Luíla e Pretinha Cineclube mobiliza comunidade de Apipucos

Luíla e Pretinha Cineclube mobiliza comunidade de Apipucos

Publicado em 14/09/2019 por Revista algomais às 11:14
Grupo que atua na zona norte do Recife e é um braço do projeto Movimenta Cineclubes realizará mutirão de atividades culturais neste fim de semana (14 e 15 de setembro)

A partir da construção de um espaço democrático e de formação de espectadores críticos frente a obras do audiovisual, os moradores da comunidade de Apipucos, na zona norte do Recife, têm se mobilizado em grupos de trabalho para colocar a mão na massa e pleitear por melhorias em prol do coletivo.

O Luíla e Pretinha Cineclube realizou a sua primeira sessão no anoitecer de um sábado, 27 de abril, quando dezenas de pessoas, ainda curiosas pelo que estava por vir, se reuniram no Salão Paroquial de Apipucos para fruir cinema. Naquele primeiro momento assistiram a curtas baseados nas temáticas da agroecologia e do consumo consciente da água. Não mera coincidência, a poucos metros dali o açude de Apipucos transbordava poluição e descuido. A identificação com o que se via na tela grande foi imediata e, tão logo acabou a exibição, a roda de cadeiras se desenhou e a vontade de conversar, de cruzar conhecimentos entre as reflexões estimuladas pelos filmes e a realidade vivenciada ganhou corpo entre todas as pessoas que ali se reconheciam no sentido mais genuíno da palavra “comunidade”.

De lá para cá, muitos já foram os temas e as sementes plantadas na comunidade de Apipucos. O projeto não só ganhou forma e amadureceu, como também despertou o senso coletivo e uniu corpos presentes nas lutas diárias que ali sempre existiram, mas andavam um pouco cansadas. Chegando a sua 9ª sessão na tarde do sábado, 14 de setembro, com a oficina Farmácia Viva e a exibição do filme “O Menino e o Mundo” no Conselho de Moradores de Apipucos (Rua dos Caetés, 195) e, a partir das 9h do domingo, 15 de setembro, realização do Passeio Sensorial pelos territórios da comunidade e do 2° Seminário de Reestruturação do Conselho, o Luíla e Pretinha Cineclube se tornou um lugar de afeto e de rearticulação dos moradores que bebem na fonte de luz, força e resistência das duas mulheres guerreiras que nomeiam o projeto.

Dona Luíla – “Nós temos que fazer com quem está aqui”, professou dona Luíla Bezerra Silva, 86 anos, durante a primeira reunião do Conselho de Moradores de Apipucos a qual as facilitadoras do cineclube participaram para apresentar o projeto. Sábias as palavras de uma mulher que entende que, para que haja uma transformação social, é preciso ter corpos dispostos e disponíveis. Dona Luíla, professora que alfabetizou centenas de crianças de forma voluntária, é uma das maiores representatividades vivas do protagonismo feminino nas histórias de luta e de resistência de Apipucos.

Dona Maria Pretinha – Maria José do Carmo, chamada carinhosamente como Pretinha, também ocupou e sempre ocupará esse lugar de coragem, sabedoria e afeto. No último dia 08 de julho partiu, deixou quatro filhos (as), 11 netos (as) e 16 bisnetos (as) para iluminar e transmitir leveza em outros planos. Ao longo de sua vida, acolheu inúmeras crianças e jovens em sua casa sempre de portas abertas. Também ajudava os que mais precisavam dividindo o pouco que tinha e matando a fome de muita gente. Pretinha lavou a roupa de famílias ricas da região durante a maior parte de sua vida, na beira do açude, e assim conseguia fazer o que mais gostava: ajudar o próximo. Pretinha foi homenageada em vida pelo Luíla e Pretinha Cineclube. Ela esteve presente na sessão do dia 29 de junho, uma semana antes de sua partida, quando toda a comunidade comemorou o seu aniversário de 96 anos.

