Tullio Ponzi: “As pessoas tenderão a morar mais perto do trabalho”

Tullio Ponzi: “As pessoas tenderão a morar mais perto do trabalho”

Publicado em 08/06/2020 por Revista algomais às 5:09
Secretário de Inovação Urbana do Recife acredita que a resiliência urbana é a maior tendência das cidades no cenário pós-coronavírus.

O isolamento social esvaziou as cidades e expôs a necessidade de uma série de adaptações urbanas para o período Pós-Covid 19, em que haverá um maior relaxamento da quarentena, mas ainda sem a descoberta da vacina. Novos hábitos e inovações no espaço público poderão transformar as cidades do mundo inteiro. Sobre essas tendências, o repórter Rafael Dantas conversou com o Secretário de Inovação Urbana da Prefeitura do Recife, Tullio Ponzi. Ele fala sobre a experiência da capital pernambucana no enfrentamento da disseminação do novo coronavírus e apresenta algumas das mais significativas mudanças que as metrópoles globais estão promovendo no “novo normal”. Confira!

A transformação das cidades foi o tema da capa desta semana da Revista Algomais, em matéria assinada por Rafael Dantas, que ouviu especialistas e gestores públicos sobre as tendências urbanas no cenário Pós-Pandemia.

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Você tem trabalhado nos últimos anos com inovação urbana. As cidades e metrópoles tem características que são inconciliáveis com um cenário de prevenção de pandemias, visto que é baseada sempre em aglomerações. Que tendências urbanas o mundo já tem apontado para as cidades no “novo normal” pós Coronavírus?

Até o surgimento de uma vacina ou de um tratamento eficaz, vai ser fundamental a humanidade aprender a conviver com o Coronavírus. São novos comportamentos, hábitos, valores, formas de se relacionar que pautarão esse novo mundo. Ele nos apresenta muitas incertezas, mas também muitas oportunidades. É como se o coronavírus fosse uma aceleradora de futuro. E sob a perspectiva das cidades não é diferente.

A tendência mais marcante que se vê mundo afora é a da resiliência urbana, a adaptabilidade dos espaços urbanos, cada vez mais flexíveis, híbridos e “ressignificáveis”.

Algumas cidades resolveram apostar na mobilidade ativa e na ressignificação de vazios urbanos. Quase que um “open” das ruas para as pessoas. Que passaram semanas em Lockdown e gritavam por essa necessidade de espaço urbano ou até mesmo descobriram que tinham. É como se as cidades mais do que nunca assumissem um papel de produtor de Oxitocina, o hormônio da felicidade nas pessoas.

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Na prática, como têm sido essas experiências?

São basicamente soluções urbanas estruturantes já previstas em planos de longo prazo, experimentais, com potencial de se tornarem definitivas, ou até mesmo transitórias, mas que de alguma forma estimulem uma mudança de comportamento coletivo para uma cidade mais sustentável.

 

Ações que dialogam com a necessidade do distanciamento social e estimulam as pessoas a viver a cidade, caminhar, pedalar, ou até mesmo trabalhar a pé ou de bicicleta, a exemplo de Paris que criou “a cidade a 15 minutos”, ou Bogotá que ainda durante a pandemia expandiu sua malha cicloviária provisória. É o carro de uma vez por todas perdendo espaço, a exemplo de Londres com a ampliação das Zonas Livres de Carros, só permitindo pedestres, ciclistas e o transporte público.

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Quais outras iniciativas globais você destacaria?

Uma das iniciativas mais interessantes por conta da escala já alcançada, do baixo custo, da facilidade de implantação e do alto impacto, é nos Estados Unidos. Em Seatle e Oakland com programas de fechamento provisório de ruas nos finais de semana para atividades de lazer e convivência, priorizando a escolha a partir da ausência de praças e parques nas proximidades.

Chama atenção também urbanismo tático em Barcelona de alargamento das calçadas, e sinalizações lúdicas de caráter pedagógico e educativo, a fim de manter o distanciamento social, especialmente em lugares que possam gerar aglomeração, a exemplo de terminais ou locais de contemplação.

