O galeguinho da matrícula
Bruno Moury Fernandes

O galeguinho da matrícula

Publicado em 28/09/2019 por Revista algomais às 5:00

O ano era 1983. Minha família de mudança da Zona Norte para a Zona Sul. Na época do boom imobiliário de Boa Viagem, mudar-se de Casa Forte para lá, era como atravessar o Atlântico, de caravelas, rumo ao novo mundo. Porque tudo era novidade. A turma bacana vestia-se na Drops, lanchava na Karblen, surfava em frente ao Vila Rica com uma prancha Alamoa e morava próximo ao Shopping Center Recife. Nas nossas bicicletas BMX atravessávamos o podre e fedentino canal, passando por uma ponte de madeira, rumo ao playtime lá do shopping. Tudo era realmente novo para o meu mundo.

Minha impressão é que foi naquela época o início da moda das academias. Digamos que tenha sido mais ou menos por ali plantada a semente da febre da malhação. Pelo menos uma, por semana, era inaugurada em Boa Viagem. Muito semelhante ao que acontece hoje, no Recife, com as farmácias Drogasil. Mas voltemos a 1983, quando farmácia, pela madrugada, só se encontraria nos quatro cantos das Graças. Meu pai teve a brilhante ideia de matricular todos os integrantes da família para malharem juntos. Ele, meus dois irmãos, eu, minha mãe e um tio que morava conosco. Malhamos por uma semana.
Empolgação total. Na outra, meu pai não podia ir. Na seguinte, meu tio tinha compromisso. Doravante, minha mãe ocupada. Bem, eu era uma criança e não poderia ir sozinho. Enfim, apenas nos matriculamos e a novidade minguou. Isso porque naquela época exercício pesado era polichinelo. Avaliem!

Durante toda minha vida, graças ao mau exemplo da família, fui assim. Sempre preenchi a ficha de inscrição. Meu discurso sempre foi o de dizer que “quero ter saúde” e tal. Nunca malhei de verdade. Cheguei a ficar conhecido na academia Performance como o galeguinho da matrícula. Se passasse pela frente, a turma chamava para atualizar o cadastro. Logo estava fechando um novo plano. Nunca fui de malhar. Odeio exercícios. Com todas as forças do universo sideral.

Estamos em 2019. A bola da vez é o crossfit. Como sou persistente, fiz a matrícula. Bem perto aqui de casa que á para não ter desculpas. Mas pela primeira vez, mudei o discurso. No questionário inicial, perguntaram qual o meu objetivo. “Ficar muito forte”, respondi. Nada de “quero apenas ter um corpo saudável” como disse nas 987 matrículas que fiz de 1983 para cá.
Comecei os treinos há dois meses. E adivinhem? Estou odiando, claro, como sempre! Mas por alguma razão tenho permanecido e insistido mais do que nas outras vezes. Já passei dos 40 e a flacidez das carnes tem me incomodado. Além disso, percebi nitidamente ganho de massa muscular, pela primeira vez. Ou seja, estou odiando como sempre e ficando forte como nunca.

Às vezes só precisamos mudar o discurso. Depois, claro, a atitude. Sempre fui mestre na arte da autossabotagem. Resolvi me levar a sério. Agora sou o galeguinho do crossfit. Estou bem satisfeito. Mesmo estando numa academia onde sou o mais velho da turma e todas as mulheres são bem mais fortes do que eu. Às vezes levo aquele galeguinho de 1983 comigo e vejo, no canto da sala, ele e meu pai fazendo polichinelo, felizes da vida.

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