Há tiros que vêm para o bem
Joca Souza Leão

Há tiros que vêm para o bem

Publicado em 17/04/2019 por Revista algomais às 13:21

Um velho amigo fez exame de PSA. O resultado deu ali, no limite. E, comparando com o anterior, não havia, mesmo, o que comemorar.
E lá foi ele para o (desagradável, pra dizer o mínimo) toque retal. Tem médico que não é muito de falar. Esse, mesmo, parecia que tinha como dogma “não se fala sobre o que o dedo sente”. Indicou um ultrassom.

Se alguns falam pouco, o do ultrassom, então, não falou nada. “Dr. Fulano vai encaminhar o relatório para Dr. Sicrano, o seu médico” – disse a atendente. E a torada de aço continuou.

O ultrassom revelou que a danada tava bem aumentada. “Pra saber se é ou não (aquilo), só com a biópsia (eita palavrinha desgraçada!)”.

Pelo local de acesso (que, como se sabe, não foi feito para entrar nada, mas sair) entraram os instrumentos e saiu o fiapinho de próstata que foi para a biópsia (sentença a ser prolatada, sem direito a recurso). Maligno ou benigno?

O adjetivo benigno significa de boa índole, benévolo, bondoso. Não sei como um tumor pode ser de boa índole, benévolo e bondoso. Mas pode. Quer dizer, bom não é. Mas tem as suas bondades. Fica ali, no canto dele, crescendo, mas sem migrar para outros órgãos. Pode doer, sangrar, interferir nas funções dos vizinhos, mas matar, mesmo, só se deixar ele lá, crescendo e tomando gosto. Tratou ou operou, fica bom.

O outro, o maligno, não. Quando se opera ou a trata, aí é que a novela começa. Quimio, rádio, acabou, não acabou… aguarde o próximo capítulo. Hoje em dia, no entanto (e felizmente), começa como novela das nove, dramática, e acaba, quase sempre, como novela das seis, amena. Como li outro dia (não lembro onde), “ser homem já foi mais perigoso”.

Coisa certa é que há males que vêm para o bem. Ó só essa história que bem ilustra o provérbio (e está ligada à do meu amigo, como se verá a seguir).

Fim de feira em Puxinanã, cidade vizinha a Campina Grande. Pedro de Assis tava num bar com amigos, quando entrou um sujeito e perguntou “Você é Arnaldo?” “Não – disse Pedro – sou Pedro de Assis.” O sujeito sacou o revólver e descarregou a queima-roupa.

Primeira sorte de Pedro. O sujeito era ruim de pontaria. Só acertou um tiro. Mas, pela localização, altura do coração, os médicos do Hospital Dom Luiz Gonzaga Fernandes, de Campina, não acreditavam no que estavam vendo. Pedro chegou à emergência orientado e falante. Nem parecia.

Abriram-lhe o tórax. A explicação tava lá. Pedro tinha um baita tumor de mediastino. Esse, sim, o que se poderia chamar de tumor benigno, benévolo. O bicho tinha afastado o coração do seu lugar de origem. Assim, o que o tiro transfixou não foi o coração, mas o tumor. Os médicos só concluíram o que a bala começou.

Hoje, Pedro é enfermeiro aqui no Recife. E dá plantão no hospital em que meu amigo, personagem desta crônica, está convalescendo da cirurgia de hiperplasia prostática. (Nem maligno nem benigno, nem tumor era.)
Assim como tumores, há tiros que vêm para o bem.

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