São José e Santo Antônio: Região de história

São José e Santo Antônio: Região de história

Publicado em 18/12/2018 por Revista algomais às 12:38
Bairros de São José e Santo Antônio foram cenário das revoluções pernambucanas e de atos de resistência aos regimes autoritários do País

Numa caminhada trivial de pouco mais de um quilômetro e meio saindo do Palácio do Campo das Princesas, em Santo Antônio, até o Forte das Cinco Pontas, em São José, é possível transitar pelos lugares que escreveram parte significativa da história pernambucana. Na segunda reportagem sobre esses bairros centrais do Recife, retrocederemos um pouco no tempo para compreender como se deu a formação urbana dessa região e quais os acontecimentos políticos que marcaram esse lugar.

De acordo com o arquiteto José Luiz da Mota Menezes, a primeira construção dessa região é um pequeno convento, no ano de 1608, vindo posteriormente poucas residências. “A princípio foi construído em Santo Antônio um conventinho, depois um cristão novo chamado Baltazar fez oito casinhas, do antigo prédio do Jornal do Commercio até a Rua Primeiro de Março. Posteriormente foi erguida a casa de Pedro Álvares. Era apenas isso até a chegada de Maurício de Nassau, que amplia essa área e projeta o bairro de São José em 1639”, explica o especialista.

Além de contar com edificações religiosas construídas entre os Séculos 17 e 19, os bairros eram onde se instalavam os jornais e reuniam intelectuais e boêmios.

Com o domínio holandês, a Ilha de Antônio Vaz − que abriga os dois bairros − passa a ser conhecida como a Cidade Maurícia. A denominação persistiu até a expulsão dos holandeses, em 1654. Foi neste período em que foram construídas as primeiras pontes para conectar as ilhas recifenses. Também data dessa época a criação de um plano que previa o crescimento da cidade.
“Durante o período da invasão holandesa, o conde Maurício de Nassau residiu naquela ilha. Foi lá que ele deu início à sua expansão territorial, fator determinante para o desenvolvimento urbano da época”, revela a pesquisadora Semira Adler Vainsencher em artigo da Fundação Joaquim Nabuco.

De acordo com o historiador e professor da UPE, Carlos André Moura, durante o domínio holandês foram construídos o primeiro observatórios astronômico, um jardim botânico e um zoológico na cidade. “Foi erguida a primeira ponte que ligou as ilhas do Bairro do Recife a Santo Antônio, a atual Maurício de Nassau”. Um evento marcante, segundo o historiador, foi o anúncio do conde assegurando que um boi iria voar durante a inauguração. E ele realmente conseguiu o intento. Na verdade, Nassau mandou fazer um boi de palha e couro e o suspendeu por um sistema de roldanas e cordas, permitindo que atravessasse de um lado a outro da ponte para a admiração dos presentes.

É dos holandeses a iniciativa de construir o Forte de São Tiago das Cinco Pontas, em 1630. Erguido de taipa nas proximidades das cacimbas do senhor de engenho Ambrósio Machado, essa fortaleza tinha como função evitar a circulação de navios inimigos pelo rio e proteger essa fonte de fornecimento de água potável no bairro de São José, que era ocupado inicialmente apenas por pescadores. Com a derrota dos holandeses o forte foi destruído, sendo restaurado apenas em 1684, com um material mais resistente.

Logo após a derrota holandesa, é construída pelos capuchinhos franceses uma das principais igrejas da ilha, o templo original da Igreja da Penha, em 1656 (a basílica que conhecemos foi erguida no mesmo local em 1870). Mas é durante o Século 18 que são edificados muitos dos templos religiosos que conhecemos atualmente. Sobre as trincheiras holandesas e a antiga Casa de Pólvora foi erguida a Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio, em estilo barroco colonial. Neste mesmo século são construídas a Capela Dourada, a Igreja de São Pedro dos Clérigos, o Convento Franciscano de Santo Antônio e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares.

Além da vida religiosa, esses bairros foram marcados pela atividade comercial, sob forte influência da dinâmica na região do Mercado de São José, que foi inaugurado apenas em 1875. Mas, desde 1787 já existia no seu pátio um comércio de frutas e verduras, chamado de Ribeira de São José. Todas as ruas do seu entorno seguem com intensa atividade comercial, principal vocação do bairro, mesmo em meio a toda dificuldade de mobilidade e de segurança nas calçadas.

“Os turistas vêm para ver o diferente. Nós temos, mas não tratamos bem os nossos diferenciais. Nosso Mercado de Ferro é um dos poucos do Brasil. Deveria ser uma obra-prima. Um lugar para as pessoas verem o peixe sendo recortado, comprar os artigos regionais. O mesmo deveria ocorrer com a Casa da Cultura. Mas é preciso preparar essa contemplação. Esses bairros são um museu que poderia ser recuperado”, afirma Mota Menezes.

