João Canto: “Já é possível verificar uma alteração na ordem das exportações de PE”
Rafael Dantas

João Canto: “Já é possível verificar uma alteração na ordem das exportações de PE”

Publicado em 30/06/2020 por Revista algomais às 5:00
Especialista em comércio exterior aponta tendências para o mercado global no cenário pós-pandemia e aponta alguns números que já estão em mudança no comércio exterior a partir do Estado.

O que acontecerá com o mercado internacional e com o comércio exterior no cenário pós-pandemia? Conversamos com o internacionalista e fellow do Iperid, João Canto, que apontou as tendências globais e as preocupações e oportunidades para o Estado de Pernambuco. Confira a entrevista abaixo.

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Quais as principais tendências para o mercado internacional no cenário pós-pandemia?
A curva do crescimento do comércio internacional acompanha, quase que fielmente, os picos e baixas da curva de crescimento do PIB mundial. Quando ocorreram fatos que configuraram quedas e altas no PIB mundial, a curva de comércio internacional correspondia, porém de maneira mais volatilizada.
A China, por exemplo, já vem há algum tempo reduzindo seu PIB, o que afeta outros países fornecedores e consumidores em efeito cascata. Quando há uma diminuição produtiva na indústria chinesa, o resto do mundo sente por dois motivos: menos demanda por alguns materiais de fornecedores internacionais, e menos ofertas de produtos oriundos daquele país. O efeito é cíclico e retroalimentado.
Considerando que a projeção do PIB mundial para 2020, segundo o Banco Mundial, é de -5,2%, existem duas projeções do desempenho do comércio internacional efetuado pela OMC: Otimista (-13%), e Negativa (-30%).


Adaptado pelo autor. Fontes: World Bank, IMF, TradeMap

Lendo o gráfico acima, do ponto de vista do comercio internacional, acredito fortemente que grande parte dos países deverão rever suas cadeias globais de valor, diminuindo a concentração de produção em um único país, pulverizando em mais de um país fornecedor, inclusive trazendo parte da cadeia para o mercado doméstico, a fim de não ficarem refém do processo produtivo centralizado.

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Que setores seriam mais ou menos afetados?

Ainda é muito cedo para ter um horizonte preciso dos setores de produtos que terão uma retomada mais curta ou mais longa. As projeções ainda estão bastante incertas, uma vez que estão ainda identificando como o consumo passará a ser notado de agora em diante.
Estritamente do ponto de vista do comércio internacional, acredito que a retomada deverá ser gradual. No curto prazo, arriscaria dar maior ênfase para retomada de commodities, materiais ou bens de menor valor agregado, produtos de relativa necessidade imediata, que são caracterizados por terem uma demanda massiva, consumo com ciclo alto, principalmente se forem vinculadas à alimentação, energia, embalagens. Os produtos com mais valor agregado, deverão experimentar uma retomada um pouco mais lenta, porém gradual, ainda no curto prazo, principalmente aqueles produtos vinculados às cadeias de telecomunicações e TIC, e pouco à pouco abrangendo outros segmentos, como químicos, plásticos, etc. Bens com maiores valores agregados deverão apresentar retomada em médio prazo. Produtos supérfluos naturalmente deverão apresentar uma retomada ainda mais lenta, por atenderem mercados extremamente nichados. Lembrando que todo o horizonte é totalmente incerto e dependerá exclusivamente dos novos hábitos de consumo que deverão se estabelecer após a pandemia, que ditará o ritmo.
Importante citar que serviços especializados poderão experimentar crescimento, se puderem ser oferecidos e executado independente das fronteiras, principalmente alicerçados na utilização da internet para alcançar clientes e entregar resultados. Serviços logísticos também possuem grande tendência de crescimento, devendo se adaptar às necessidades do chamado “novo normal”, seja através de serviços de e-commerce, ou com serviços específicos de suporte ao comércio internacional, principalmente para pequenas e médias empresas se tornarem mais competitivas e acessíveis no mercado internacional.
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Como ficam o Brasil e Pernambuco nesse novo cenário para o comércio exterior, com menor velocidade da globalização e tendências de mais incentivo à produção interna?
Acredito que não somente a produção, mas também um maior incentivo por consumir produtos locais, que vem aumentando a tendência há algum tempo, prévio à pandemia inclusive. Isso poderá ser uma das vias para uma retomada da economia doméstica, no médio prazo. Se há consumo, há necessidade de produção. A tendência de consumo sob demanda será aplicada fortemente, começando de forma localizada e ganhando espaço regional, principalmente com e-commerce.
Segundo o relatório do Euromonitor, do início de 2020, já havia “o desejo do consumidor de adotar e atrair um sentimento de individualidade e crescimento da identidade nacional oriundos de inspirações locais. Também há uma expectativa cada vez maior das multinacionais terem respostas apropriadas e criativas para a cultura, normas sociais e hábitos de consumo locais”. Uma vez que multinacionais estão envolvidas, é quase impossível dissociar local do global. Sempre haverá materiais, insumos ou processos oriundos de outros países para produzirem e atenderem a demanda local. No mesmo sentido, as indústrias domésticas deverão explorar esta tendência, buscando atender uma demanda crescente que busca produtos com aspecto e autenticidade local, com características e percepções de aproximação entre produção e consumo.
Porém, é fato que apenas o consumo interno não resolve sozinho o problema da produção, principalmente no curto prazo. Nossas cadeias globais de valor nunca deixarão de ser globais para se tornarem completamente locais. Uma vez que a cadeia de valor é global, via de regra não tem mais como voltar atrás. Portanto, fica mais evidente a importância do comércio exterior, principalmente da exportação, sendo estratégico para impulsionar a retomada econômica das empresas, seja adquirindo materiais de forma mais eficiente, seja atingindo novos mercados consumidores. O grande desafio é identificar onde e como estará o apetite do consumo para cada tipo de produto ofertado, para que a cadeia de valor possa atuar.

