O poder da mulher que goza
Beatriz Braga

O poder da mulher que goza

Publicado em 20/03/2018 por Claudia Santos às 17:25
Personagem de Meg Ryan no filme Harry e Sally, feitos um para o outro

Somos viciados em sexo. Não apenas porque a indústria pornográfica movimenta muito dinheiro, mas porque o sexo está no epicentro das nossas vidas. Sexo vende moda, produtos, arte e nos define, em muitos momentos, enquanto indivíduos. Para um mundo tão obcecado pelo tema, somos bem ignorantes quando o assunto é o prazer feminino.

Existe, por um lado, séculos de pesquisa científica dominada por homens. A noção de sexualidade que temos foi definida pela visão masculina do prazer e do sexo. Não é à toa que o clitóris ainda é muito ignorado e mal interpretado. O pai da psicanálise, Freud, por exemplo, foi um dos mais ferrenhos inimigos dessa exclusividade feminina.

Cena da série Girls

Por outro, a religião faz da sexualidade algo perverso que deve ser regrado. Através dela, aprendemos como, quando e com quais pessoas podemos dividir nossos desejos. O nome é um tabu, seu formato é misterioso, o cheiro é um problema e ao longo da história da humanidade “satisfazer uma mulher” é tido como algo tão difícil quanto correr uma maratona. Perseguida, piu-piu, xereca, procurada, dita-cuja, bacalhau, engole-espada, casa do caralho e siririca. A linguagem não mente. O que a mulher tem no meio das pernas ora é um asco, ora é um acessório, ora é um objeto não voador não identificado.

No meio desse imbróglio de desconhecimento e culpa, vem Flaira Ferro. A artista pernambucana acaba de lançar o clipe divertido e importante “Coisa mais bonita”. A “coisa” é a famigerada masturbação feminina, cantada por Flaira de maneira desmistificada. “Não tem coisa mais bonita, nem coisa mais poderosa do que uma mulher que brilha, do que uma mulher que goza”, diz a música.

O clipe é uma afronta. Primeiro, à visão patriarcal do corpo feminino, que deve ser discreto e misterioso. Sempre o “outro”, nunca o sujeito. Segundo, à educação galgada no “fecha a perna, menina”, que transforma a vulva em uma parte a ser silenciada.

No vídeo, oito mulheres corajosas o suficiente para se expor em um mundo tão careta são filmadas no ato da masturbação (detalhe importante: nada foi fingido). Elas fazem um chamado ao autoconhecimento e, culminam, em sintonia, no orgasmo. O vídeo já passa de 120 mil visualizações no Youtube, chegou a ser retirado da plataforma por algumas horas e recebeu uma variedade críticas positivas e negativas.

Enquanto o homem passa a vida brincando com o pênis, a mulher é ensinada a ter vergonha. Esse é um aspecto tão forte da nossa cultura que a labioplastia (cirurgia plástica da vagina) virou tendência nas mulheres que não gostam do aspecto de suas vulvas. O Brasil é o líder mundial no número de procedimentos do tipo, cujo visual mais procurado pelas pacientes é um clichê: batizado de “Barbie”, o objetivo é que os grandes lábios pareçam ao de uma boneca.

Sexo trata-se de diversão para o homem; para a mulher, tantas vezes, significa dor. A sociedade não apenas nos priva do autoconhecimento, como também nos divide em duas categorias: a “feita pra casar” e a puta.

A mulher que tem desejos, que fala sobre eles e que vai atrás deles é sempre a vadia. A que finge não tê-los é a mulher-modelo. A prostituição abraça essa mentalidade quando o homem recorre à profissional do sexo para não “manchar” a mulher “de respeito” com seus desejos. Isso é tão forte que, mesmo dentro da segurança – ou do que deveria ser – de um relacionamento, as mulheres ainda sofrem com o sexo.

A psicóloga Sara McClelland, da Universidade de Michigan, descobriu que, ao questionar mulheres sobre suas vidas sexuais, elas mediam seus níveis de satisfação pelo fato do homem ter sido satisfeito ou não no ato. Quando perguntado aos homens, a grande maioria das respostas girava em torno de seu próprio gozo. Em A mulher de 30 anos, do escritor Balzac, a personagem Júlia definiu casamento como uma “prostituição legal”. Vez ou outra lembro dela, ao escutar histórias sobre o quanto sexo pode ser ruim para uma mulher, não importa o estado civil.

Uma mulher dona da sua libido é uma ameaça ao patriarcado. Ela não depende do homem para sentir prazer e sabe que, ali embaixo, tem uma poderosa fonte de criatividade, impulso e vitalidade. Flaira canta o seu recado à parcela masculina que não quiser ficar para trás: “homem de verdade enxerga a beleza na mulher que é dona do próprio tesão”.

Clitóris tem 8 mil fibras nervosas, o dobro do pênis.

De todas as histórias do Monólogos da Vagina, de Eve Ensler, lembro-me sempre da mulher de 72 anos que, quando finalmente encontrou seu clitóris, chorou. Não é à toa: ele tem 8 mil fibras nervosas, o dobro do pênis e é único órgão humano feito apenas para dar prazer. “Quem precisa de pistola quando se tem uma semiautomática?”, pergunta Natalie Angier em “Woman: an intimate geography”.

Nós encaramos o sexo como mais importante para o homem do que para mulher. A verdade é que é apenas mais fácil para eles reivindicarem isso. Para nós, somos sempre muito jovens, muito velhas, muito comprometidas, muito solteiras. Sempre muito, muito ou muito.  Está aí a importância desse clipe, de Flaira e dessas outras mulheres emponderadas que transformam o proibido na coisa mais bonita. A revolução será feminina e ela vai ser – tal como essa música – poética, forte, irreverente, irresistível e enérgica. E a melhor parte:  será irreversível.

Confira o clipe da pernambucana Flaira Ferro que aborda o tabu do orgasmo feminino:

Animação que explica o clitóris

Para continuar lendo:
Tenha acesso a 5 textos
gratuitos todo mês
Cadastre-se gratuitamente »
Aproveite todo conteúdo da Revista Algomais sem limites
Assine »