Cultura pop japonesa conquista os recifenses

Cultura pop japonesa conquista os recifenses

Publicado em 23/08/2019 por Revista algomais às 16:50

Já faz algum tempo que vários bens culturais do Japão fazem parte do cotidiano dos jovens no Ocidente, seja por meio de mangás, animes ou jogos digitais. As produções japonesas conquistaram um espaço relevante dentro do cenário pop mundial, rompendo fronteiras geográficas ou diferenças de cultura. No Recife não é diferente, todo um universo do entretenimento japonês foi incorporado à rotina dos moradores da cidade, sobretudo, a parcela mais jovem da população.

Desde o famoso macarrão instantâneo, o inconfundível miojo, até as grandes feiras de encontro e celebração da cultura oriental, a cidade aporta diversas práticas e atividades relacionadas ao povo asiático e abriga uma legião de fãs apaixonados e engajados em tudo o que é relacionado à Terra do Sol Nascente. O fenômeno começou com a publicação dos primeiros mangás no Brasil, em meados da década de 80, mas ganhou força mesmo no fim dos anos 90 e início dos anos 2000 com a alta popularidade de animes como Dragon Ball e Pokémon em exibição na TV aberta brasileira no período.Os mangás, as histórias em quadrinhos japonesas, se caracterizam pela forte preocupação com o lado humano dos personagens e são uma diversão para todas as pessoas, independente de idade. A produção dessas histórias abrange uma variedade maior de leitores do que os gibis tradicionais, por isso, há a preocupação na produção de especificar o público alvo, direcionando o tipo da narrativa de acordo com o leitor.

Dentre os principais tipos, destacam-se os mangás Shonen, que são aventuras com muita ação, direcionados para o público jovem masculino, e geralmente são aqueles que mais obtêm êxito no Ocidente. Sucessos como Naruto, One Piece, Dragon Ball fazem parte dessa categoria. Os do tipo Shojo são romances leves e focados no público jovem feminino como, por exemplo, a obra Sakura Card Captions, já os Seinen são voltados especialmente no público masculino adulto, como Ghost In The Shell. Cada um desses tipos envolve uma gama de gêneros literários diversificados, que vão desde o mais tenro romance, até as ficções científicas e contemplam públicos que não se veem tão bem representados nos outros quadrinhos, como crianças, mulheres e idosos.

A historiadora Viviane Holanda, 25 anos, relaciona sua paixão com os quadrinhos orientais aos valores que são transmitidos dentro das obras. “Ao contrário das produções ocidentais, que enfocam mais no protagonismo individual, nas japonesas o herói é parte de uma equipe, e geralmente, só consegue alcançar o seu objetivo em grupo”, explica. “Posteriormente, descobri que isso é um traço da cultura deles, de pensar no coletivo antes do individual”, completou. Já o universitário Pedro Pequeno, 20 anos, relaciona outras questões ao fenômeno. “Desde criança tive muito contato com os desenhos japoneses, na TV mesmo, e a partir daí comecei a explorar muito essa conexão por meio dos eventos que acontecem na cidade”, destacou.

A cultura pop japonesa atingiu tamanho patamar, que crescem a cada dia o número de otakus e de eventos relacionados ao que é produzido na Terra do Sol Nascente. Otaku é como são conhecidos, popularmente, os fãs da cultura japonesa, que formam um público respeitável na cidade e as convenções servem como uma maneira de unir essas pessoas. “Os eventos são muito importantes para a disseminação da cultura japonesa, porque é lá onde os fãs de vários tipos de animes e mangás se reúnem para trocar influências. Acontecem também exibição de animes, o que faz você conhecer as novidades produzidas. Além das barracas vendendo todo tipo de mangás, expondo as novidades e os raros. Sem os eventos, isso ficaria meio solto na internet, cada um na sua bolha. O evento agrega gostos diferentes”, explica Viviane.

Na fileira de outros eventos que exploram essa cultura de games e de heróis, os encontros dos fãs de cultura pop japonesa têm cada vez mais se diversificado para abrigar os mais diferentes públicos, consolidando fãs cativos dentro da cidade. “Acredito que a infância das pessoas, assistindo aos desenhos na TV, misturando aos eventos que acontecem acabaram criando um grande grupo de fãs aqui, fidelizando-os e atraindo curiosos pelas tradições japonesas”, destaca Pedro.