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Você acredita que as transformações na vida urbana pós-pandemia poderá influenciar a decisão de onde as pessoas irão morar?

A médio prazo, além do home-office, acredito que as pessoas tenderão a morar mais perto do seu trabalho, ir a pé trabalhar ou fazer tudo a pé. E os Bairros serão gradativamente redesenhados, cada vez mais uma bairro com todos os serviços, presencial ou online, ou seja, que funcione, mas que também aproxime as pessoas.

Em resumo, é como se do ponto de vista urbano, a gente aqui no Recife tivesse uma janela de oportunidade para antecipar algumas metas do Recife 500 anos, nosso plano de Desenvolvimento de Longo Prazo. De antecipar o futuro para o presente.

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A pandemia expôs mais do que nunca o drama das periferias, de falta de saneamento, acesso à água, entre ouros fatores. Nesse cenário pós-auge da pandemia o que pode e deve ser feito para garantir mais segurança sanitária para essas pessoas, visto que temos a expectativa de novas ondas da Covid-19 e também de outras pandemias?

A dignidade de quem mora nas comunidades e a urbanização das favelas do Brasil mais do que uma agenda do Governo Federal, precisa ser um projeto de Nação. É um problema secular, que se arrasta há décadas e precisa ser de uma vez por todas priorizado. Não é apenas sobre tomar uma decisão política e investir algo, ainda que seja mais do que sempre se investiu, é sobre sabermos quando vamos realmente resolver, pra cada real a mais ou a menos investido. Não interessa se o investimento será público ou privado. O que interessa é que aconteça, que se priorize. Que se faça os dois.

Aliás, a falta de saneamento, de acesso à água, e todos os outros problemas que existem nas periferias do Brasil, de infraestrutura e habitabilidade urbana, não são nem de direita, nem de esquerda. É preciso um Estado Social forte. O que não significa ser um estado anacrônico. Veja, não me refiro a tamanho, se mínimo, se máximo, também não interessa. O que interessa é a solução que o Estado apresenta para cada desafio. E nesse ainda o Estado brasileiro não apresentou.

 

Como tem sido a experiência do Recife no enfrentamento à Covid-19 em relação ao estímulo ao isolamento social?

Aqui no Recife firmamos uma parceria com o ONU-Habitat, pioneira em todo Brasil, que aposta no engajamento comunitário para a conscientização sobre a importância do isolamento social, uso das máscaras, lavar as mãos e higienização. As ações foram realizadas pelos próprios moradores, que também fizeram novas políticas públicas que surgiram durante a pandemia chegar na ponta, alcançando as pessoas que mais precisam, a exemplo do “Movimenta Recife”, app de ginastica orientada, e do “Atende em Casa”, que permite a consulta online com o médico para casos de suspeita da Covid-19.

Novos hábitos também são estimulados, através de vídeos curtos e didáticos, sobre culinária sustentável e reaproveitamento de alimentos, cuidados com o jardim, como fazer sua própria horta, compostagem de lixo orgânico e até mesmo como brincar com seus filhos, com suas crianças, já que a maior convivência familiar é uma realidade. Essa iniciativa que iniciou em 10 comunidades no Recife, com cerca de 8.500 famílias, foi mais um aliado no isolamento social e sua ampliação será muito importante na estratégia de convívio do recifense com a Covid-19, especialmente nas periferias.
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A tecnologia pode ter um papel importante durante e no pós-pandemia. Na China robôs e drones foram usados para fazer entregas nos apartamentos e o georreferenciamento dos infectados a partir de telefones moveis como instrumento de prevenção e de formulação de políticas públicas. De que forma de soluções de IOT, Big Data e Inteligência Artificial podem ajudar na gestão das cidades após a pandemia?

