Moacyr Araújo: “Doenças como a Covid-19 têm relação direta com a degradação ambiental.”

Moacyr Araújo: “Doenças como a Covid-19 têm relação direta com a degradação ambiental.”

Publicado em 19/10/2020 por Revista algomais às 4:56
Vice-reitor da UFPE fala do impacto da devastação do meio ambiente e das mudanças climáticas.

A emissão de gases de efeito estufa produz consequências que vão muito além do que tornar o ar que respiramos mais poluído. Repercute no surgimento de pandemias, de crises hídricas e econômicas e até na inundação de boa parte do Recife num futuro próximo. Nesta entrevista a Cláudia Santos, o professor e pesquisador do Departamento de Oceanografia da UFPE, Moacyr Araújo, que também é vice-reitor da universidade, explica como a economia baseada no consumo do carbono provoca uma série de catástrofes, como a Covid-19, além de ampliar as desigualdades sociais. Araújo, que coordena ainda a Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede CLIMA), aponta que a saída para o planeta está nos princípios da Agenda 2030, dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas e do chamado Green New Deal.

Como a devastação ambiental pode interferir no surgimento de pandemias como a Covid-19?

Estudos que vêm sendo compilados no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) apontavam, já em 2016, que mais de 30 novos patógenos humanos foram detectados nas últimas três décadas, o que significa, em média, mais de 10 novas ameaças à saúde da espécie humana em cada década. Um número muito elevado! Esses estudos indicam ainda que aproximadamente 75% de todas as doenças infecciosas emergentes em humanos provêm de animais, as chamadas zoonoses. Os exemplos mais conhecidos são o ébola, a gripe aviária, a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), o vírus nipah, a febre do Vale Rift, a síndrome respiratória aguda grave (SARS), a febre do Nilo Ocidental, o zikavírus e, agora, o coronavírus.

Qual a relação dessas doenças com a degradação ambiental?
A relação é direta. Essas zoonoses se dão, sobretudo, pelas transformações impostas ao meio ambiente, em grande medida resultado das atividades humanas, que vão desde as alterações no uso da terra (como as queimadas no Pantanal, na Amazônia e em outros biomas brasileiros) até a alteração climática. Essas intervenções impõem mudanças mais ou menos aceleradas nos hospedeiros animais e humanos, forçando os patógenos, em constante evolução, a explorarem novos hospedeiros. A relação entre a degradação ambiental promovida pela ação humana e o surgimento de novas zoonoses é tão direta que um recente estudo publicado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) registra que “existe apenas uma espécie animal responsável pela pandemia do Covid-19, os seres humanos”.

Especificamente em relação às mudanças climáticas, como elas podem estimular uma pandemia?
Elas alteram os ecossistemas de diversas formas, sejam eles terrestres ou aquáticos. Aumentos de temperatura, por exemplo, podem induzir alterações ambientais que provoquem mudanças comportamentais em diversas espécies animais, como a procura por novos habitats de temperatura mais amena etc., o que pode induzir uma eventual maior aproximação física com os seres humanos, que até então não existia. As doenças associadas aos morcegos, por exemplo, surgiram, em grande medida, devido à perda e/ou modificação de seu habitat natural.

Esse movimento de mudança de habitat não induz apenas os morcegos a  procurarem novos locais de vida. Os seres humanos também se veem diante da necessidade de se mudarem. A crise hídrica, por exemplo, decorrente da variação do clima, faz com que se observe hoje em dia uma intensificação de processos migratórios em diferentes locais do planeta. Vejamos o que ocorre hoje na África, onde populações inteiras, que já tinham características nômades, e mesmos aquelas até então sedentárias, se veem obrigadas a percorrer distâncias cada vez maiores em busca de sobrevivência alimentar, resultando, muitas vezes, no aumento do contato dessas populações com novas espécies de animais silvestres.

Qual a probabilidade de enfrentarmos outra pandemia, caso persista a degradação ambiental? Ela pode surgir no Brasil?

Apesar da impossibilidade de prevermos com exatidão onde ou quando virá o próximo surto, a comunidade científica é unânime em concordar que a probabilidade de termos novas pandemias é elevada. Temos cada vez mais evidências sugerindo que esses surtos ou epidemias podem se tornar mais frequentes à medida que o clima continua a mudar. Quanto à possibilidade de ela surgir no Brasil, eu confesso que isto me parece estar cada vez próximo da realidade, o que tem sido alertado e enfatizado mais recentemente por cientistas nacionais e internacionais. Muito desta inquietação vem do nível de degradação ambiental que os recursos naturais brasileiros já vêm sofrendo historicamente, processo que foi fortemente acelerado nos últimos quatro anos. Dados do Inpe (Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais) indicam que tivemos 25% a mais de desmatamento da Amazônia no primeiro semestre de 2020 quando comparado ao primeiro semestre de 2019. A destruição que observamos neste exato momento em nossos biomas é sem precedentes históricos. Até agosto deste ano, o fogo já havia atingido mais de 12% de nosso Pantanal (maior planície interior inundada do mundo). No nosso Cerrado, onde existe a savana mais biodiversa do mundo, já foram registrados mais de 38 mil focos de calor até setembro deste ano e, na Amazônia, os números de queimadas e incêndios florestais são ainda mais assustadores. Isto, com certeza, terá consequências ainda imprevisíveis para os seres humanos, e a possibilidade de uma nova pandemia faz parte, sim, dos prognósticos.

LEIA A ENTREVISTA COMPLETA NA EDIÇÃO 175.3 DA REVISTA ALGOMAIS

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