Insipiente ou incipiente?
Marcelo Alcoforado

Insipiente ou incipiente?

Publicado em 17/04/2018 por Revista algomais às 5:00

Mesmo que você não saiba de que estamos falando, nestes tempos em que vivemos responder a tal pergunta é fácil. Muito fácil. Basta consultar um dos bons dicionários existentes como o Aulete, o Aurélio, o Houaiss ou o Michaelis. Se, no entanto, a mesma pergunta fosse feita em fins dos anos 1700 e meados dos anos 1800, você consultaria o Dicionário Moraes, como ficou conhecido o Dicionário da Língua Portuguesa elaborado pelo carioca Antônio de Moraes e Silva, o primeiro dicionário de português feito por um brasileiro.

Como você vai ver, a história vem de longe.

O Vocabulário Latino e Português, alentada obra em oito volumes, mais dois tomos suplementares, era publicada em Lisboa, entre os anos 1712 e 1721. Décadas após a morte do autor – o padre Rafael Bluteau – Antônio de Moraes e Silva reciclou o seu conteúdo, adotando-o como base para lançar o primeiro Dicionário da Língua Portuguesa.

De pronto, foi suprimido o escalafobético título “Vocabulario Portuguez e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico, Brasilico, Comico, Critico, Chimico, Dogmatico, Dialectico, Dendrologico, Eclesiastico, Etymologico, Fructifero, Geographico, Geometrico, Gnomonico, Hydrographico, Homonymico, Hierologico, Ichtyologico, Indico, Isagogico, Laconico, Liturgico, Lithologico, Medico, Musico, Meteorologico, Nautico, Numerico, Neoterico, Ortographico, Optico, Ornithologico, Poetico, Philologico, Pharmaceutico, Quidditativo, Qualitativo, Quantitativo, Rethorico, Rustico, Romano, Symbolico, Synonimico, Syllabico, Theologico, Terapeutico, Technologico, Uranologico, Xenophonico e Zoologico”, abonado com exemplos dos melhores escritores portugueses e latinos.

Criterioso, deu à obra o nome completo de Diccionario da Lingua Portugueza Composto pelo Padre D. Rafael Bluteau, Reformado e Accrescentado por Antônio de Moraes e Silva. Apesar do cuidado quanto à autoria, no entanto, tratava-se de obra completamente diferente do “Vocabulário”, de maneira que, embora houvesse atribuído coautoria ao padre Rafael Bluteau, era o brasileiro o legítimo autor do primeiro “Dicionário”, tanto que levava o seu nome. Na edição seguinte, pois, ele assumiu a autoria plena da obra, cuja qualidade foi reconhecida não só no Brasil, mas também em Portugal.

A propósito, para os especialistas o Moraes marcou o início da lexicografia portuguesa moderna, origem e fundamento de “toda a genealogia lexicográfica desenvolvida ao longo dos últimos 200 anos, além de fator de integração entre Brasil e Portugal”.
No transcorrer de dois séculos, ele foi reeditado inúmeras vezes, tornando-se sinônimo de “dicionário” em português. Basta dizer que até Machado de Assis chegou a usar em suas crônicas “o Moraes” com o sentido de “o dicionário”.

A décima edição do Dicionário Moraes, publicada entre 1948 e 1958, ocupou 12 grossos volumes, totalizando 12 mil páginas em que definia mais de 300 mil palavras que faziam dele o maior dicionário da língua portuguesa da época.

Concluída sua obra mais importante, então, em torno de 1802, Moraes e Silva veio para Pernambuco, onde se dedicou à advocacia e à lavoura da cana-de-açúcar, na Muribeca, hoje distrito de Jaboatão dos Guararapes. Aqui ele ficou eternamente, sepultado que foi em abril de 1824.

Ah… quanto ao significado das perguntas do começo desta conversa, insipiente é quem não tem saber, que não é sapiente, pois, enquanto incipiente é o mesmo que principiante, inexperiente. Quem afirma é o Aulete, um dos mais respeitados dicionários da atualidade. Como foi o Moraes.

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