O que aprendi com Balzac
Beatriz Braga

O que aprendi com Balzac

Publicado em 05/06/2018 por Revista algomais às 11:55
Ilustração de Libby Vander Ploeg

Em agosto começo a minha volta ao redor do sol rumo a Balzac. Vai ser o meu último ano na casa dos vinte. Achei simbólico ler A mulher de trinta anos do escritor que, com esse livro, cunhou o termo “balzaquiana”, referente às mulheres que completam três décadas de vida.

A história da protagonista Júlia gira em torno da infelicidade no seu casamento em uma época – século 19 – que se esperava da mulher ser mãe e esposa, apenas. O livro é considerado um marco por levar em conta as angústias da mulher burguesa já casada, considerada “velha”, enquanto seu marido da mesma idade era um jovem promissor.

Deixei o livro na estante aliviada por não me reconhecer em Júlia. Apesar de entendê-la e levar em conta os séculos entre nós.
Eu não sei bem o que os meninos da minha escola faziam aos 11 anos, mas com certeza algo a ver com bola e desenho animado. Acho que nem sonhavam com uma brincadeira comum do lado de cá: um jogo de sorte que dizia com qual idade iríamos casar e ter uma família.

Libby Vander Ploeg

Lembro do momento no qual soube que casaria aos 24 e teria 4 filhos antes dos 30. O próximo passo era descobrir a primeira letra do nome do meu futuro marido. Se eu dissesse à mini Beatriz que, quase balzaquiana, eu ainda não casei e nem engravidei, ela imaginaria que algo deu errado.

Se eu tivesse a oportunidade de compartilhar meus sonhos e ambições com Júlia de Balzac, no entanto, acho que ela teria certo orgulho. A personagem, por sua vez, não tinha com quem conversar. Ela morreu incompreendida com a sensação de que sempre lhe faltou algo na vida.

Eu sempre tive muitas mulheres ao meu redor. Vejo minhas melhores amigas: algumas casadas, outras com filhos, outras nem pensar, algumas no caminho. No entanto, nada disso nos define.

Somos, sim, a versão mais velha da criança para a qual era vital prever o calendário maternal. Mas tivemos sorte. Tivemos privilégios. Tivemos o feminismo que há alguns anos nos encontrou.

Não vou dizer que não estamos em crise. Chegar aos trinta ainda é um momento de reflexão. Mas o que vejo? Vejo mães batalhando para que o mundo não limite seus espaços por conta da maternidade. Vejo mulheres largando as profissões que escolheram aos 18 anos e descobrindo novos talentos, agora mesmo, aos 30. Vejo-as mudando de cidade, de país, de vida. Vejo-as independentes.

Vejo cicatrizes de um mundo machista e racista. Mas as vejo também se reconstruindo e se reinventando. Redescobrindo suas sexualidades. Vejo amigas empreendendo, estudando, arrasando em ambientes de trabalho muitas vezes dominados por homens. Vejo-as colocar muita paixão em uma causa, um trabalho ou um hobbie. E ainda me ensinam sobre estrelas, espiritualidade e terapia.

Ouço minhas amigas reclamando dos assédios e das portas fechadas por serem mulheres. E depois vejo-as conquistando mais espaços. Vejo amigas realizadas com seus trabalhos e outras lutando por isso. Vejo-as morando sós, viajando sozinhas, exigindo respeito e igualdade nos relacionamentos.

Nossas vidas não são perfeitas, claro. Nossas questões giram em torno de muitas coisas, nosso status de relacionamento é apenas uma parte do todo. Isso não é o que nos completa. Mais importante: não estamos velhas. Estamos apenas no meio do caminho.

Olho mais à frente e vejo minha mãe que vai comemorar, em breve, mais três décadas depois de Balzac. Vivendo, quem sabe, a melhor época da sua vida. Jogadora de basquete e com a alma cada vez mais jovem. Ao lado dela, minhas tias fortalezas, cajazeiras, me fazem não ter medo da velhice.

Penso nos meus trinta anos e tenho muitos planos. Posso dizer, com certeza, que a melhor parte deles veio da convivência com as mulheres com as quais nasci e as que adotei na vida.

Vejo Balzac empoeirando na estante e fico grata porque os privilégios me distanciaram de Júlia. Hoje tenho sede de justiça de lutar por um mundo para que todas as mulheres possam ter essa sorte.

E por sorte chamo essa cena corriqueira: a mesa de bar com as amigas onde tudo é possível. Ganhar o mundo, casar, ficar sozinha, reinventar-se, abandonar os planos dos últimos dez anos, perder-se e encontrar-se ali em mulheres que também servem como espelhos.

Nem sempre será fácil essa (e as próximas) voltas ao redor do sol. Mas, com muita sorte, será sempre em boa companhia.

*Beatriz Braga é empresária e jornalista

**Para acessar o site de Libby Vander Ploeg clique aqui. (Link: https://www.libbyvanderploeg.com)

Para continuar lendo:
Tenha acesso a 5 textos
gratuitos todo mês
Cadastre-se gratuitamente »
Aproveite todo conteúdo da Revista Algomais sem limites
Assine »