Terminal D
Bruno Moury Fernandes

Terminal D

Publicado em 29/07/2019 por Revista algomais às 14:18

Era para sairmos de Sevilha ao meio-dia, mas o voo atrasou. Era para chegarmos em Madri às 13h30, com conexão ao Recife às 15h40, mas chegamos às 15h20. Era para gastarmos 20 minutos de caminhada entre o terminal A e o D, mas gastamos apenas 10, porque corremos como loucos, arrastando malas e sacolas. Era para brasileiro não viajar com tantas malas e sacolas. Era para chegarmos tranquilos à porta de embarque, mas chegamos esbaforidos, suados, maltrapilhos, esgotados. Era para mantermos a calma, mas quando os atendentes nos disseram que já haviam fechado as portas e que o embarque havia sido finalizado, meu cunhado deu um piti. Era para as esposas manterem a frieza feminina, mas choraram e gritaram como doidas varridas. Era para ter filmado tudo, fazendo prova contra a companhia área, a quem pretendo processar por danos morais e materiais, mas o segurança disse que isso não seria possível e mandou que apagasse o registro. Era para ter apagado, mas apenas fiz de conta.

Como solução, era para nos colocarem em voo da própria companhia aérea, que faria no mesmo dia Madri-São Paulo-Recife, mas nos puseram em voo de companhia aérea parceira que faria o mesmo itinerário e que sairia às 23h30. Era para o voo ter acontecido, mas nos comunicaram, apenas duas horas antes, que havia sido cancelado e que somente sairia às 7 horas da manhã seguinte. Era para ter mantido a calma e bom humor, mas instintos primitivos tomaram conta do meu ser.

Era para relaxar, aceitar que aquele era um dia de merda, ir para um hotel e tentar resolver tudo no dia seguinte, mas desobedeci e retornei ao guichê da maldita companhia aérea. Era para ter recebido uma notícia não tão cafajeste, mas a dita empresa nos comunicou, somente naquele momento, que teria um voo dentro de duas horas fazendo o mesmo itinerário. Ora, se a companhia aérea que nos causou tudo isso, já tinha esse voo próprio como opção, por que nos colocou em voo de companhia terceira? Era para ter feito essa pergunta, mas a essa altura eu só queria chegar em casa e silenciei. Era para a companhia pagar por essas passagens, mas disseram que – pasmem! – a gente teria que pagar por ela. Era para ser um preço camarada, mas lá deixei minhas cuecas.

Era para ter sido um retorno tranquilo, mas sentei na cadeira 48B, se não me falha a memória. Era para a cadeira reclinar, mas não funcionava. Era para voltar ao lado da minha esposa, mas a puseram na 15C. Era para tentarmos dormir, mas minha esposa arrumou algumas confusões até que conseguisse sentar ao meu lado. Era para não ter conseguido, mas conseguiu! Era para chegarmos no Recife ao meio-dia e – ufa! –, chegamos. Era para descansar em casa após essa odisseia, mas tinha festinha de São João do colégio dos nossos filhos, duas horas depois de aterrissarmos e, claro, fomos. Era para a quadra do colégio ser climatizada, mas nos sentimos dentro de um micro-ondas durante toda uma tarde, onde cerca de 500 crianças se apresentariam, não necessariamente ao mesmo tempo.

Era para as nossas malas chegarem, mas isso somente ocorreu 48 horas após o nosso retorno. Era para fazer sol no dia em que fui buscar as malas, mas caiu um dilúvio. Era para a APAC acertar a previsão, mas adivinhem. Era para meu carro não ter boiado na Mascarenhas de Morais, mas boiou.

Era para ficarmos com uma boa impressão da Espanha, especialmente da Andaluzia. E ficamos! País sensacional. Madri, Toledo, Ronda, Sevilha, tudo vale a pena. O mediterrâneo, gelado, faz cobra desaparecer. Mas nessa companhia aérea, jamais voarei novamente. Nem que o touro espanhol voe junto. Nem que sirvam Tokaji de cinco putonyos. Nem que a cobra fume à beira mar da belíssima Marbella.

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