Expandindo suas raízes para além do eixo central, que é a exibição de filmes seguida de roda de reflexão e trocas, o Luíla e Pretinha Cineclube está atuando na comunidade em parceria com algumas pessoas que têm o desejo de reestruturar o Conselho de Moradores e resgatar o espaço como um ponto de resgate cultural, de experiências, de reuniões e de articulações, um espaço que dialoga com o cinema, com a sétima arte. No 1° Seminário realizado com a presença do projeto na comunidade, no dia 03 de julho, foram formados Grupos de Trabalho para organização das atividades de acordo com o perfil de cada morador (a). A partir disso, nasceram os GT’s de Soberania Alimentar, Infraestrutura, Memória, Jurídico e Articulação.

Os grupos já realizaram diversas ações e a criatividade, a vontade de fazer acontecer e de colocar a mão na massa não param. O primeiro módulo da Farmácia Viva, por exemplo, foi construído pelas mãos das crianças da comunidade, as quais puderam aprender um pouco mais sobre o poder de cura das plantas medicinais e compartilhar os conhecimentos com os (as) adultos (as). Na lateral do Conselho de Moradores de Apipucos, a Farmácia Viva está sob os cuidados compartilhados de todas as pessoas que por ali circulam e dedicam um tempinho para observar e colocar água. Um outro grupo está se mobilizando na busca de parcerias com as escolas da comunidade e com projetos já em andamento. Já outro núcleo se articula para entender um pouco mais sobre as questões jurídicas de uma associação de moradores, enquanto outras pessoas trabalham propostas de melhorias na edificação que sedia o Conselho que ali foi fundado em 1984. Um outro braço do grupo se dedica ao resgate da história da comunidade ouvindo, registrando e documentando depoimentos de quem a viveu, os próprios moradores, além de pesquisas científicas em instituições. E assim vai muito mais além. As ideias e os planos se multiplicam a cada nova atividade na comunidade, a cada reunião dos GT’s, a cada participação nos encontros do Conselho de Moradores.

Facilitadoras do Luíla e Pretinha Cineclube – É nesse formato de construção comunitária e social que as facilitadoras do Luíla e Pretinha Cineclube caminham juntas, cada uma com uma habilidade diferente para somar. Andréa Almeida é jornalista e comunicadora social; Duda Freyre é artista da dança, bioarquiteta e técnica em agroecologia; Nathalia Mesquita é gastrônoma e técnica em agroecologia; Mateus Santos é gastrônomo; e Roberta Coutinho é pesquisadora do audiovisual e professora da área de comunicação. Todas aprendizes e facilitadoras cineclubistas pelo processo de formação do projeto maior o qual fazem parte, o Movimenta Cineclubes e Organização Popular, através do primeiro curso da Universidade Popular Gregório Bezerra, localizada no Armazém do Campo do Recife. Em encontros mensais, os (as) participantes do Movimenta aprenderam sobre o fazer cineclube, aguçaram o olhar crítico sob o que é transmitido pelas telas e promoveram intercâmbios entre territórios, realizadores (as), pesquisadores (as), críticos e outras pessoas que entendem o cinema como uma arte, um dispositivo de transformação social.

Movimenta Cineclubes e Organização Popular – O cineclubismo surgiu nos anos 20 do século XX, na França, e segundo registros do Conselho Nacional de Cineclubismo o primeiro do Brasil iniciou as atividades em 1928, sendo o Chaplin Club no Rio de Janeiro. Hoje são dezenas de cineclubes espalhados pelo País inteiro e, no Recife, o projeto Movimenta Cineclubes e Organização Popular surgiu a partir de uma necessidade de empoderamento, discussão da realidade e mobilização das comunidades para se alcançar uma transformação social. Somente associados ao Movimenta, na Região Metropolitana do Recife (RMR), já existem cerca de 30 cineclubes em funcionamento, sendo o Luíla e Pretinha Cineclubes o braço de Apipucos. Hoje, o Movimenta é organizado pela Federação Pernambucana de Cineclubes (FEPEC), a Associação Brasileira de Documentaristas (ABD) e pelo coletivo Mulheres no Audiovisual de Pernambuco (MAPE). Além disso, as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo têm participado dos momentos de organização. A proposta é utilizar os cineclubes como ferramentas de conscientização política e discussão da realidade.

