De mudança…
Bruno Moury Fernandes

De mudança…

Publicado em 17/03/2020 por Revista algomais às 17:50

Não posso conversar muito agora, estou de mudança! Não é de país, de profissão ou de sexo. É somente de endereço mesmo. Tenho dificuldade tremenda de me afastar definitivamente do local ao qual pertenci por tantos anos. Mesmo que o destino seja a apenas dois quilômetros daqui. Por mais que você se programe, na hora do vamos ver, não há como segurar o escorrer de uma lágrima no canto do rosto. Preciso ser arrancado à força.

Olha lá, é o danado virando a esquina. O caminhão da mudança chegou. Estaciona na frente do prédio. Abrem-se as portas do baú que engolirá minhas coisas e as levará para o novo, o desconhecido. Então arrastam meus livros, discos, penduricalhos. Empacotam fotos, meu passado, e os jogam como se não valessem nada, na carroceria de um velho caminhão.

Tomem cuidado com a foto-pintura do meu querido pai. Prestem atenção para não quebrarem as taças que de tantos goles já se moldaram aos lábios meus e do meu amor. Que de tanto amor, novos moradores surgiram. Não danifiquem o Reynaldo que adornou por tantos anos a sala desta casa que, há minutos atrás, era um lar. Sejam sutis com a boneca preferida da minha filha. Ela chora de verdade e parece mesmo se agarrar às prateleiras, sem querer abrir mão do conforto interrompido por esses trogloditas da Transportadora Insensíveis S.A.

Então nada mais resta nestes quartos, nesta varanda, neste corredor. Apenas a vista da Zona Norte do Recife, a qual contemplei por sete anos, daqui do vigésimo oitavo andar. Sobrou apenas o relógio pendurado na parede da cozinha a me lembrar que o tempo voa, pois parece que foi ontem que aqui cheguei. Estou indo embora. Não, não fui despejado. Saio porque quero, em busca de novos ares. Em busca de um lugar ainda melhor, mesmo sem saber se realmente isso é possível. Já morei em tanta casa que nem me lembro mais. Mas é sempre doído despedir-se de um lugar onde se foi feliz.

Não é bem às coisas que me apego. Mas aos lugares e às pessoas. Saudade sentirei dos amigos queridos. De Sílvia, a zeladora, trazendo-me o jornal da manhã. Mas não sentirei falta dos direitistas do vigésimo sétimo andar, porque estes já são amigos da vida toda. Os do terceiro, aviso logo, terão que me engolir porque os filhos são meus irmãos, então decreto: somos uma família e, como tal, teremos que nos aturar.

A vida é feita de idas e vindas. Entro no novo prédio e uma senhora me aborda no elevador:

– Você é o novo morador?
– Sim, senhora.
– Você vai amar morar nesse prédio, mas cuidado com as amizades, tem gente aqui que não presta.

Tudo se repete. Sete anos atrás, me diziam a mesma coisa no prédio de que ora me despeço. Claro, a pessoa também estava errada. Isso é sinal de boas vindas. Indícios de que, de frente para o Capibaribe, serei ainda mais feliz. A única coisa que não se repete é o valor anual do IPTU. Todo ano vem reajuste, independentemente de onde habitemos. Valei-me minha Nossa Senhora dos Contribuintes!

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