Essa região também foi palco de dois dos maiores movimentos revolucionários de Pernambuco. “A Revolução de 1817 e a Confederação do Equador de 1824 aconteceram principalmente nas ruas desses bairros, onde funcionava a imprensa e onde se encontravam os jornalistas, intelectuais, religiosos e políticos. Muitos moravam e trabalhavam nesta localidade”.

A morte do principal nome da Confederação do Equador, o Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, conhecido por Frei Caneca, se deu também nessa região. “Ele foi preso onde hoje é o Arquivo Público, na Rua do Imperador, e foi caminhando até o Forte das Cinco Pontas, no Bairro de São José, onde foi executado”, afirma Carlos André. No local exato da execução foi erguido um busto em homenagem ao herói pernambucano.

Com as mudanças nos bairros, principalmente no século passado, praticamente se construiu uma nova cidade sobre essa região histórica do Recife. “Como bem público, defendo que essa área deveria ter uma rigorosa preservação não da paisagem, mas do subsolo. Em qualquer obra nesses bairros deveria ter o acompanhamento de um arqueólogo”, sugeriu o arquiteto.

O processo de “modernização” da cidade – caracterizado pela abertura da Dantas Barreto e derrubada da antiga Igreja dos Martírios – é apontado pelos historiadores como uma das intervenções responsáveis pelo esvaziamento de moradias no bairro. “Essa avenida é construída nas gestões de Agamenon Magalhães e de Augusto Lucena e causou uma grande destruição do patrimônio histórico. Não apenas da Igreja dos Martírios, que foi destombada, mas também de vários casarios”, relata o Carlos André.

Parte dos moradores desses bairros era de universitários, que moravam em pensões e repúblicas estudantis para estudar na tradicional Faculdade de Direito do Recife. Outra característica marcante é que essa região era reduto dos intelectuais e jornalistas. “Veja como a imprensa estava organizada nesses bairros. Lá estavam o Diário de Pernambuco, o Jornal do Commercio, a Folha do Recife, o Diário da Manhã, o Jornal do Recife e o Jornal Pequeno. Todos muito próximos um dos outros”, referencia o historiador.

Como Santo Antônio e São José eram um reduto de intelectuais, implantaram-se nessa região vários cafés, bares e restaurantes, onde eles se reuniam. Destaque para o Bar Savoy e para o Café Lafayete. O consultor aposentado Laércio Queiroz chegou do interior para morar no Recife em 1967. Ele lembra com saudosismo os tempos boêmios de intensa vida cultural desses bairros, um período em que a violência pública ainda não era problema. “No final da década de 60 havia muitas boates, bares, cinemas e restaurantes, repletos de poetas, empresários, políticos e intelectuais. Era um período de romantismo, boemia e muitas festas”, conta. “Era comum encontrar jornalistas nesses lugares. Eles aproveitavam o centro para puxar uma ideia, turbinar alguma conversa em busca de assuntos para serem publicados. O Recife tinha uma vida pulsante nos bairros de Santo Antônio e São José”, recorda.

Laércio relembra do movimento da cidade nos dias em que desembarcavam no Porto do Recife os navios repletos de japoneses, franceses, coreanos, chineses, entre outras nacionalidades. “Sempre que chegava um navio desses, os marinheiros tomavam conta da cidade e faziam a festa. As calçadas ficavam cheias de mesas, as boates lotadas. Saíamos para curtir a noite e observar todo esse movimento”.

Além da boemia, a história desses bairros é marcada também por dois fatos políticos simbólicos durante os períodos autoritários do Governo Vargas e da Ditadura Militar. O historiador Carlos André afirma que o fato mais marcante durante o Estado Novo foi o assassinato do estudante Demócrito de Souza Filho, em 1945, na sacada do Diário de Pernambuco. Naquele momento ele fazia um discurso contra o governo de Getúlio, quando recebeu um tiro e veio a falecer, causando grande comoção na cidade.

O outro evento foi a prisão do então governador Miguel Arraes de Alencar, no Palácio do Campo das Princesas. “Com o Golpe de 1964, vários prefeitos e governadores precisaram deixar o cargo, mas Arraes não se entregou. Então ele foi preso e levado para o exílio”, lembra o historiador. Ele afirma que os bairros eram lugares de grandes manifestações de estudantes e intelectuais contrários à ditadura militar até o movimento das Diretas Já.

Após esse mergulho por parte da memória dos bairros, na próxima edição da Algomais discutiremos as soluções propostas pelos especialistas para reabilitação dessa região central do Recife.

*Por Rafael Dantas, repórter da Revista Algomais (rafael@algomais.com)

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