Cinema: Diretora de arte, Séphora Silva fala sobre os desafios da profissão em Pernambuco
Wanderley Andrade

Cinema: Diretora de arte, Séphora Silva fala sobre os desafios da profissão em Pernambuco

Publicado em 20/03/2019 por Wanderley Andrade às 9:18
Bastidores de "Três Contos de Réis", 2005.

As belas imagens de alguns filmes às vezes chamam mais atenção que a própria história que está sendo contada. Produções como O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, com sua fotografia e cenários por demais coloridos e marcados principalmente pelo uso da cor rosa, enchem os olhos de qualquer espectador, inclusive dos menos atentos. Isso se deve ao trabalho de um profissional de grande importância para o processo de produção de um filme: o diretor de arte. Pernambuco tem nomes de peso que se destacam na função, como Thales Junqueira (Aquarius, Divino Amor) e Renata Pinheiro (Hotel Atlântico, Zama).
Para falar sobre as alegrias e desafios relacionados à profissão, conversei com Séphora Silva, outro importante nome relacionado à direção de arte e cenografia no estado. Arquiteta de formação, trabalhou no drama dirigido por Tuca Siqueira, Amores de Chumbo, história que tem como pano de fundo o período da Ditadura, e, recentemente, no filme de horror Recife Assombrado, de Adriano Portela.

 

O que te levou a trabalhar com direção de arte?

Foi o acaso. Eu já era arquiteta e conheci uma produtora de Recife que me apresentou esse mundo desconhecido dos bastidores do cinema- porque cinéfila eu sempre fui. Ela me convidou para ser assistente de arte num curta (Maracatu, Maracatus de Marcelo Gomes, 1994) e eu acabei sendo picada pelo bicho do cinema. Nunca mais saí dele.

Qual o maior desafio enfrentado por quem trabalha com direção de arte em Pernambuco?

Primeiro, formação na área. No início, apesar de ser arquiteta, eu não tinha nenhum conhecimento da técnica, do que era uma produção de cinema e tive necessidade de estudar sobre isso. Foi quando ganhei uma bolsa para fazer o curso de Capacitação e Formação em Audiovisual na Universidade de Guadalajara – México. Lá eu pude entender e praticar todo processo de produção e fui me especializando na área de arte (cenografia, maquiagem, figurino, arte). Depois voltei para Recife e entrei no mercado de audiovisual exercendo várias funções antes de ser diretora de arte. Achei fundamental exercer funções de produção de arte, objetos, cenografia, além de fazer cursos de efeitos especiais/maquiagem, antes de me lançar como diretora de arte, pois, vejo essa função muito mais conceitual e creio que requer experiência e pratica de pesquisa/referências e projeto de arte propriamente dito. Não consigo conceituar uma arte sem escrever um texto, fazer um projeto referenciado com muita pesquisa, elaborar paleta de cores. Depois de entender o que é arte em cinema, me deparei com o entendimento que a direção de arte não é considerada área fundamental /essencial para uma produção audiovisual. O que acontecia em Recife é que projetos de audiovisual acabavam com previsão de equipes muito pequenas e orçamentos muito baixos para a arte, embora os roteiros sejam sempre detalhistas e rebuscados no que se refere a direção de arte. E equipe pequena, ou composta por pessoas com pouca experiência na área e verba mínima, são uma combinação que acaba comprometendo a qualidade do trabalho. E isso é perceptível na tela. Mas isso também já vem mudando há alguns anos e acredito que vai melhorar. Algo que acredito que ajudaria bastante nesse entendimento é a divulgação dessa área pelos meios de comunicação, por exemplo, quando se fizer uma matéria sobre alguma produção citar a arte, entrevistar o/a profissional responsável pelo trabalho. O que acontece na mídia local é que sempre se restringe a informar sobre a direção, elenco, produção e nunca a arte é citada ou referida nas matérias. Tô achando ótimo você me entrevistar e eu poder falar isso!

Série de TV “Fãtásticos”(2017), direção de André Pinto e Henrique Spencer.

 

Qual caminho inicial deve percorrer quem deseja trabalhar na área?

