Demorval dos Santos: “A recuperação da economia local virá do pequeno produtor”
Rafael Dantas

Demorval dos Santos: “A recuperação da economia local virá do pequeno produtor”

Publicado em 20/01/2021 por Revista algomais às 9:42

Em um período de alta do desemprego e de fim do auxílio emergencial, conversamos com o economista e mestre em Administração e Desenvolvimento Rural Dermorval dos Santos. Ele que é professor do Centro Universitário de Vitória de Santo Antão (Univisa), comenta os desafios dos novos prefeitos na gestão das cidades a partir da ótica do enfrentamento à pandemia e do combate à desigualdade social.

Quais as perspectivas para o cenário do emprego e desemprego em Pernambuco em 2021?

Demorval: O Governo de Pernambuco criou alguns programas de enfrentamento à crise econômica promovida pela pandemia da Covid-19. Dentre eles, o que ganhou nova tendência para 2021 foi o programa de crédito popular que teve seus juros reduzidos e o valor do crédito aumentado. Esta ação do Governo do Estado é fundamental para o aquecimento do mercado e pode resultar na criação de novos postos de trabalho.

Em 202o, Pernambuco apresentou taxas de desempregos altas, de acordo com os dados da Pnad Covid, chegando a ocupar, no terceiro trimestre, a quinta posição entre os Estados com as maiores taxas de desemprego, superando a média nacional. Normalmente em dezembro ocorrem as contratações temporárias e em 2020 não foi diferente. O Auxílio Emergencial também promoveu um aquecimento da economia e com isso elevou o nível de confiança dos empreendedores ao ponto de realizarem as contratações. No entanto resta saber qual a taxa de conversão destes empregos temporários em empregos permanentes.

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Qual o impacto das eleições nesse cenário de combate ao desemprego?

As eleições municipais são um dos fatores que motivam a superação do cenário de desemprego nas localidades. Os novos líderes chegam com vontade de fazer o melhor pelo seu povo. Nos primeiros dias de janeiro de 2021 percebemos que algumas prefeituras, como a cidade do Recife, fizeram reformas administrativa. Tais reformas são fundamentais para a melhoria no nível de emprego da Cidade do Recife e dos demais municípios do Estado. Elas ajudam a dar eficiência a muitos programas foram criados em 2020, mas que tinham uma burocracia tão grande que os microempreendedores não conseguiam acesso ao dinheiro e acabaram fechando. Não basta apenas criar um programa, mas também ter a certeza de que ele “alimentará” os agentes alvos de sua finalidade de criação.
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Novo prefeito do Recife apontou o combate ao desemprego e à desigualdade social como prioridades da gestão.

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Com processos menos burocráticos, recursos com verbas maiores, redução na taxa de juros e facilitações para prazo de pagamentos, estima-se que haja uma leve recuperação do cenário econômico Pernambucano. É chegada a hora de investimentos no Microempresário Individual (MEI), estimulando sua capacidade de gestão através de programas de capacitação e acessoria. A recuperação da economia local virá do pequeno produtor e das análises individuais de mercado respeitando as características particulares de cada local.

Cada governante local deve entender quais as características produtivas de suas localidades, buscando investimentos internos e externos. A política cambial brasileira (com foco no dólar) tem favorecido as comercializações dos nossos produtos nos mercados externos. Na medida certa, este pode ser um dos caminhos para o aumento da renda estadual. Nosso Estado está dividido em cadeias produtivas interessantes e distintas e cada localidade deve focar no que melhor produz com o menor custo e almejar o mercado externo, sem desabastecer o mercado interno.

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Sobre o Recife quais são as principais apostas?

O prefeito João Campos já anunciou investimentos no setor de tecnologia da cidade do Recife. Ele vem buscando parcerias importantes na área de formação para dar suporte ao crescimento do setor. Pois não basta apenas aumentar as vagas no setor de tecnologia, se não há um processo de qualificação profissional para as oportunidades que surgirem. Com tais investimentos, acredita-se que a área de tecnologia da informação, para a Cidade do Recife, seja a grande promessa empregatícia.

