Coronavírus / Onde eu estava antes
Beatriz Braga

Coronavírus / Onde eu estava antes

Publicado em 23/03/2020 por Revista algomais às 9:55

Eu pensava que quando o mundo se unisse novamente em terror, iríamos reconhecer sua chegada pelo barulho.

Gritaria, despertar de noite com bomba tocando no chão.

A minha ideia da guerra.

Mas o terror chegou e faz silêncio. É possível escutar os passarinhos que anunciam a calmaria de um feriado. E tudo que eu olho me causa pânico.

Porque o terror é também uma lupa.

Faço exercício em casa, presentada pelo sol que vem da janela. Até perceber o ridículo da cena. No silêncio da cidade, como são escandalosos os nossos privilégios.

Os vizinhos, nem nas poucas saídas necessárias, os tenho visto. Um de longe, outro passou aflito, que acabei ansiando por alguém se aventurando no elevador.

Mas não pegamos mais elevador juntos.

Invertemos os papéis com os nossos pais e avós. Será que infectei, por que não fui mais rígida, eles estavam se cuidando quando não estavam trancados em casa? Estranho proteger quem nos protege.

Mas a dor é uma lupa.

Onde eu estava antes, sem fazer nada sobre o meu direito gritante ao chão debaixo do tapete, ao sol na janela, que sempre nasceu mais para uns do que para outros.

Aos vizinhos que sinto saudade, percebo que não sei os seus nomes.

Onde eu estava antes, além de pouco interessada nos que agora fazem falta? Será que estão bem os vizinhos dos quais me esforço, mas não consigo lembrar como chamam?

Onde eu estava antes, sem muito fazer pelo amor às minhas tias, tios, pais. Os avós nem tenho mais a chance. Quantos dos nossos idosos já não estavam em quarentena, na solidão cruel tão comum à certa idade?.

Estática, com raiva do tapete, da janela e do sol, não consigo parar de pensar: onde estava eu antes. Até entender que preciso me ocupar de onde estou agora.

Não é tudo que temos? O que sou hoje e o que posso me tornar. Mesmo impotentes, não fiquemos estáticos.

Quando se sentir ansioso ou triste, se ocupe em cuidar.

Ligue para os mais velhos, se conecte com os vizinhos, esteja próximo da sua família e amigos.

Troque o pânico por informação, o terror pelo fôlego.

Pense em como pode ser útil para a comunidade, para seu bairro, para os trabalhadores perto de você.

Vi grupos de whatsapp para professores se conectarem com alunos da rede pública; doação de material para profissionais de saúde. Tem muita gente precisando de utensílios básicos, dinheiro, comida ou um ombro amigo virtual.

Se estiver com medo do futuro, pensando nos cenários apocalípticos, faça uma lista.

Pegue sua lupa e olhe onde está doendo mais. Repense prioridades. Escreva as tarefas e desejos para quando tudo isso passar, porque vai passar.

Que a lista seja o menos autocentrada possível. E, quem sabe, possamos todos sair dessa um pouco melhores do que estávamos sendo antes do silêncio chegar.

Para continuar lendo:
Tenha acesso a 5 textos
gratuitos todo mês
Cadastre-se gratuitamente »
Aproveite todo conteúdo da Revista Algomais sem limites
Assine »