Gabriel Serrano: “Meu medo é a interferência da política em conduta de saúde”

Gabriel Serrano: “Meu medo é a interferência da política em conduta de saúde”

Publicado em 27/07/2020 por Revista algomais às 5:40
Infectologista critica a baixa testagem para Covid-19 no País e comenta os avanços científicos das pesquisas sobre o novo coronavírus.

A probabilidade de o Brasil sofrer uma segunda onda da Covid-19 é pequena, segundo o infectologista do Hospital do Imip e da consultoria Superare, Gabriel Aureliano Serrano. Mas não se trata propriamente de um mérito do País. Segundo o especialista, que também atua na Prefeitura de Olinda, muitos países que apresentaram elevação no número de casos, após um período de queda, foram aqueles que fizeram o isolamento corretamente e depois reabriram as atividades. Ele acredita que no Brasil, ao contrário, haverá um período de estabilidade da quantidade de contaminados, com um volume elevado de mortes até a chegada da vacina. Mas nem tudo são más notícias. Serrano ressalta que nunca a ciência produziu tanto sobre um tema como na pandemia da Covid-19. Novas maneiras de seproduzirem vacinas são esperadas, assim como tratamentos baseados na medicina genética.

Cidades que estão com planos de abertura mais avançados no País, no Norte e Nordeste, seguem há mais de um mês apresentando queda em números de infectados e mortes. Quais as possíveis hipóteses para esse desempenho?
Temos que lembrar que Pernambuco, assim como outros locais do País, tem uma taxa de testagem muito baixa. Não existe nenhum estado que tem a quantidade de teste suficiente. O Brasil chegou recentemente à taxa de 1,5 milhão de testes, quando algumas cidades do mundo conseguiram atingir cinco, seis vezes esse volume no primeiro mês de combate à infecção. Participamos de uma promoção de saúde que não tem informação de forma atualizada, mas vimos que há uma tendência de estabilidade (não de queda franca) do número de infectados. Foram também criados mais leitos de forma emergencial. Isso fez com que diminuísse a lotação nos hospitais e a quantidade de pessoas precisando de respirador na fila de espera. O que também ajuda na articulação de condutas públicas, porque ao diminuir essa fila, consegue-se propor ações que alterem menos a rotina das pessoas. Em Pernambuco e em alguns estados do Nordeste, foram adotadas algumas condutas, que não foram verificadas em outros lugares do Brasil. Moramos num país continental, assim como na Europa vimos alguns países tendo quadros epidemiológicos diferentes de outros, em momentos diferentes, ao mesmo tempo às vezes, no nosso País, há estados também que podem ter um momento epidemiológico diferente de outros. Como vemos, agora, Curitiba aumentando o número de casos em mais de 100%, enquanto Pernambuco mantém estabilidade há mais de um mês, com a tendência de redução. Mas, temos que lembrar que o dado que usamos aqui no Estado e no Brasil é referente principalmente a mortalidade e ocupação de leitos. Isso faz com que aumente a quantidade de tempo para termos noção da consequência daquilo que está sendo adotado como conduta.

Quais as chances de enfrentarmos uma segunda onda da transmissão da Covid-19?
Isso é muito complicado. Houve uma segunda onda em alguns locais, muito em razão de que havia muita gente respeitando o isolamento. Quando as pessoas saíram dessa condição, teve esse risco de uma segunda onda. Mas aqui no Brasil não alcançamos uma taxa de isolamento maior do que 70% em lugar nenhum. Não conseguimos ter essa disciplina, tivemos um resultado muito pior, constatado pelo número de morte que o País apresenta. Então, a chance de ocorrer a segunda onda por causa de uma reabertura é menor. A gente pode ter uma segunda microelevação, mas não seria uma onda como a primeira.

Na sua opinião qual é a perspectiva de evolução da pandemia em Pernambuco e no Brasil?
Fazemos muito pouco teste, temos que brigar contra as fake news e contra uma série de problemas com que não precisaríamos brigar. Não vemos essa briga acontecendo em alguns países. Não basta a gente brigar contra um vírus novo, temos que brigar com outras pessoas que insistem com a desinformação, isso atrapalha muito. Temos um governo que não tem ministro da Saúde, não é a questão de ser de direita ou esquerda, a questão é a necessidade de um planejamento. Qual é o planejamento do Ministério da Saúde no País agora? Ninguém sabe. O que temos é a sorte de que, pelo azar de sermos o epicentro da infecção, as empresas quererem fazer testes aqui, porque temos muita gente infectada e com uma taxa de infecção aumentando ainda. Tivemos 1.364 mortes ontem (dia 21), em 24 horas, um número absurdo. E há estados, como São Paulo, reabrindo algumas atividades, enquanto o número de mortes aumenta. Temos que entender que a ciência tem que ser usada como motivo para a conduta em todos os momentos, não só pela conveniência, ou seja, no começo ao se fazer o lockdown, a ciência era soberana. Agora, para reabertura, a ciência é esquecida? Há muito mais política do que ciência sendo levada em consideração. Meu medo é a interferência da política em conduta de saúde. Veja, eu discuto com gente sobre hidroxicloroquina, que quatro meses atrás, nunca tinha ouvido falar nesse assunto. Como é que alguém vai opinar sobre o medicamento que não sabe o que é, nunca viu um estudo a respeito do remédio, não entende de dose ou de efeito colateral, não sabe como funciona e fica dando palpite se o medicamento precisa ou não ser prescrito? Inclusive há médicos prescrevendo medicação como se off label significasse que pode ser prescrito (off label é quando o medicamento pode ser usado para o tratamento de determinada doença diferente daquela para a qual é formalmente indicado.)
Todos os argumentos que usam para utilizar hidroxicloroquina eu poderia usar para dipirona para tratar a Covid-19. Ambos não têm prova que funcione. Mas alguns argumentam: mas a hidroxicloroquina tem indícios de que pode ser eficaz contra o novo coronavírus. Não tem. A dipirona também não tem. A minha perspectiva da evolução da doença é que eu acho que vai continuar tendo muitas mortes, por causa dessa grande taxa de pessoas infectadas e da baixa testagem. Vamos ficar num platô durante muito tempo, até chegar um ponto em que pode haver uma redução, mas isso só vai começar a mudar, na minha opinião, quando a gente começar a vacinar a população. Mudar de forma drástica. Não vejo as pessoas no Brasil adotando a conduta de isolamento, como vimos na Nova Zelândia, na Austrália em vários locais. Essa vacina de Oxford, para mim, é a que está mais palpável, porque a Inglaterra é número um no mundo em vacinação, é muito importante isso. O SUS de lá, o NHS (National Health System), é muito, muito bom.

Leia a entrevista completa na edição 172.4 da Revista Algomais: www.assine.algomais.com

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