Histórias de refugiados em debate no Circuito Cultural

Histórias de refugiados em debate no Circuito Cultural

Publicado em 09/10/2020 por Revista algomais às 4:53
O tema estará em pauta hoje (sexta-feira, 9), na segunda etapa do Circuito Cultural Digital de Pernambuco, promovido pela Cepe

Da Cepe

Para falar sobre um tema complexo com o público infantojuvenil, como a questão dos refugiados, duas jornalistas escreveram um livro ilustrado, lançado este ano pela Editora Seguinte, o selo jovem da Companhia das Letras: Valentes: Histórias de Pessoas Refugiadas no Brasil. E por considerar este um tema tão necessário é que as escritoras do título, Aryane Cararo e Duda Porto de Souza, foram convidadas para integrar a programação da segunda edição do Circuito Cultural Digital, uma realização da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). O bate-papo com as escritoras será hoje, sexta-feira, às 15h, com mediação da jornalista Valentine Herold.

O Circuito Cultural de Pernambuco é uma iniciativa da Cepe com curadoria da Fundação Gilberto Freyre. Toda a programação será ancorada no portal (www.circuitoculturalpernambuco.com.br) e nas redes sociais do evento. Esta segunda etapa começou no dia 7 e termina no dia 11 de outubro.

Refúgio é caracterizado pela palavra perseguição. Por isso, nem todo imigrante pode ser considerado um apátrida, asilado, refugiado, migrante ou reassentado, isto deve ser esclarecido. Afinal, abordar o assunto é falar também de temas transversais, como racismo estrutural, exploração de crianças e adolescentes e as intersecções entre migração, trabalho e gênero.

De acordo com Aryane Cararo, em média a população mundial está menos propensa a aceitar migrantes de outros países. A escritora cita o que mostra a atualização do Migrant Acceptance Index (Índice de Aceitação de Migrantes, em tradução livre), publicado pelo instituto de pesquisa de opinião Gallup. Três países latinos lideram essa queda: Peru, Equador e Colômbia.

“O Brasil já contabiliza, por exemplo, um número estrondoso de refugiados do clima. Em escala global, esse número pode chegar a um bilhão em 2050, segundo projeção do Acnur (Agência da ONU para Refugiados)”, diz Aryane, que mora em Lisboa. Duda Porto, parceira no projeto de Valentes, também já passou longos períodos morando em diversos países.

O Circuito Cultural Digital conta com a participação de 20 editoras, livrarias e instituições, como a Câmara Brasileira de Livros (CBL) e a União Brasileira dos Escritores. O evento tem apoio das secretarias estaduais de Educação, Cultura e Fundarpe. As próximas etapas serão em novembro (12 a 15) e dezembro (9 a 13).

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ENTREVISTA

Com a pandemia a situação dos imigrantes torna-se ainda mais complicada, não?

ARYANE CARARO – Filhas e filhos de amigas de origem asiática passaram a sofrer bullying em diversos espaços com a chegada da pandemia, que trouxe aspectos diretos muito ruins para a questão dos refugiados. A primeira é que começamos a olhar o outro com desconfiança, até mesmo o nosso vizinho, como se fosse uma pessoa ameaçadora. Houve uma necessidade de isolamento e os países e as pessoas se fecharam. E a extrema-direita aproveitou para disseminar fake news com discursos contra refugiados e imigrantes como pessoas que poderiam trazer o vírus para dentro de nossas fronteiras. O risco é, depois que tudo isso passar, que a sociedade tenha erguido muros internos ainda mais intransponíveis. O segundo é o que já estamos enfrentando e que vai ser pior ainda no pós-pandemia: a crise econômica. Os deslocamentos humanos, motivados pela miséria, vão se intensificar muito mais e temo que possa haver ainda mais conflitos e restrições ao acolhimento dessas pessoas. E, para quem já é refugiado ou imigrante, e que vive normalmente uma situação de maior vulnerabilidade, tende a ser mais afetado pela crise sanitária e econômica, especialmente quando pensamos nas intersecções das pertenças de gênero, raça, classe.

Como sobreviver a isso?

ARYANE – “Eles são um de nós. E amanhã podemos ser um deles”. Esta é uma das principais mensagens de Valentes. Somos parte de uma grande nação chamada humanidade, de um só planeta chamado Terra. As fronteiras geográficas não são mais importantes que o que nos une enquanto seres humanos. Estamos todos conectados. Olhar e cuidar do outro é a única forma de sobrevivermos. Como dizemos no livro, “ou salvamos todos ou não restamos nenhum – e isso é mais do que sobrevivência da espécie, é a sobrevivência da nossa humanidade e do que entendemos por civilização”. O livro apresenta os desafios enfrentados por imigrantes no século XXI e também as opressões transversais e estruturais que afetam ainda mais essa população. Precisamos aproximar esse tema de todas as pessoas.

E os imigrantes jovens, quais as maiores dificuldades deles?

ARYANE – “Valentes” foi desenvolvido para dialogar com jovens leitores, mas não apresenta um recorte de faixa etária. São muitas as dificuldades enfrentadas por jovens imigrantes hoje, da onda crescente de xenofobia aos custos altíssimos para validar um diploma. Dedicamos um capítulo do livro ao combate às fakes news associadas aos refugiados e imigrantes. É importante lembrarmos que são pessoas que rapidamente dominam um novo idioma e possuem nível de escolaridade superior à média da população local. Aqui entram também as opressões transversais, como as muitas discriminações sofridas pela população LGBTQIA+.

O que vocês acham da política de imigração do Brasil?

ARYANE – A lei brasileira que define o conceito e as políticas de proteção a essas pessoas foi aprovada em 1997, sob o número 9.474, e é considerada uma das mais modernas do mundo. Ela diz que refugiado é aquele que sofre perseguição por raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas e que esteja fora de seu país natal. Uma pessoa também pode se enquadrar na Lei de Refúgio se foi obrigada a deixar seu país por grave e generalizada violação de direitos humanos, ou seja, se sua vida, integridade física ou liberdade estavam ameaçadas. Mas infelizmente direitos adquiridos não são direitos garantidos. A palavra-chave aqui é integração. O Brasil, país de proporções continentais, acolhe cerca de irrisórios 0,04% dos refugiados do mundo. Para além de acolher, é preciso integrar. Proporcionar oportunidades. E todas e todos nós precisamos ter participação ativa e diária nessa integração.

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