Polo de tecnologia procura profissionais

Polo de tecnologia procura profissionais

Publicado em 19/06/2019 por Revista algomais às 5:00
Há 900 vagas no Porto Digital não preenchidas que vão se somar a mais 4 mil em 2020. Empresas, academia e governo se unem para formar esse capital humano. Vinícius abandonou a engenharia civil para estudar computação e já está empregado numa startup. "A melhor coisa para quem estuda é saber que tem um polo desse tamanho precisando de gente o tempo todo". Foto: Tom Cabral

Imagine um país cujos habitantes brigam por uma oportunidade de emprego. Nele, há uma ilha com 900 vagas de trabalho abertas e com expectativa de multiplicar esse número em um ano. Porém, poucos estão capacitados para preencher esses cargos. Essa ilustração, não é nada irreal. Trata-se da demanda de profissionais de tecnologia nas empresas do Porto Digital, no Bairro do Recife, hoje. O cenário parece atrativo, principalmente em tempos em que o desemprego bate 16,1% em Pernambuco e quase 13% no Brasil. Além dos postos atuais não ocupados por falta de mão de obra capacitada, há uma estimativa de que as gigantes desse polo abram mais quatro mil até 2020. A mesma ilha onde começou a história da capital pernambucana séculos atrás é onde estão as principais apostas de crescimento econômico para as próximas gerações. E os empregos do futuro.

Esse cenário de postos de trabalho desocupados em meio ao desemprego nas alturas – e após um longo período de aumento da oferta de vagas no ensino superior brasileiro – tem explicação. Os pernambucanos estão se formando em áreas nas quais o mercado de trabalho é mais restrito ou que está em encolhimento. O setor de tecnologia da informação e comunicação (TIC) é ainda pouco procurado pelos jovens. E pior, a evasão nos cursos de computação, por exemplo, é de aproximadamente 75%, segundo dados do Censo da Educação Superior.

“Temos 2.050 alunos em ciências da computação hoje na Região Metropolitana do Recife. Para se ter uma ideia, os cursos de direito possuem em torno de 22 mil alunos. A geração passada e a atual foram levadas para os concursos públicos. Em busca da estabilidade, seguiram para a área de direito e esqueceram que o setor de TIC está crescendo absurdamente”, compara o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena.

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Pierre Lucena: “São 2.050 alunos em ciências da computação na RMR e 22 mil nos cursos de direito. Muitos fazem concursos públicos e esquecem que o setor de TIC está crescendo”.

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Uma das prioridades da direção do parque tecnológico para os próximos anos é reverter esse cenário. Levar mais gente para trabalhar no setor é um dos pontos-chave para manter a competitividade do polo e seguir atraindo investimentos. Os planos anunciados por Lucena são de ter até 2023 em torno de 20 mil profissionais nas empresas do Porto Digital. Hoje são cerca de 9,5 mil pessoas trabalhando nesse cluster.

Vinícius Moreira, 25 anos, está concluindo a graduação de ciências da computação no Recife. Sua vida acadêmica começou pela engenharia civil, sem muita motivação. Até que fez algumas cadeiras de programação e decidiu mudar de área. “Fiquei apaixonado pelo setor de tecnologia. Daí comecei a me dedicar à carreira. Saí de uma área que está mais travada para uma que é inovação constante”, comenta o universitário que está estagiando na startup Pague Bem Brasil.

A incursão de Vinícius pelos códigos aconteceu ainda no ensino médio, quando teve uma experiência inicial em uma disciplina de programação, em um colégio público em Aldeia. Para o futuro, ele não pretende sair do Recife. “A melhor coisa para quem estuda é saber que tem um polo deste tamanho precisando de gente o tempo todo. Quem estiver disposto, o caminho está aberto para crescer.”

Essa virada na rota profissional em direção à ilha tecnológica do Recife tende a acontecer com mais outros jovens. Mas os players do Porto Digital não estão esperando que isso aconteça naturalmente. Há uma pressa para evitar que o apagão de mão de obra engesse o promissor futuro do polo. A articulação do poder público com a iniciativa privada já entrou em campo para incentivar a procura pelas carreiras no setor e acelerar a chegada desses trabalhadores no mercado.

“Há uma grande deficiência entre a demanda e a formação de profissionais na nossa área. É uma conta que não fecha. E se não conseguirmos preencher as vagas que vão surgir, esse é um buraco que só vai aumentar. Acreditamos numa soma de forças para resolver esse problema. O poder público, com uma maior oferta de cursos no setor, além de mais incentivos no financiamento de bolsas nessa área. As empresas também podem fazer o dever de casa, contribuindo para a formação interna de pessoas e fazendo parcerias com ONGs em busca dos alunos que estão no ensino médio”, avalia o presidente da Assespro (Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação), Rodrigo Vasconcelos.

