Banca Guararapes é o templo dos quadrinhos

Banca Guararapes é o templo dos quadrinhos

Publicado em 18/02/2020 por Revista algomais às 6:00
Frequentada pelos amantes dos quadrinhos, Banca Guararapes oferece variedade, lançamentos e raridades em gibis e é comandada por Orlando, conhecido pelo nome do pai do personagem Thor. Foto: Tom Cabral

No Recife quem gosta de histórias em quadrinhos encontra reduto na Avenida Guararapes, número 223. Cravada entre o prédio dos Correios e o Edifício Sertã, antigo Cinema Trianon, a Banca Guararapes é o quartel general dos amantes da chamada nona arte na cidade. Além dos últimos lançamentos do mercado, a banca mantém raridades e um arsenal de títulos pernambucanos à venda.

Capitaneando o espaço está Orlando Oliveira, 63 anos, um recifense alto e barbudo, com fios entre o branco e o loiro o que gerou o apelido de Odin (referência ao personagem de HQ Rei de Asgard e pai de Thor, o Deus do Trovão). Ele recebeu a banca de seu pai José do Patrocínio, que também era jornalista. Fã e incentivador dos gibis, Odin em meio à crise dos impressos e à ascensão do modelo digital, reparou uma curiosa tendência. “Percebi que a única coisa que não diminuía a venda física eram os quadrinhos, aí tive que me reinventar, juntar o digital com o impresso para faturar”, explicou. Foi nesse mesmo período que, seguindo a dica dos amigos, decidiu abrir uma conta no WhatsApp para informar os clientes a chegada de novas produções e realizar reservas.

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“Muito do que eu vendo, eu consigo direto de São Paulo. Tenho coisas que outras bancas não têm”, orgulha-se. “Por exemplo, agora no fim do ano foi relançado pela Panini (editora) o quadrinho Conan, uma HQ dos anos 80 que fez muito sucesso na época, mas foi um lançamento setorizado e só lançariam em São Paulo. A minha banca é a única do Recife que recebeu e já esgotou”, detalhou. Odin não só vende quadrinhos novos como usados e raridades também. De acordo com o dono da Banca Guararapes, existem no espaço muitos gibis que são objetos de desejo dos colecionadores.

“A coisa deu certo de uma maneira que hoje já tenho três WhatsApps, dois lotados, aí abri o terceiro agora. Um de bate-papo sobre os quadrinhos e um de negócios sobre gibis entre os clientes”, relata. Assim como seus clientes, Odin também é um colecionador apaixonado de HQ, o que se mostra um diferencial na relação com quem frequenta sua banca. “Eu não sei o que seria de mim sem os quadrinhos”, resume Odin sobre sua relação com a nona arte. Talvez se o “Pai de Thor” não fosse mais um aficionado em gibis, a Banca Guararapes não tivesse ganho essa aura de templo sagrado dos HQs em Pernambuco.

Dessa relação de proximidade com os clientes surgiu também um evento que é o maior orgulho, a verdadeira menina dos olhos de Orlando: a Feira Asgardiana de Quadrinhos. “Foi uma sugestão dos clientes. Organizei a primeira em 2016 e participaram umas 15 pessoas. Hoje, já vamos para nona edição e na última eu botei 100 mesas aqui”, comparou. “Já é um evento apoiado pela Prefeitura do Recife, Secretaria das Cidades e Secretaria do Turismo, a prefeitura nos ajuda demais e nós aglutinamos o público de quadrinhos de Pernambuco, inclusive com mesas para os quadrinistas locais”, defendeu. A feira já é um evento consagrado no calendário oficial dos leitores de HQ da cidade.

O Recife vive uma espécie de era de ouro no mercado de gibis, Orlando atesta que nunca se viveu um momento tão bom e com tamanha produção de conteúdo autoral nas histórias. “Tem muita gente aqui fazendo quadrinhos, temos um cara muito importante como Thony Silas, que desenha pra Marvel e pra DC, também temos uma tradutora de HQ, Dandara Palankof, ela é extraordinária, e temos também Luciano Félix, que já fez capa da revista Mad, muita gente boa mesmo”, reitera.

Por falar em Luciano Félix, o quadrinista corrobora a importância da Banca Guararapes tanto para os produtores de conteúdo quanto para os amantes da arte dos quadrinhos. “Para mim, nesse momento em que os impressos em geral estão perdendo o lugar para o digital, a Banca Guararapes é um oásis no deserto de cultura em que vivemos”, destacou. “Além disso, a Feira Asgardiana faz a ponte dos leitores com quem ainda tá interessado nos quadrinhos locais”, assegurou. “A Guararapes mostra que a pessoa que produz o quadrinho existe, o que pode até inspirar outras pessoas para que futuramente estejam ali trabalhando com essa arte”, destaca. Segundo o criador de histórias em quadrinhos, o fato de Orlando abrir espaço em sua banca para os produtores locais impulsionou a atividade na cidade.

PONTO DE ENCONTRO
Ernesto Barros, jornalista e crítico de cinema e histórias em quadrinhos do Jornal do Commercio, ressalta a força e a relevância de Odin para os gibis pernambucanos. “Orlando tem feito um trabalho no mínimo magistral, tanto na possibilidade de você ter acesso aos quadrinhos, como no apoio que dá aos quadrinistas locais”, ratificou. “A Banca Guararapes se tornou o principal ponto de encontro dos nossos artistas de quadrinhos e, além disso, ele realiza umas duas ou três feiras por ano que agregam todos os amantes de HQ, colecionadores, uma coisa incrível!”, elogia o jornalista do JC.

De acordo com o jornalista, a Feira Asgardiana é um sábado diferenciado do que se tem atualmente no Recife Antigo, uma ideia do que poderia ser feito para revitalizar o Centro da cidade. “Eu acho que esse trabalho de Orlando tem crescido a cada dia e é uma das coisas mais importantes em torno da cultura de um modo geral, e especialmente ligado aos quadrinhos na cidade”, definiu.

Apesar do excelente momento para os gibis, as bancas de revista, segundo Odin, não são vistas pelas editoras como um ponto atrativo de comércio. “Eu acho que o consumidor de quadrinhos gosta de comprar na banca, mas as editoras e distribuidoras não dão tanta importância a esse espaço”, lamentou. “O Recife já teve 800 bancas de revista, hoje não tem 200. Mas mesmo assim ainda é um canal de vendas e distribuição muito bom”, defende.

Segundo Odin os distribuidores preferem entregar para as grandes redes de lojas por causa do volume empregado. “Você vê o fechamento das livrarias, esse é um sintoma, as distribuidoras e editoras deveriam olhar com mais carinho para as bancas. Existem cidades do interior que não tem mais banca, por causa disso, em muitos lugares, não chega nem mais jornal”, alerta o resistente Odin.

*Por Yuri Euzébio, da Revista Algomais (redacao@algomais.com)

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