Graça Ataíde: “A história elege suas heroínas”

Graça Ataíde: “A história elege suas heroínas”

Publicado em 16/03/2020 por Revista algomais às 14:17
Historiadora analisa protagonismo feminino no Brasil. (Fotos: Tom Cabral/Algomais)

No mês da mulher, a doutora em história social pela USP, onde é pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER), e professora da UFRPE Graça Ataíde fala sobre as razões que levaram o papel feminino a ser invisibilizado na sociedade por gerações. Especialista em governos autoritários, ela conversou com os jornalistas Cláudia Santos e Rafael Dantas sobre alguns nomes menos conhecidos da vida política pernambucana. Personagens que durante os anos de chumbo assumiram o protagonismo para abrir algumas pautas e conquistar direitos que foram estendidos a todas as brasileiras.

Por que o papel da mulher na história é desconhecido ou pouco estudado? Qual o motivo dessa invisibilidade?
A mulher foi muito protegida. Mas essa proteção na história da humanidade era uma proteção para barrá-la de crescer. Impedi-la de alcançar espaços que têm sido tradicionalmente ocupados pelos homens. Isso é uma tradição e decorre da cultura de cada país, uma mais perversa do que a outra. Os países foram trazendo a mulher para um espaço de onde ela não deveria sair. Muitas lutaram pelo direito do voto. Elas começam a votar no Brasil em 1933, para a Constituinte. Mas por que Getúlio concede o voto? Porque era a garantia de barreira contra o comunismo. A Igreja Católica faz um pacto grande com o Estado nessa época dizendo que as mulheres iriam votar para eleger constituintes fiéis católicos para depois voltarem para o recôndito do lar. Isso está, inclusive, registrado em um artigo na revista Maria, da Congregação Mariana. Hoje nós, mulheres, temos buscado espaços, mas não tem sido fácil.

Esse fenômeno da invisibilidade feminina foi mais forte no Brasil?
Não. Na segunda metade do Século 19, franceses, como o psicólogo Gustave Le Bon, diziam que o cérebro da mulher era inferior ao do homem, salvo o de algumas mulheres francesas. Ele era totalmente preconceituoso. Então, não é uma história do Brasil, nem do Nordeste, mas é do mundo. Estudei no meu doutorado e pós-doutorado a ditadura varguista no Brasil e salazarista em Portugal, que era mais machista que a brasileira. Em Portugal, na época de Salazar, havia uma sociedade agrária, que tendia a ser muito conservadora. No Brasil, antes da podermos votar, éramos vistas pela sociedade iguais aos índios, loucos e crianças. Há um livro sobre a República no Brasil de José Murilo de Carvalho chamado Formação das Almas que informa que o único quadro mostrando a mulher na República brasileira foi pintado na Itália e não tem projeção no Brasil. Tentou-se muito trazer a figura de Marianne, da Revolução Francesa, para o Brasil, mas não se conseguiu (trata-se da representação simbólica da República pelos franceses, pintada em quadros de artistas como Eugène Delacroix e que está cunhada na moeda de R$ 1 e impressa na nota de R$ 100).

No seu livro História (nem sempre) bem-humorada de Pernambuco: 140 caricaturas do Século 19, escrito com a professora da UFRPE Rosário Andrade, como a mulher era representada nessas charges?
Essa publicação chegou a ser premiada no Troféu HQ Mix, como melhor livro teórico. Nela fica bem claro que todas as vezes em que se queria caracterizar alguma coisa ruim era usada uma figura feminina. Por exemplo, quando queriam retratar a República que estava mal, desenhavam uma mulher prostituta. Diferentemente, na França, a República era a figura da Marianne, mulher romana, altiva. No meu conceito, essa questão está centrada no imaginário construído sobre a mulher, que é muito forte ainda. Estudei algumas mulheres na Revolução de 1930. Quando é criado o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e acontece a Intentona Comunista, muitas mulheres são perseguidas. Quando tive acesso ao arquivo do DOPS, pude ver um pouco da vida dessas mulheres. Acho que todo esse silêncio em torno delas tem a ver com uma cultura não só do Brasil, mas mundial. Tenho 70 anos, estou há 42 na universidade. Nesse tempo, muitas mulheres tiveram um papel importante também no combate à ditadura de 1964. Mas elas são homenageadas apenas colocando seus nomes em espaços pouco significantes da cidade.

O que está na base desse imaginário sobre a figura feminina?
A sociedade patriarcal que não permitia à mulher nem se sentar à mesa na época da colonização. Ela sabia que o marido usava as escravas. Havia muito sadismo por parte das sinhás em relação às escravas. O livro Proteção e Obediência mostrava que uma mulher branca em São Paulo só andava na rua, mesmo depois da abolição, no fim do Século 19, com uma criança negra, que era a sua proteção. Na verdade, era para dizer que ela não estava só. Isso era terrível porque uma criancinha não poderia socorrer uma mulher adulta. A mulher era colocada num lugar de que tinha que ser protegida. Mas ao mesmo tempo era silenciada e invisibilizada. Elas não definiam nada da vida dos filhos nem tinham direito ao prazer. O prazer feminino é uma coisa muito nova, vem com a minha geração dos anos 60, que começou a revolucionar, que rasgou o sutiã na rua e que não achava que o seu corpo teria que ser perfeito.

