O virtuose que nunca tocou
Memória Pernambucana
Marcelo Alcoforado

O virtuose que nunca tocou

Publicado em 11/11/2016 por Revista algomais às 17:06

Faz pouco mais de dez anos. Foi em maio de 2006. Um violino Stradivarius foi arrematado em um leilão nova-iorquino por US$ 3,5 milhões. Não é engano, não. É o que você leu, mesmo! Três milhões e meio de dólares, um valor que jamais fora alcançado por um instrumento musical em leilão. Estimada pelos especialistas em US$ 2,5 milhões, a surpreendente valorização foi consequência de uma acirrada disputa entre dois milionários que deram seus lances por telefone.
Relembre-se, desde já, que o instrumento leiloado não era um violino qualquer. Era nada menos do que um Stradivarius fabricado em 1707 pelo luthier italiano Antonio Stradivarius. Em maio de 2015, outro instrumento da mesma marca, fabricado em 1699, fora vendido por cerca de US$ 2 milhões.
Por que, você pode estar perguntando, o violino de 1699, mais antigo, alcançou preço menor do que o de 1707?
A resposta é simples. O de 1707 pertence ao período dourado de Stradivarius, que vai dos anos 1700 a 1720. Naqueles 20 anos ele produziu os violinos mais cobiçados pelos colecionadores de instrumentos musicais do mundo. Ademais, calcula-se que Stradivarius tenha feito cerca de mil instrumentos musicais, dos quais só existem cerca de 620 violinos, informam os analistas de Christie’s, que realizou o leilão de 2006. É uma disponibilidade muito pequena, convenha-se, levando em conta a fascinação e o interesse mundial pelos violinos Stradivarius, devido a seu som único, alcançado com a precisão e a finura do grande mestre que lhes dá nome.
Para lhe dar uma noção da obra de arte que é, dois pesquisadores universitários da Suécia utilizaram avançados modelos feitos em computador para analisar sua construção, esperando ver revelados os segredos daquele artesanato tão perfeito. Não viram.
Algumas pesquisas sugerem que o segredo da rica ressonância dos Stradivarius pode estar tanto na idade da madeira como nos vernizes especiais ou ainda nos tratamentos aplicados ao material. Será?
Será que, nestes tempos de tanto e tão vertiginoso progresso, de tanto saber, ainda não se sabe como obter o som de um Stradivarius? Eram as mais estapafúrdias explicações para tanta beleza, algumas dando conta de que o segredo de Antonio Stradivarius, o imortal fabricante de violinos, estava no verniz que, misturado a cinzas vulcânicas, ele passava nos instrumentos. Por que, então, os que assim pensavam não foram produzir violinos em Pompeia, que em 79 houvera sido destruída pelo Vesúvio? Decerto ali haveria muita cinza…
Outra versão atesta que o artesão selecionava as madeiras que usava de navios naufragados. Elas teriam mais dureza e resistência por terem ficado em contato com a água salgada por muitos anos. Nenhuma dessas histórias foi comprovada, mas isso não importa. A sutileza do som dos instrumentos Stradivarius é inigualável e se perpetua.
Pensando bem, isso só pode mesmo ser saboroso fruto do talento do luthier. Analise: criado pelo também italiano Gasparo de Saló, durante 200 anos a arte de fabricar instrumentos de primeira classe foi atributo das famílias Amati, Guarnieri e Stradivarius, mas foi esta que glorificou o instrumento e é glorificada como a produtora dos mais cobiçados violinos do planeta.
O mais famoso entre os famosos Stradivarius e também o mais valioso violino do mundo é o Messias, que se encontra no Ashmolean Museum de Oxford, Inglaterra. Foi produzido pelo mestre em 1716 e até hoje é o violino antigo mais preservado do mundo. Pelo que dizem os que já o viram, ele aparenta ter acabado de ser feito. A propósito, foi o único violino que Stradivarius nunca vendeu, e que manteve em sua posse até morrer. Ele devia ter robustas razões para isso, concorda?
Como outros instrumentos de cordas, os violinos são construídos pelos luthiers, artistas que produzem artesanalmente, com técnica, sensibilidade e apuro, instrumentos musicais de corda com caixa de ressonância. De modo geral, é uma profissão legada de geração para geração, de pai para filho. É atividade centenária, embora sejam poucas as oficinas que ainda existem no Brasil, e mesmo nas principais escolas de luteria do mundo, como Itália, França, Bélgica, Hungria, Holanda, Alemanha.
Para ser luthier, impõe-se saber escolher a melhor madeira, submersa ou não, impregnada de cinzas vulcânicas ou não, estar atento às consequências da umidade, entender pelo menos um pouco da linguagem musical, e ter ouvidos sensíveis. São requisitos básicos da luteria, já que se constituem alguns dos fatores que favorecem a sonoridade de um violino, um violão e de outros instrumentos. Ou não.
A grande diferença, no entanto, está no artista.
“É um artesanato fino que requer muito conhecimento e estudo, e onde a evolução técnica se faz presente mais nos materiais usados, em ferramentas, do que no processo de fabricação propriamente dito, totalmente manual”, observa Nilton de Camargo, um dos mais renomados luthiers brasileiros.
Mês passado, morreu aos 89 anos o luthier João Batista. Pernambucano de São José do Belmonte, João Batista era um dos raros fabricantes de violinos do Brasil. Havia mais de 60 anos que ele produzia e consertava instrumentos de corda.
Autodidata, aprendeu vendo um tio trabalhar e produziu seu primeiro instrumento, uma rabeca, em 1948.
Viúvo, João Batista se foi deixando centenas de filhos. Os quatro do casamento e os tantos órfãos da ajuda que ele sempre dava aos músicos que, necessitados de consertos em seus instrumentos danificados, corriam em busca do auxílio que ele jamais negou.
Não foi, enfim, um virtuose como instrumentista, mas o foi como fabricante de instrumentos.
João Batista, nome de santo, está no céu, e os anjos, alegres, estão dizendo amém. Afinal, com João Batista por lá, nunca mais suas harpas deixarão de soar harmoniosamente.

Para continuar lendo:
Tenha acesso a 5 textos
gratuitos todo mês
Cadastre-se gratuitamente »
Aproveite todo conteúdo da Revista Algomais sem limites
Assine »