jéssica. Ela tem 9 anos. Eu prometi que volto para casa com seu presente. Eu não tenho dinheiro nem para o ônibus da volta. Mas, doutores, eu volto pra casa hoje nem que seja com uma barra de chocolate. Nem que eu tenha que assaltar. Vocês podem ser letrados, mas nunca vão saber o que estou sentindo”.

Mais alguns segundos de silêncio profundo…
“Acordo homologado!”, sentenciou a juíza em voz alta e com olhos marejados.

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