A experiência do Recife tem muito a compartilhar sobre assunto. A começar pela própria convivência com o Covid-19. Vale lembrar que ainda no início da pandemia, o índice de Isolamento Social, amplamente divulgado em todos os jornais do país diariamente, e que todas as principais cidades no Brasil adotaram, foi criado aqui no Recife pela Secretaria de Inovação Urbana em parceria com a Inloco. Com a solução de geolocalização de smartphones, a Prefeitura do Recife conseguiu ter dados cartográficos e estatísticos, sobre as localidades com maior ou menor respeito ao isolamento social, e conseguiu planejar suas ações de restrição e de conscientização com muita eficácia, seja de envio de mensagens através para smartphones, carros de som e até mesmo com o sobrevoo de drones em localidades de difícil acesso. O resultado disso? Apesar de todas as dificuldades, Recife foi a primeira capital do País em isolamento social e conseguiu salvar até o momento mais de 7.000 vidas por conta desse esforço coletivo.

A mais recente inovação da Prefeitura do Recife, foi a criação de um Big Data em parceria com o Porto Digital, que permitirá a construção de um modelo de convivência com o Covid19. O trabalho será coordenado por Silvio Meira e Pierre Lucena e um conjunto de cientistas de diversos saberes e não se trata de um plano de retomada, a exemplo de vários Estados como São Paulo ou Rio Grande do Sul. E sim um modelo “vivo”, que permitirá a avaliação diária sobre a flexibilização ou intensificação do isolamento e a abertura ou restrição de novas atividades de acordo com a predição de cenários futuros, a partir da correlação de dados, da saúde, economia e outros.
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Como essa ferramenta poderá ser usada no contexto pós-pandemia?

A ideia é que esse Big Data seja um legado para o Recife, que nos auxilie no desafio da pandemia, mas nos auxilie na construção do futuro da cidade e numa nova modelagem de investimentos, mais sistêmicos. Imagine que decisões sobre a priorização de investimentos em transporte público, contará com dados sobre a origem e destino da cidade em tempo real, ou de mudanças temporárias no contrafluxo do trânsito, ou até mesmo a priorização das calçadas a serem requalificadas, a partir da informação do maior uso. Ou ainda, mensurar por bairros quantas vezes as pessoas saem de casa durante a semana e auxiliar numa política pública de incentivo ao home-office, por exemplo. Ou por que não, precisarmos o retorno na própria economia, para cada real investido na primeira infância, na mobilidade ativa, no acesso à internet, no meio ambiente, entre tantas possibilidades, com base no desempenho aplicado dos nossos próprios números e, a partir disso, projetarmos o próximo investimento.

Em médio prazo, o mais legal é que por se tratar de dados públicos, isso auxiliara não só na tomada de decisões, predição de cenários futuros, políticas públicas baseadas em dados, mas sobretudo na inovação aberta, ou seja, da própria sociedade, das startups ou do cidadão propondo soluções para os problemas concretos.

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Que lições o Recife tirou ou construiu nesse período de pandemia na gestão da cidade?

Enquanto sociedade, a exemplo de parte do mundo, sem dúvida fortalecemos alguns valores, o da solidariedade, união, cooperação e amor ao próximo. Fortalecemos também a relação entre o poder público e o cidadão. O que é fundamental para o futuro da nossa cidade. Se de um lado, a pandemia através do isolamento social evidenciou que governos não resolvem mas nada sozinho e que engajar a população é fundamental para qualquer desafio urbano, acredito que a percepção do recifense sobre a relevância do papel do poder público na vida das pessoas também fica evidente. E a Liderança do Prefeito Geraldo Júlio foi fundamental nisso.

Nos últimos anos vivenciamos um salto de gestão pública, com metas, prazos, retomamos uma antiga tradição de planejamento, inclusive de longo prazo, mas vejo que um dos legados da pandemia será uma nova cultura aqui no Recife: o da gestão pública baseada na ciência de dados para tomada de decisões e no uso intenso da tecnologia como mais um instrumento de aproximar as pessoas que mais precisam das políticas públicas. E a mais importante de todas. Que a gente nunca se esqueça da Desigualdade da nossa cidade e que é esse o nosso maior desafio na próxima década.
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