A multinacional Accenture, por exemplo, tem uma parceria com a ONG Rede Cidadã, que treina jovens em vulnerabilidade social em tecnologias demandadas pelo mercado, com posterior contratação. Recentemente, o Porto Digital firmou parcerias com a Universidade Tiradentes e com a Unicap para ofertarem mais cursos na área tecnológica no Recife. “Estamos fazendo uma grade curricular em conjunto com os empresários, com a proposta de oferecermos aos alunos residência nas empresas já a partir do início da formação”, afirma Lucena. Outro plano é ofertar cursos intensivos de curta duração para engenheiros que estão desempregados para transformá-los em programadores.

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Flavia: “A transformação do mercado de trabalho e das novas gerações fez as empresas repensarem suas estratégias de gestão e desenvolvimento de pessoas”.

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Silvio Meira, um dos idealizadores do Porto Digital e atualmente professor do Cesar School, defende a valorização das formações técnicas no Estado. “Em qualquer lugar em que se precisa de colders (programadores), a vasta maioria deles é formada em escola técnica. Isso vale para qualquer negócio do mundo. Se a gente tivesse hoje em Pernambuco escolas técnicas como a Cícero Dias ou a Porto Digital, que são as duas que formam programadores no ensino médio, teríamos mais meninos e meninas empregados”.

De acordo com o secretário de Qualificação e Trabalho de Pernambuco, Alberes Lopes, o Governo do Estado está desenvolvendo um projeto de capacitação dos estudantes que passaram pelo Ganhe o Mundo, programa que leva alunos para estudar um período no exterior. “Queremos gerar oportunidades de trabalho para esses jovens nessa área em que há grande chance de serem contratados”. Ele afirmou ainda que está em diálogo com a UPE e com a Secretaria de Educação para ofertar capacitações profissionais nas unidades da universidade em todo Estado. Provavelmente no Recife, em Caruaru e em Garanhuns, cidades com maior potencial de absorção de profissionais no setor receberão cursos na área de tecnologias digitais.

A urgência na atração de capital humano está levando as empresas a buscarem profissionais em outros Estados da região. No primeiro momento o Porto Digital fará uma chamada para 100 profissionais de Campina Grande e outros 100, de Natal. “Precisamos de um processo de aceleração da formação de mão de obra para não virarmos apenas um parque com grandes empresas, pois se houver muita carência de profissionais, não terá mais quem empreenda por aqui”, alerta Pierre Lucena.

Uma das gigantes da ilha, a Accenture Technology, conta atualmente com 2,5 mil colaboradores. Quando perguntada sobre a pretensão de expansão da empresa no Recife, a diretora executiva Flavia Picolo foi clara: “nossa meta é dobrar a operação em dois anos”.

A executiva concorda que há um desafio de captação de mão de obra, mas aponta que o problema não é exclusivo do Recife. “É um desafio global. A transformação do mercado de trabalho e das novas gerações tem feito empresas repensarem suas estratégias de gestão e desenvolvimento de pessoas”. Ela afirma que na Accenture, há um esforço para garantir a diversidade do seu quadro profissional, com um equilíbrio entre gerações, gêneros e experiências. A multinacional também avança por meio de aquisições, como na recente compra da Concrete, empresa renomada no mercado brasileiro e latino-americano e que cresce também no Recife.

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Outra grande companhia do Porto Digital, que nasceu no Recife como uma startup, é a In Loco. Com apenas cinco anos, a empresa conta com 180 profissionais e vem crescendo exponencialmente desde a fundação. “Para 2019, pretendemos expandir todas as áreas da empresa, principalmente as relacionadas a vendas, atendimento e engenharia. Acreditamos que poderemos escalar ainda mais nossa atuação no Recife, São Paulo e demais regionais da empresa. Temos a previsão de abrir processo seletivo para aproximadamente 100 vagas em todo o Brasil”, afirma Thais Cavalcante, diretora de pessoas da In Loco.

As áreas em que há mais necessidade de profissionais nas empresas são engenharia de software, product management (gerenciamento de produtos), design, engenharia de dados e DevOps (desenvolvedores). “São profissionais cada vez mais escassos na região”, explica Thais. Ela aponta que o Recife é um celeiro de talentos profissionais com relevância nacional. “Mentes brilhantes compõem o nosso mercado e, com o tempo, essas pessoas tendem a sair do Estado e até mesmo do País. Por isso, os empresários relatam a dificuldade de contratar e também de reter os profissionais de tecnologia”.

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Com a missão de transformar a criatividade das pessoas em novas soluções tecnológicas, o ecossistema instalado na ilha do Bairro do Recife é um dos segmentos produtivos de Pernambuco que tem maior potencial de crescimento nas próximas décadas. Diante da tendência global de substituição da mão de obra por robôs ou softwares, é lá que estarão as empresas com maior probabilidade de absorção de profissionais. Essa é a mensagem que o Porto Digital está tentando deixar aos jovens que estão decidindo a carreira que desejam seguir. A compreensão desse recado implica o futuro desses profissionais e do próprio cluster.

*Por Rafael Dantas, repórter da Revista Algomais (rafael@algomais.com)

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