PROGRAMAÇÃO – MUTIRÃO DE ATIVIDADES NESTE FIM DE SEMANA

Sábado, 14 de setembro, será dia de mutirão de atividades na comunidade de Apipucos. A partir das 14h, o Grupo de Trabalho de Soberania Alimentar, em parceria com o Grupo de Trabalho de Infraestrutura, implementará o segundo módulo da Farmácia Viva no Conselho de Moradores de Apipucos (Rua dos Caetés, 195). A convite do Luíla e Pretinha Cineclube, a técnica de agroecologia, moradora e líder comunitária em Gameleira, Zona Rural de Glória do Goitá, Maria Lourdes, irá facilitar uma oficina com crianças e adultos sobre a importância e o poder de cura das plantas medicinais, além de fazer coletivamente um jardim vertical. A atividade também contará com o apoio do Grupo de Idosas Eternas Aprendizes da comunidade, as quais participarão levando mudas para ajudar na composição da agricultura urbana que vem sendo desenvolvida pelo Luíla e Pretinha Cineclube. Na oportunidade, serão plantadas diversas espécies como Artemísia, Babosa, Hortelã Graúda, 7 Dores, Terramicina, Erva Cidreira, Manjericão e Boldo.

Dandara Ferreira da Silva, 9 anos, moradora da Rua dos Caetés, na comunidade de Apipucos, participou do primeiro módulo de implementação da Farmácia Viva e conta como está sendo a experiência: “Eu gosto da agroecologia porque ela não é um produto envenenado e respeita a natureza. Eu acho isso muito importante porque a gente não está se envenenando e, sim, melhorando a nossa saúde. Eu estou participando do cineclube, que é muito legal, onde nós participamos de várias conversas e assistimos a vários filmes. E eu estou muito ansiosa para a gente fazer a Farmácia Suspensa, pois eu tive uma sensação muito boa quando estava mexendo na terra, no dia da nossa primeira atividade”.

Após a oficina, será iniciada a 9ª sessão do Luíla e Pretinha Cineclube, que também acontecerá no Conselho de Moradores de Apipucos. O filme “O Menino e o Mundo”, indicado ao Oscar 2016 como melhor animação e dirigido por Alê Abreu, será o estímulo para a roda de conversa após a exibição. A animação é toda desenhada em 2D, e faz um paralelo entre a vida rural e a vida urbana, mostrando de forma lúdica as felicidades cotidianas do campo e as injustiças da cidade grande. Sinopse: um menino mora com os pais em uma pequena cidade do campo. Diante da falta de trabalho, um dia, ele vê o pai partindo para a cidade grande. Os dias que se seguem são tristes e de memórias confusas para o garoto. Até que então ele faz as malas, pega o trem e vai descobrir o novo mundo em que seu pai mora. Para a sua surpresa, a criança encontra uma sociedade marcada pela pobreza, exploração de trabalhadores e falta de perspectivas.

Já a partir das 9h do domingo (15), o Grupo de Trabalho da Memória promoverá um “Passeio Sensorial” pelos territórios da comunidade de Apipucos, percorrendo a Serra Pelada, a Rua dos Caetés, a Rua de Apipucos, a Rua Laura Gondim, o Mussu e o Areal. A ideia é se reunir em grupo para explorar os espaços da comunidade com um outro olhar, em um processo de reconhecimento do território, aguçando os sentidos e resgatando a memória de cada lugar. Na ocasião, o grupo fará entrevistas com moradorxs e, com o celular em mãos, cada participante irá registrar em vídeos e em fotos o que mais lhe chamar atenção pelo caminho, resultando em uma experiência de produção coletiva em audiovisual.”

Durante a tarde, das 14h às 17h, o Grupo de Trabalho Jurídico irá promover o 2° Seminário de Reestruturação do Conselho de Moradorxs de Apipucos, onde todxs que constroem o Luíla e Pretinha Cineclube, moradorxs e convidadxs irão dialogar sobre as diversas formas de se construir um espaço coletivo para ganhos afetivos, sociais e ambientais da comunidade como um todo.

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