Até hoje quando se fala em voto feminino diz-se que Getúlio o concedeu. Não foi assim. O voto foi um ganho da luta feminista.

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Como a senhora avalia a preocupação da mulher com o corpo dos dias de hoje?

Na geração de agora a mulher se preocupa muito com o corpo que ela vai apresentar e só pode ser para o homem. As suas rugas e o seu corpo é a sua vida, a sua história. Se observarmos pessoas como a atriz Vanessa Redgrave (hoje aos 83 anos) é uma mulher linda. Ou ao ver uma foto da escritora e crítica de arte Susan Sontag quando já tinha uma idade avançada (falecida aos 71 anos, em 2004) são mulheres lindas na velhice. Vejo quase que uma escravidão da mulher em relação à balança. Isso é para quê? Se for para um orgulho pessoal, tudo bem. Mas senão for, o caminho não é por aí.

Dentro dessa reflexão acerca da relevância social das mulheres, qual a sua análise sobre Brites de Albuquerque, mulher de Duarte Coelho?
A história elege os seus heróis e heroínas. Brites de Albuquerque teve a sua importância e o seu papel. Mas os historiadores também a elegeram. Outras mulheres, com certeza, também tiveram peso e não foram lembradas. Mas há mulheres distante desses grandes nomes que foram tremendas e que tiveram que lutar contra a sociedade, que ousaram desafiar o que foi programado para elas. Tivemos aqui em Pernambuco uma deputada que se chamava Adalgisa Cavalcanti (eleita primeira representante feminina na Assembleia Legislativa de Pernambuco, no ano de 1945). A única referência a ela é que colocaram seu nome num Fórum no Pina. Ela teve uma atuação política a partir da década de 30 e lutou nas duas ditaduras, mas a história a silencia, como também a outras. Mas já há um movimento para resgatar figuras como as mulheres de Tejucupapo. As pessoas já começam a estudá-las. O movimento feminista tem aberto muito espaço para dar voz às mulheres. Acredito que nos próximos anos teremos trabalhos sobre mulheres a partir das pessoas que escrevem sobre gênero.

Como está acontecendo esse resgate das mulheres da história?
Já tem muita gente fazendo pesquisa sobre isso. A professora Rosário Andrade, da UFRPE, esteve recentemente numa banca de doutorado em João Pessoa que observava exatamente sobre um trabalho de mulheres na ciência, “Relações de Gênero na Carreira Acadêmica em Engenharia Civil”.

Há outros nomes com relevância local que poderíamos destacar?
A ex-deputada Adalgiza tinha uma amiga que se chamava Júlia Santiago, filha de camponeses e líder sindical. Ela foi a primeira mulher a ocupar assento na Câmara dos Vereadores do Recife, em 1947. Era uma pessoa muito forte e estava junto na luta contra a ditadura. Eu não tive a chance de pegar o prontuário dela no DOPS, porque só poderia pegar se me dessem licença. Mas encontrei um escrito de um investigador que cuidava de todos os passos dela, que a perseguia. Se ela estivesse numa feira, por exemplo, o documento registrava: “Ela está comprando mói de coentro e está falando de política. Ela deveria estar em casa numa cadeira de balanço cuidando do marido Tito. Esse é o lugar dela”.

Qual a relação entre a industrialização brasileira e o protagonismo das mulheres na história?
Em todo lugar onde se desenvolveu o operariado, as mulheres foram trabalhar nas fábricas. Então houve mais oportunidades para elas saírem de casa. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde isso se desenvolveu mais, muitas lutaram pelo voto feminino, por exemplo. Mas até hoje quando se fala em voto feminino diz-se que Getúlio o concedeu. Não foi assim. O voto foi um ganho também da luta delas. Aqui no Nordeste, onde a industrialização foi mais tardia, isso foi mais difícil. Mas aqui mesmo em Pernambuco, mulheres como Adalgisa e como Julia Santiago também iam para as fábricas fazer piquete. Não era fácil.

Como a senhora vê a participação da mulher na política hoje?
Há mulheres na política hoje lutando contra o feminismo, isso é vergonhoso. Mas também há muita mulher lutando, abraçando as causas das minorias, contra a insensibilidade, contra a violência contra a mulher e feminicídio. Todo começo é difícil. Mas as mulheres estão engatinhando na política. Mesmo quando representam oligarquias, elas estão lá. Mas há também mulheres simples, do povo, que já são vereadoras. Várias não trazem grandes pautas, enquanto outras que trazem pautas importantes são silenciadas. É muito emocionante pensar que durante muito tempo a mulher não tinha poder nem sobre o seu corpo e hoje nós podemos fazer algumas decisões que não fazíamos de forma alguma há 50 anos. Na época da minha mãe, então, o seu desejo era o do seu marido.

Caminhamos, enfim, para uma equidade de gênero?
Vamos caminhar, mas não sei se minhas netas viverão isso. Eu, com certeza, não! Mas a gente caminha para mudanças efetivas, com certeza. Não só em relação às mulheres, mas também em respeito às relações homossexuais. É um processo que já começou, mas estamos ainda distantes de uma equidade.

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