Crônica do amor barato
Beatriz Braga

Crônica do amor barato

Publicado em 04/07/2018 por Revista algomais às 10:06
Divulgação

*Por Beatriz Braga

Cada dia vejo mais mulheres querendo desistir do amor. De relacionamento abusivo a outro amor meia boca, é comum ir perdendo o gás. O que salva em tempos difíceis são os exemplos bons e saudáveis resistentes ao tempo. Peço licença, pois, para uma crônica sobre o grande amor que eu conheço.

Na casa dos meus pais, os sons do casamento estão em todos os lugares.

Os interruptores que ascendem e desligam como os dias que chegam e vão; os chinelos acusando a vida pela casa; o barulho dos garfos que batem um no outro enquanto são lavados e anunciam que o domingo, enfim, acabou; a música do final do filme na sala de estar.

Quando era adolescente, tinha um pé atrás em relação ao conceito de casamento. Considerava a rotina o contrário da liberdade e achava que a estabilidade emocional tiraria o direito – tão delicioso – de um pouco de solidão pessoal. Mas, volta e meia, tudo mudava diante de pequenas situações (pequenas?) que testemunhava da rotina dos meu pais.

Eles estão quase chegando aos 40 anos de casados.

Hoje se apaixonaram de novo. Ninguém viu, apenas eu e o vento.

Amor é vento leve, intruso, ambiente e incolor.

Um dia comum, televisão ligada, jornal na mesa, ela e Fernando Pessoa no sofá, ele com seu futebol e TV. Eis que surge o prefácio: uma conversa trivial. Ele começa a falar sobre uma queda homérica em uma pelada quando era jovem.

“E como foi?” Pergunta minha mãe, com um tom empolgado só dela.

De repente, vieram os gestos, os risos, o interesse, a exaltação. Chamou-me a atenção a forma como se olhavam. Riram, brincaram, lembraram. Não é fácil enxergar alguém que enche seu campo visual tantas horas por dia, quase a vida toda.

Mas havia, ali, sintonia. A retina não criava obstáculos. Eles, de fato, se olhavam.

O amor apareceu dizendo que é rotina, dia-a-dia, algo ao qual a paixão não sobrevive. Paixão é avassaladora, traduzível, forte. Amor é sutil, imprevisível, terno.

O ar da sala se encheu de energia positiva. Aos olhares que se cruzavam do amor barato e cumplicidade, havia o meu, de admiração e estranhamento.

Como assim, depois de quase quatro décadas, ainda há histórias a serem contadas? Tanta atenção a ser dada? O amor se recicla, se renova e emancipa nos momentos banais. Meus pais se apaixonam de novo várias vezes e nem notam.

A ideia de convenção estagnada que tempera o casamento se desvanece. Existe, ainda, a grande sacada do matrimônio para quem ainda está disposto a se enxergar: o amor que brota da rotina.

– Bem vindos amigos da Rede Globo… Dizia certa voz desmancha-prazeres do lado esquerdo do cômodo.

Ele voltou ao seu esporte. Ela às suas poesias. Eu fiquei, de longe, observando.

– Pai, como é mesmo aquela história daquela queda?

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