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Qual era o cenário das exportações de Pernambuco antes da pandemia?
Em 2019, os cinco principais produtos (por capítulo, dois dígitos) da pauta exportadora de Pernambuco foram, na ordem: Veículos, Combustíveis, Plásticos, Frutas e Açúcar. Totalizaram USD1,13 bilhões, representando 78% da pauta exportadora. No mesmo modelo, a pauta de exportação brasileira foi composta por: combustíveis, sementes e frutos (soja, por exemplo), minérios, carnes, reatores. Totalizaram USD110,4 bilhões, 49% da pauta.
Comparativamente, em 2020 (até maio), Pernambuco exportou, na ordem: Combustíveis, Plásticos, Veículos, Açúcar, Máquinas. Totalizaram USD484,1 milhões, e 78% da pauta. As exportações brasileiras foram lideradas por: Combustíveis, Sementes, Minérios, Carnes, Ferros fundidos. Totalizam, até o momento, USD47,5 bilhões, 56% da pauta.
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Produção automotiva perdeu a liderança das exportações de Pernambuco nos primeiros meses do ano.

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Analisando, entre 2019 e 2020 (projetando), é possível verificar uma alteração no desempenho e na ordem das exportações de Pernambuco. Os veículos caíram para 3ª posição, com projeção de redução de 43% até o final de 2020 – desconsiderando sazonalidades do segmento – e combustíveis assume a liderança da pauta, podendo crescer cerca de 70%. Plásticos avançaram para a segunda posição, mas com projeção de redução de 7% até o fim do ano. Açúcar avançou uma posição, e pode ter um crescimento de 45% (sem considerar sazonalidades do segmento). Frutas saíram deste rol da pauta, dando lugar para máquinas, que pode alcançar crescimento de 45% até o final do ano.
Na pauta de exportações do Brasil em 2020 (até maio), na ordem: sementes e frutos, Combustíveis, Minérios, Carnes, Ferro/Aço. Totalizaram USD47,5 bilhões e representam 56% da pauta até o momento.
Analisando 2019 sobre 2020, verifica-se que sementes passa a liderar a pauta, com projeção de crescimento de 50% até o fechamento do ano. Combustíveis cai para segunda posição, e apresenta crescimento de -5% (queda) até o final do ano. Minerios e Carnes permanecem na mesma posição em relação ao ano anterior, porem com uma projeção de -19% e 0,3% respectivamente, até o final do ano. Ferro/Aço passa a integrar o rol da pauta até o momento, porém com projeção de redução de 12% até fim do ano.

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China, hoje quais os principais itens da pauta comercial de Pernambuco com o país asiático?
Os principais itens da pauta exportadora de Pernambuco para China, em 2019, foram:
Coque de petróleo, USD3,3 milhões;
Sumos de Frutas. USD3,1 milhões;
Granito e outras pedras, USD1,8 milhões;
Crustáceos, USD689 mil;
Borracha sintética, USD597 mil.
Em 2020, até maio:
Sumos de Frutas, USD704 mil;
Borracha Sintética, USD583mil;
Granito e outras pedras, USD315 mil;

O grande, talvez principal, entrave de qualquer país para negociar com a China está relacionado com a capacidade de ofertas em grande volume. Porém, acho que seria uma oportunidade comercial focar nos seguintes produtos abaixo. Alguns já estão na pauta de Pernambuco para a China, outros estão apenas na pauta do Brasil para a China: Combustíveis, proteínas (aves), açúcar (desconsiderando outros competidores fortes, como índia e sudeste asiático), couros.

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Dos setores em que a nossa economia é forte, há alguma janela de oportunidades no cenário pós-crise?

Do ponto de vista de produto, produtos com apelo natural, local, orgânico, etc, podem ganhar mais espaço no mercado americano e europeu, principalmente com uma tendência crescente de maior consumo consciente e consumo de produtos para saúde e bem-estar. É claro que alguns produtos que já vem sendo exportados podem sofrer redução de demanda, porém possuem mais facilidade para atingir novos mercados e reequilibrar as exportações. Outros, podem aumentar, dependendo do segmento.
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Produtos com apelo natural e orgânico tendem a ter maior facilidade de crescer na pauta de exportações.

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Diria também que as falhas e desequilíbrios produtivos que a pandemia atual expôs nas cadeias globais de valor, poderá haver uma movimentação ou readequação na distribuição destas cadeias para outros mercados, principalmente nas cadeias que tem origem os países ocidentais. Um dos mercados que poderá ser alvo neste reequilíbrio produtivo poderá ser o Brasil, por diversos fatores: mão-de-obra acessível e qualificada, mercado consumidor amplo e volumoso, matérias-primas, proximidades culturais e logísticas. Pernambuco se destaca pela centralização geográfica entre Europa, EUA, América Central, África, sudeste brasileiro e cone sul da América do Sul, dando mais eficiência logística às atividades que aqui se situem. Corrobora o estado já possuir ativos logísticos preparados para o comércio e movimentação de grandes volumes de bens e serviços, e condições de receber novos investimentos que visem explorar novas oportunidade regionais e acessos ao mercado exterior a partir daqui.

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