Pelo caráter plural dos tipos e temáticas dos mangás e animes, os eventos acabam se tornando também bastante democráticos para todos que participam. Neles se vê gente de todos os gostos e todas as idades, desde os primeiros fãs advindos dos primeiros animes e mangás no Brasil na década de 80, até os filhos destes, que herdam dos pais o gosto por essa parte da cultura japonesa.
Isaac de Melo, atendente em um restaurante no Recife, é um otaku das primeiras gerações, e acredita que houve grande revolução para os fãs da cultura pop japonesa a partir do surgimento e da popularização da internet. “Antigamente era muito difícil encontrar um mangá, um anime, hoje em dia está muito mais fácil e isso é graças à internet, que facilitou a proximidade com esse mundo. Antes, se eu queria ver algum anime, entrava em contato com um rapaz da locadora, que ia encomendar a fita ou o DVD para só depois de 15 dias eu conseguir assistir à produção”, relembra.

Isaac mantém até hoje ligações com a cultura oriental, seja lendo os mangás, jogando as produções eletrônicas de lá ou praticando o cosplay em feiras e eventos japoneses. O chamado cosplay, é uma prática de se vestir igual a um personagem dessas histórias ou dos games, tentando ser o mais fiel possível ao original. Todos os eventos que ocorrem no Estado possuem concursos de melhor cosplay, alguns até estipulam categorias diferentes para os praticantes concorrerem. Exemplo disso são as categorias de cosplay individual e em grupo. “Eu só faço cosplay de personagens que eu respeito e admiro. Eu incorporo aquele personagem. Não é simplesmente se vestir igual a ele. Tem que unir a aparência com a personalidade”, elucida Isaac.

O que encanta Isaac são as diferenças e peculiaridades da cultura asiática, tanto nos formatos das produções, quanto nas narrativas produzidas. “Os quadrinhos brasileiros são mais ligados à comédia, muito raramente se vê um quadrinho de ação, ou algum de suspense. Já o mangá é diferente, cada história tem um formato único. Existe mangá da era feudal, no Japão antigo, mangá com robô. Tem também os engraçados, mas não é só isso. Ao ler, a gente fica curioso com o que vai acontecer. Aquela história lhe envolve, gera uma expectativa, ou você lê ou se sente mal,” relata o cosplayer.

Existem lojas na cidade especializadas na comercialização desses mangás e de artigos relacionados à cultura japonesa em geral, como action figures (bonecos em miniatura dos personagens), itens de decoração (bichos de pelúcia, colares, quadros) e vários outros objetos de desejo dos entusiastas das produções da Terra do Sol Nascente. Mas são nos eventos de celebração da cultura asiática, como Omakê, Sakura Festival, Power Con e o SuperCon que as vendas desses artigos são potencializadas, já que essas feiras costumam contar com mangakás (quadrinistas de mangá), convidados, expondo seu material.

Esses eventos unem também os fãs de música pop e rock japonesa, conhecidas como j-pop e j-rock. Esses gêneros, já existentes antes da popularização dos mangás e animes no mundo e no Brasil, pegaram carona no sucesso dos desenhos japoneses, pois embalam as aberturas e encerramentos de cada episódio. Os encontros de cultura pop japonesa em Pernambuco cresceram o suficiente para todo ano, trazerem atrações musicais japonesas, que encerram os eventos.

Grandes ídolos, como Joe Inoue, Yumi Matsuzawa e Takayoshi Tanimoto, e bandas como Snowkel, Home Made Kazoku e Flow já passaram pelos palcos pernambucanos. “A cultura japonesa consegue fazer uma valorização mútua da tradição e das novidades. Comungando o valor e a importância do passado, mas sempre olhando e trabalhando pelo futuro. Então, é fascinante descobrir esse mundo e celebrar junto com pessoas que também enxergam essas características em festas e feiras dentro da nossa cidade”, conclui a historiadora Viviane Holanda.

*Por Yuri Euzébio, da Revista Algomais (redacao@algomais.com)

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