Jovem cineasta do interior de PE é selecionado para maior escola de cinema da América Latina

Jovem cineasta do interior de PE é selecionado para maior escola de cinema da América Latina

Publicado em 31/08/2020 por Revista algomais às 4:00

Alysson Souza é um realizador audiovisual do interior de Pernambuco e foi selecionado para o Curso Regular de Roteiro, com duração de 3 anos, na Escuela Internacional de Cine y TV, em Cuba. A EICTV é considerada a maior escola de Cinema da América Latina e reconhecida por sua importância mundial. O governo brasileiro não apoia mais os ingressados na EICTV, deixando os brasileiros selecionados sem bolsas.

Da cidade de Vitória de Santo Antão, Alysson Souza se formou em Rádio, TV em Internet pelas Faculdades Integradas Barros Melo. Diariamente, enfrentando uma distância de 60 km entre o município vitoriense e Olinda, sempre se dedicou muito aos estudos da dramaturgia cinematográfica. “Durante a graduação, tive uma rotina bastante cansativa e um trajeto também bastante difícil. Eu me acordava de madrugada, às 4h da manhã, pra poder pegar um ônibus às 5h, da prefeitura, pra poder economizar a passagem, e pegava um outro ônibus, no centro do Recife, até a faculdade pra poder assistir as aulas a partir das 7h30. Chegava na faculdade às 7h30. E à tarde eu estudava bastante, procurava estágio. Sempre me dediquei muito aos estudos, e chegava em casa às 11h da noite pra poder, no outro dia, acordar às 4h novamente. Foi assim por 4 anos. No meio do caminho, eu acabei enfrentando uma depressão, que deixou tudo muito mais difícil. Mas, enfim, eu não tenho vergonha nenhuma de falar sobre isso, porque é o que fez parte da minha vida”, declara Alysson.

A Escuela Internacional de Cine y TV, em Cuba, teve como um de seus fundadores o Prêmio Nobel Gabriel García Márquez. Desde sua fundação, alunos de 50 países se formaram na instituição, muitos dos quais já exibiram filmes em festivais como o Festival da Cannes e outros festivais importantes. Ao longo dos anos, grandes nomes como Steven Spielberg (Jurassic Park), George Lucas (Star Wars) e Francis Ford Coppola (Apocalypse Now) já ensinaram na instituição.

Além do reconhecimento formal, a EICTV é uma escola com filosofia que respira cinema. A cada dois anos, apenas 5 alunos de todo o mundo são selecionados para cursar cada uma das especialidades que a escola oferece, ou seja, é uma instituição muito concorrida. Por ser uma escola internacional, ao longo dos três anos de curso, os alunos têm contato com diversos professores de diversos países que atuam no mercado e vão para Cuba apenas para ministrar EICTV. “É uma oportunidade única e é meu sonho. Me esforcei muito a vida toda para estudar e trabalhar. Fiz a prova para estudar na EICTV 4 vezes. Dessa vez que fui aprovado, fui para Fortaleza realizar a seleção, sem dinheiro, mas com apoio dos amigos, e consegui passar. Sou o único pernambucano aprovado neste ano e infelizmente não tenho o dinheiro para pagar. Existem outros brasileiros na mesma situação de não ter o dinheiro para poder ir.”, afirma Alysson. “Trabalho na Mostra de Cinema da Vitória de Santo Antão como um dos curadores e diretores artísticos, fazemos a Mostra com sessões gratuitas e ações formativas gratuitas para todo o público. Tive um filme aprovado no edital do Funcultura Audiovisual, na categoria ‘Revelando os Pernambucos’, porém o projeto precisou ser paralisado devido à pandemia de Covid-19, tem pessoas da minha cidade na equipe do filme. Faço questão de andar junto com elas nesses trabalhos, pois cinema não só se faz nas capitais. Essa é uma forma construir um cinema mais democrático.”, completa.

Desde 2017, durante o governo Temer, o apoio aos brasileiros ingressados na EICTV foi interrompido. O governo brasileiro não apoia mais os ingressados na EICTV. O governo cubano financia as mensalidades em 75%, o restante o Brasil não honra mais, tendo retirado as bolsas dos brasileiros para que os alunos possam estudar na instituição cubana. Isso significa desembolsar o valor de 6 mil euros por ano para arcar com os custos do curso. Fora isso, o valor de 6 mil euros não inclui passagens aéreas e seguro saúde (obrigatório para entrada no país). Como as aulas são em período integral, e por questões de visto de estrangeiro, não é possível trabalhar no país. O vitoriense precisa de um valor de R$ 50.000,00 para poder estudar o primeiro ano de curso, que tem início em janeiro de 2021. Neste valor estão inclusos o curso, passagens aéreas, seguro saúde, roupas de frio e um valor para poder se manter por mês e comprar alguns produtos de higiene. “Mesmo com a alimentação sendo oferecida pela escola, os brasileiros que já estudaram na Escuela recomendam que tenhamos como fazer nossa própria comida, pois as aulas são das 9h às 17h. Às vezes das 9h às 23h. É importante para podermos comprar e cozinhar nossa própria comida para seguir aulas sem chocar os horários”.

Em um momento em que o cinema brasileiro se encontra em crise, e sem perspectivas de bolsas, Alysson busca apoio através de uma “vaquinha” na internet (link: https://benfeitoria.com/alyssonemcuba). “As doações pela vaquinha são minha única forma, no momento, de poder arcar com, pelo menos, o primeiro ano de curso em Cuba, pois devido às minhas condições financeiras fica impossível arcar com custos tão altos. Quanto aos dois anos seguintes de curso, não sei como vou como vou pagar. Tenho medo de não ir, assim como também tenho medo de não conseguir terminar o curso. Se eu não conseguir atingir a meta da vaquinha, não será possível ir. Fiz essa prova 4 vezes, é meu sonho estudar lá. Não quero morrer e nadar na praia.”

O desejo de quando retornar ao Brasil é compartilhar o conhecimento adquirido na Escuela Internacional de Cine y TV com trabalhadores da área do cinema das cidades interioranas e das periferias das capitais por acreditar que esses profissionais encontram dificuldade em trabalhar no mercado que se concentra nos grandes centros. “Eu sinto que muita coisa incrível pode acontecer se eu receber essas doações para poder estudar na EICTV. Eu vou estar realizando um sonho, um sonho imenso da minha vida. Quando eu voltar, eu preciso compartilhar o conhecimento adquirido na Escola com realizadores das periferias, com realizadores dos interiores… pra gente continuar pensando um outro Cinema, sabe? Um outro Cinema ainda é possível, um Cinema com muito mais acesso. É possível ver grandes trabalhos dessas pessoas que enfrentam dificuldades de entrar no mercado, assim como eu enfrentei. Para eu poder realizar esse sonho, é muito importante que as pessoas doem. E quem não puder doar, é importante compartilhar minha vaquinha pra mais gente ficar sabendo e assim aumentarem as chances de eu receber doações”.

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