“Boemia faz parte da cultura de uma cidade”

“Boemia faz parte da cultura de uma cidade”

Publicado em 21/10/2019 por Revista algomais às 20:42

Quem costuma frequentar a noite recifense certamente já se divertiu em alguma festa promovida por Paulo Braz nos últimos 30 anos. Mentor de festejos memoráveis, quando a capital pernambucana ainda sofria os tristes e duros anos de chumbo da ditadura militar, Braz também abriu casas noturnas que ficaram célebres. Foram mais de 30 festas. Nesta entrevista a Cláudia Santos, feita no seu negócio atual, a Mercearia do Braz, no bairro da Boa Vista, ele conta sua surpreendente trajetória como funcionário do Banco Central, psicólogo e promotor da boemia. E ainda divulga uma novidade: após 10 anos sem organizar festejos de ano novo, ele paneja montar um Réveillon no Bar Biruta, no bairro do Pina.

Como um funcionário do Banco Central tornou-se o rei da noite recifense?
Este ano lancei o livro Meu peito é feito de festa, onde conto essa história. Nasci no interior da Paraíba, cheguei no Recife, aos 15 anos, em 1969. Morava na casa de um tio que eu nem conhecia. Estudei no colégio interno dos padres franciscanos, que foi uma coisa muito boa para mim porque eu logo cedo desenvolvi o hábito da leitura, que foi minha tábua de salvação.

Por que?
Porque descobri a arte. Eu ia na biblioteca pegar livro emprestado e me preparei. Eu tinha uma bagagem cultural melhor do que a de meus primos daqui que já tinham 16, 17 anos. E o que me restava era fazer concursos. Passei na Embratel, no Banco do Brasil, na Faculdade de Psicologia e entrei no Banco Central, em 1976. Naquela época, você podia trabalhar seis horas, havia perda de salário, mas para mim era mais interessante, porque podia atender no consultório. O Banco Central era uma instituição muito séria, mas sabia que aquilo não ia me satisfazer, e comecei a participar da vida cultural da cidade. Acontece que surgiu o Congresso de Psicologia em Havana e, nessa época, o Brasil ainda nem tinha relações diplomáticas com Cuba. Fomos num grupo de 10 psicólogos do Recife, de um total de 300 da América Latina. Quando cheguei lá, fiquei encantado com o estilo de vida dos cubanos, com sua alegria, com a dança, com a soltura da pélvis dos homens cubanos, com a festa, com o rum, com o charuto, com toda essa festa tropical latina. Enquanto lá eles comemoravam a vida, a gente vivia uma ditadura, o Recife era uma cidade triste. Quando voltei, pensei em promover festas com a alegria cubana. Na época, a gente se encontrava na loja Allegro Cantante, que foi a primeira a fazer a passagem do vinil para o CD. Era frequentada por publicitários, jornalistas e o pessoal de música. Eu saia do Banco Central e ia pra lá. Um dia eu falei: tô querendo fazer umas festas temáticas, um negócio bacana mesmo. Daí, eu e um grande amigo, Wagner Nogueira, diretor de arte da Italo Bianchi, saímos da loja e fomos continuar a bebedeira na casa dele. Contei pra ele como queria a festa e ele começou a rabiscar o cartaz do evento. A partir desses encontros, desses brainstorms, surgiram as primeiras festas temáticas.

Como eram os temas dessas festas?
A primeira, O Baile, teve no cartaz de divulgação uma arte com Rita Hayworth e aconteceu no The Pernambuco British Town Club, antigo clube dos ingleses que ficava no Recife Antigo. Depois promovi Os incríveis anos 60, que tinha como cartaz uma arte lembrando o disco Sgt. Pepper’s, dos Beatles. O estilo de música era o das big bands, ou jazz, ou salsa. Nos 200 anos da Revolução Francesa, fizemos uma festa inspirada em Coco Chanel e no filme O Baile, de Ettore Scola, e trouxemos ninguém menos que Bibi Ferreira para cantar as canções de Edith Piaf. A ditadura terminou em 1985/1986, mas as pessoas não costumavam frequentar as ruas à noite. Aí eu descobri o Forte das Cinco Pontas, a Torre Malakoff, a Rua do Bom Jesus, que estavam em ruínas. Comecei a promover festas temáticas nesses locais. Era uma forma de levar as pessoas para lá. Fiz mais de 20 festas temáticas, também promovi Réveillon, os festejos do bloco Siri na Lata. Depois eu evoluí para casas noturnas.

Qual o perfil do público?
O “público cabeça” da cidade. Abri a casa Calypso, junto com os sócios Murilo Cavalcanti e Mário Delli Colli, na Rua do Bom Jesus, que estava se descolando de ser uma ruína para ser o point da cidade, no Governo Jarbas. Eu já estava tão esperto que enxergava onde deveria abrir um negócio. Sabia que o local iria se transformar numa espécie de Bourbon Street, rua boêmia de Nova Orléans, que eu tinha acabado de visitar. Enquanto os outros empresários escolhiam casas já restauradas, preferi uma que estava em ruínas, mas tinha boa localização. Transformou-se num dancing. Quando a Rua do Bom Jesus foi totalmente restaurada, com grande número de frequentadores do Recife e turistas, todo mundo ficava bebendo nos bares e a minha casa era a única pra dançar. Por volta das 22h, o pessoal já estava alegrinho e vinha dançar no Calypso. Depois eu abri o Cuba do Capibaribe no Paço Alfândega, que também foi um grande sucesso.