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O combate ao desemprego e a desigualdade social foi apontado como a prioridade pelo prefeito João Campos, no Recife. O que cabe a cada poder (federal, estadual e municipal) no combate à esses dois problemas tão crônicos de PE e do Brasil?

Em primeiro momento, deve se buscar o alinhamento das políticas públicas, das suas diversas esferas, e privadas. Há anos estas esferas federal, estadual e municipal não têm se mantido alinhadas e os propósitos políticos estão sempre à frente do pensamento da construção de uma sociedade sustentável. O exemplo mais recente está na aquisição da vacina contra o Covid-19. Os governos locais estavam tendo que recorrer a meios jurídicos para a compra da vacina. O Presidente do Brasil já deixou clara suas ideologias sobre a aquisição da vacina. Sem vacinação em massa todos os mercados estão em risco e não existe a possibilidade de combater o desemprego e a desigualdade social.

Em segundo momento, notoriamente existem barreiras entre as esferas pela discriminação territorial. Um tema bem antigo. Em 2019, o então Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, em um café da manhã com seus ministros e jornalistas refere-se a todos os Governadores Nordestinos como Governadores Paraíbas, uma forma “pejorativa” utilizada por outras regiões do Brasil para qualificar quem no nordeste reside. É fato que discriminações territoriais leva a desigualdade social. O maior desafio para todos os Estados do Nordeste vem da relação destas esferas com o Governo Federal.

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Começamos o ano com o fim de auxílio emergencial que foi importante para o País atravessar o pior momento da pandemia e que reduziu a desigualdade nesse período. Alguma coisa pode ser feita no curto prazo para reduzir o impacto do fim desse programa?

Chegamos ao momento de falar que a vacina é a estratégia de curto prazo. Os países que estão aplicando a vacina estão apresentando bons resultados com o uso da mesma. Além disso, o Governo Federal precisa controlar seus gastos. Não falta dinheiro. O que falta é a responsabilidade no equilíbrio das contas públicas. Veja bem, com base nos dados do Secom (2021) – Secretaria Especial de Comunicação Social- o Governo Bolsonaro já gastou 17 vezes a mais com propaganda no exterior do que todos os últimos Governos no período de 10 anos. Além disso o Governo fez compra de cloroquina numa quantidade extremamente elevada. Foi criada uma moeda de R$ 200 que aumentou os custos de produção do Bacen, mas não ofertou nenhuma eficácia ao mercado brasileiro.

Para trazer o Brasil para o jogo, algumas medidas são importantes como: 1) Revisar as isenções fiscais concedidas as grandes empresas. 2) Taxar lucros e dividendos empresariais: apenas a Estônia e o Brasil não realizam este tipo de cobrança no mundo.

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Com a automação das indústrias e mesmo o desinvestimento em curso no País, como no recém anunciado fim das atividades da FORD, quais os caminhos possíveis para a geração de renda que não sejam o emprego formal como conhecemos? O empreendedorismo, or exemplo, tem condições de suprir toda a substituição de mão de obra que temos visto com o avanço tecnológico?

A saída da Ford representa um prejuízo enorme para a recuperação da economia. Estima-se que cada emprego direto derrubado pela saída da Ford influencia na derrubada de mais cinco empregos indiretos. Ou seja, com os 5 mil empregos extintos com a saída da Ford, existe uma probabilidade de prejuízo em mais 25 mil empregos indiretos. O problema para reverter este quadro fica maior com a ausência da vacina no Brasil. Isso faz com que o Risco País fique alto e espante investidores, mesmo que as políticas macroeconômicas favoreçam a chegada de novos investidores.

O empreendedorismo é a solução para reverter esse quadro. No entanto, os novos empreendedores precisam entender os benefícios da formalização dos seus negócios para garantir direitos a todos os processos de suportes aos seus empreendimentos. A informalidade surge da impossibilidade de custear inicialmente os valores cobrados pelo Governo e suas esferas, mas no médio e longo prazo ela é indesejável. Além disso, haverá a necessidade de capacitação em gestão.

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*Por Rafael Dantas, jornalista e repórter da Revista Algomais. Ele assina as colunas Gente & Negócios e Pernambuco Antigamente
rafael@algomais.com
rafaeldantas.jornalista@gmail.com

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