Na minha opinião, quem quer trabalhar na área não tem que apenas ter bom gosto estético, sugiro que, além do curso superior de cinema onde a formação em direção de arte é muito restrita, tentem uma formação na área de arquitetura, artes visuais, design. Isso dá uma diferencial muito grande no resultado do trabalho. E também recorrer a oficinas e workshops na área onde se possa compartilhar experiências com outros profissionais. Arte em cinema não é apenas um trabalho intuitivo que requer muita criatividade para lidar com as pressões e mudanças que acontecem diariamente numa produção, é um trabalho que precisa ser referenciado e por isso ter um projeto embasador é tão importante. Com um projeto consistente, as mudanças podem acontecer sem que o resultado seja comprometido em sua essência. Isso garante a qualidade final no trabalho e dá pra ver claramente na tela.

“Um Médico Rural” (2010), direção Claudio Guedes.

Dos trabalhos que já realizou qual mais te marcou profundamente?

Todos os trabalhos são um grande aprendizado, pois, arte no cinema é muito específica de momentos/situações determinados pelo roteiro, então fica difícil dizer qual foi mais marcante. Na verdade, tenho um carinho especial por todos eles. Posso citar como exemplo “Três Contos de Reis” (Maria Pessoa, 2005), minha primeira participação como diretora de arte e cenógrafa para um curta que se passava em 1860 e foi dificílimo fazer a reconstituição de época. Recife é uma praça difícil para produção de época e foi uma responsabilidade muito grande, mas o resultado ficou ótimo, o mais autêntico possível, verossímil mesmo, posso até dizer. E ficou bonito. Dos longas, o desafio maior até o momento foi fazer o “Recife Assombrado” (Adriano Portela, 2017), que está em finalização, porque é um gênero muito específico: terror. Tô aguardando para ver o resultado. E tem o “Amores de Chumbo” (Tuca Siqueira), que foi o primeiro longa que fiz direção de arte e cenografia (sempre assumo a cenografia, essa é uma vantagem de ser arquiteta) e me rendeu dois prêmios (Festival de Cinema de Triunfo e Fest Ibero-Americano de Cinema de Caruaru, ambos em 2018) importantes na área. Prêmio é sempre um reconhecimento do nosso trabalho e fiquei muito feliz com isso.

Direção de arte no teatro e cinema: qual setor tem mais oportunidades de trabalho no Brasil? Por quê?

Na prática não tenho como te falar do Brasil, posso te falar de Recife, a praça onde trabalho. Na teoria, pelo que leio de artigos e matérias sobre o assunto, creio que o cinema tem mais oportunidades no momento, pois é uma indústria que está se consolidando cada vez mais e o teatro ainda é uma arte considerada de inserção mais restrita na sociedade. Aqui em Recife, a direção de arte para teatro é um conceito novo, pois, sempre foi a cenografia a responsável pela visualidade do espetáculo, mas já fiz tanto cenografia, apenas,  como direção de arte e cenografia para teatro aqui. Em São Paulo, esse conceito já faz parte do mercado há muito tempo e o número de produções de diferentes gêneros do teatro é muito grande. O mercado aqui é pequeno e depende muito de editais públicos para se sustentar. No caso do cinema também se depende quase que exclusivamente de editais para que as produções sejam realizadas, mas a sustentabilidade desse mercado já é bem maior do que a do teatro. O número de produções de cinema aumentou bastante, e consequentemente o número de profissionais que se dedicam a essa área também, o que o deixa muito mais competitivo. Eu acho que o cinema tem mais oportunidades de trabalho atualmente.

Quais os principais projetos para o futuro?

Estamos passando por um momento econômico confuso e os editais estão sendo muito visados na área da cultura, a exemplo do Funcultura Audiovisual que até o momento não saiu. Isso é um indício nada auspicioso pro mercado e para se trabalhar com cinema (e teatro também) temos que contar com os editais públicos e se eles não acontecem o mercado fica estagnado. Mesmo que exista editais de fluxo continuo e profissionais locais que já tenham acesso garantido a eles devido a seus currículos na área, a dependência desse tipo de financiamento é muito grande e isso pode prejudicar o número de produções locais, e consequentemente, a redução de trabalho na área. Agora é aguardar os acontecimentos e enquanto isso, elaborar projetos alternativos de ensino na área (cursos, workshops, oficinas) e tentar preencher essa lacuna de formação que citei antes. No meu caso, além do cinema e do teatro, também atuo na arquitetura e na área de light design – área na qual tenho pós-graduação, então, tenho uma diversidade de áreas para atuar. Isso me ajuda na entressafra do cinema. Mas torço muito para que nossos profissionais de cinema, que já provaram que são incríveis, tenham cada vez mais produções realizadas e eu tenha oportunidade de trabalhar com eles.

Monólogo “Próxima”, direção Sandra Possani.
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