E esta foto de Chico Science (na parede do bar, há uma fotografia do artista com um caranguejo na mão apontando para a placa da Rua do Bom Jesus)?
Foi do Réveillon do Bom Jesus, em 1995. Chico estava despontando e aí propus: Chico vamos fazer o Réveillon? O empresário dele não queria. Aí fiz pressão. Esperei, às 5 horas da manhã para que ele descesse do apartamento dele para convencê-lo de que aquela seria a melhor opção para ele se apresentar no Recife naquele fim de ano. Algumas outras pessoas ajudaram no convencimento. E foi um sucesso! Essa foto aí, é Chico na Rua do Bom Jesus, dizendo “olha, o Réveillon vai ser aqui”. E pretendo fazer o próximo Réveillon no bar Biruta, no Pina.

Como você conciliava o emprego no BC e a administração das casas noturnas?

Eu me afastei do Banco Central, tirei licença sem vencimentos. Antigamente, se você tirasse dois anos de licença sem vencimentos, para renovar a licença, teria de voltar a trabalhar no banco no mínimo o mesmo período em que esteve ausente. Então depois de um tempo eu voltei. Até que Fernando Henrique, ao lançar o Plano Real, queria desonerar a folha do Estado e quem quisesse se aposentar poderia recorrer ao PDV (plano de desligamento voluntário), e quem desejasse tirar licença sem vencimento, poderia renovar quantas vezes quisesse. Isso coincidiu com a época em que eu estava ganhando dinheiro realmente com a noite. Já tinha saído da fase romântica para a profissional. Passei 16 anos fora do banco. Em 2009 recebo uma carta, quando estava com o Frida (casa com temática mexicana), dizendo que não poderia mais renovar a licença. E chegou na hora boa porque eu também já estava meio cansado do Frida. Voltei para o Banco Central, trabalhei quatro anos e meio e me aposentei. Trabalhei ainda um ano no Paço do Frevo, onde fui gerente geral.

Como surgiu a Mercearia do Braz?
Um dia, um ex-sócio do Calypso, Murilo (Cavalcanti, hoje secretário de Segurança Urbana do Recife) que veio morar nesta rua (José de Alencar), disse “Paulinho, vi uma casa que é a tua cara. Vamos fazer um negócio lá?” Aí topei, fiz a reforma. A gente pensou que ia ser um restaurante bar, mas talvez por minha causa e pelo fato de Murilo ter saído logo da sociedade, eu imprimi a minha marca que é música. A casa abre somente às quintas, sextas e sábados, com uma programação musical maravilhosa. No sábado temos a apresentação de Chico de Assis, um sambista que sobe na mesa, baixa o santo, chama todos os terreiros. Na quinta-feira é uma coisa mais clássica. Por exemplo, fizemos uma programação com as músicas que foram proibidas na ditadura. Também já fizemos uma noite dos Beatles. Na sexta é mais variado, tem dia que tem músicas dos Rolling Stones, no outro, forró, no outro, jazz.

Como você pensa em fazer o Réveillon no Pina?
Passei 15 dias em Bali, onde há muitos beach clubs, um local onde você vai e tem aquele sunset em que a galera fica se divertindo e paquerando. O Biruta fechou e fiquei pensando que ali daria um beach club legal. Depois de 10 anos voltarei a promover Réveillon, desta vez no Pina, será o Pina Beach. Estou em processo de criação. Só que eu não consegui ainda juntar todas as peças para aquilo dar certo, porque eu vou costurando: quem vai ser meu sócio, quem é que vai entrar com dinheiro, quem é que vai dar plantão, quem é que vai fechar essa casa, quem é que vamos contratar. Tenho que ter um sócio mais jovem, pro camarada ficar lá até fechar. Atualmente eu corro, eu malho, me cuido, não tenho mais aquela cultura do álcool, de ficar bebendo até tarde. Mas eu ainda tenho a cultura de criar as casas, mas a questão não é só criar, é transformar aquilo num produto e fazer com que dê resultado. Eu ainda continuo fazendo as coisas, ainda estou inquieto.

Como está a noite no Recife?
Já foi melhor. A gente aqui atrai o público pela qualidade da música. Se a pessoa quer sair, o preço daqui é bom, vem pra cá, se diverte, dança. A boemia faz parte da cultura, qualquer cidade tem uma boemia. Uma cidade do interior tem o seu cabaré. Mas há uma finitude nas casas noturnas, nos bares e nos restaurantes no mundo inteiro. Você pode ir em Nova Iorque hoje e daqui a três anos não achar mais aquele restaurante, mas você também vai chegar lá e encontrar um restaurante do Século 19 como aqui você tem o Leite, né? Que é uma história de amor, muito mais do que de dinheiro. Quando você tem movimento a sua casa permanece, quando você não tem, não há como bancar. Apesar do Recife ser a capital do Nordeste, estamos num Estado de um país da América Latina periférica que tem poucos turistas. Se uma casa em Nova Iorque recebe toda semana gente de fora, então você tem um movimento. Aqui, praticamente, só temos o público interno. Por isso você tem que ser muito criativo pra atrair esse público. Tanto que, das minhas casas, a que durou mais tempo, sete anos, foi o Calypso, o Cuba durou cinco, o Frida, dois anos e meio.

O número de boêmios tem diminuído?
Houve uma mudança de costumes. Aquele boêmio clássico – que vinha sentava na mesa do bar bebia até altas horas – mudou. A garotada agora gosta de raves, festas bem produzidas, que é onde essa galera jovem vai se encontrar, paquerar, essa coisa toda. Até porque ninguém quer mais ficar enchendo a cara, ficar bêbado. A cultura do esporte mudou muito isso. Se você passa a noite bebendo uísque, no outro dia não tem mais condições de se levantar. Eu, como tenho um pé no passado e outro no presente, tento me equilibrar. Se eu vou participar da Corrida das Estações, no domingo, três dias antes não toco em álcool pra poder terminar o trajeto.

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