Pernambuco programando para o mundo
Rafael Dantas

Pernambuco programando para o mundo

Publicado em 24/09/2019 por Revista algomais às 17:30
Alcançar o mercado exterior é uma das metas das gigantes do Porto Digital, que também planejam inovar em produtos e serviços e desenvolver plataformas com capacidade de crescimento exponencial.

Há cinco anos o sociólogo Anthony Giddens sentenciou que tínhamos pela frente uma era de transformação nunca vista na história da humanidade. “A Revolução Industrial também foi transformadora em escala global, mas aconteceu num espaço de tempo maior, cerca de 150 anos”. Em 10% desse tempo, a internet já deixou um rastro enorme, comparou o especialista. Prova do vigor desse novo momento ancorado nas novas tecnologias é o Porto Digital. Mesmo com crise, impeachment, polarização política e toda a turbulência nacional e global em que vivemos, o polo recifense se consolidou como uma referência em inovação. Nos próximos cinco anos, o parque tecnológico deverá dobrar o faturamento, atingindo o patamar de R$ 3,5 bilhões. Para entender os próximos passos – desafios e planos – desse ecossistema empreendedor, Algomais ouviu os cinco maiores players com DNA pernambucano. Um horizonte breve de tempo, mas que promete um avanço exponencial.

A pujança atual aconteceu fruto de um trabalho contínuo da formação de mão de obra pelas universidades, da articulação estratégica do Núcleo de Gestão do Porto Digital, da chegada de multinacionais, como a Accenture, além do surgimento de centenas de startups e do crescimento acelerado de algumas empresas pernambucanas. Nos últimos anos, inclusive, algumas companhias do Porto Digital passaram a aparecer nas listas de destaque do Balanço Empresarial, como a Avantia e a Neurotech. O estudo, realizado pelo consultor José Emílio Calado, da JBG & Calado, calcula indicadores como receita, ativos, lucros e rentabilidade das corporações do Estado. “Quando comecei os apontamentos sobre as maiores empresas de Pernambuco não aparecia nenhuma relacionada ao setor da tecnologia. Mas nos últimos cinco anos começaram a se destacar, principalmente na variação de faturamento e de lucro, porque o crescimento delas é muito rápido”, comenta Calado.

O avanço exponencial do setor de tecnologia do Recife acontece dentro de um cenário de transição, segundo a análise do professor de economia da UFPE, José Carlos Cavalcanti. O Porto Digital está passando do status de um ecossistema empreendedor para se tornar um hub internacional de inovação de acordo com o especialista. “Esse processo ocorre quando um ecossistema de empresas, organizações, universidades, etc. produz plataformas de produtos e serviços globais, assentados em arquiteturas de negócios extremamente sofisticadas. O Vale do Silício preenche esses requisitos. Já o Porto Digital e o Brasil como um todo, são apenas ecossistemas, que ainda não produzem plataformas globais, tampouco têm arquiteturas sofisticadas de negócios”, explica.

Ele exemplifica a In Loco como o principal case pernambucano que está fazendo essa transição. “É a nossa empresa referência hoje no Porto Digital, está abrindo oportunidades de negócios na fronteira da inovação em países como os Estados Unidos. É ousando, inovando e apostando que se pode vencer internacionalmente e se tornar um polo de referência internacional”.

A abertura de negócios para além das fronteiras ainda não é uma realidade da maioria dos players do Porto Digital. A unidade da Tempest em Londres e a abertura de um escritório da In Loco em Nova Iorque são algumas exceções.
Uma das justificativas apresentadas pelos empresários do setor é que as inovações que estão no portfólio de produtos e serviços made in Pernambuco têm ainda um vasto campo a ser desbravado no mercado do Brasil. No entanto, os executivos dessas corporações pernambucanas afirmaram que suas empresas dominam tecnologias com aplicação global. O mercado exterior não é descartado por nenhuma delas. Em alguns casos, já existe inclusive demanda de clientes multinacionais que são atendidos no Brasil pelas empresas do Porto Digital e que querem utilizar os mesmos serviços fora do País.

De acordo com José Carlos Cavalcanti, o mundo desenvolvido está precisando de talento de TI, mas não está produzindo talento suficiente e, por isso, está procurando internacionalmente. “Nós produzimos talentos. Logo, vamos procurar fazer este match! Essa é a oportunidade.” Para aproveitá-la, ele defende a necessidade de expandir o Porto Digital para que nossos talentos fiquem aqui, e, ao mesmo tempo, produzam para o mundo. “É o nosso plano de futuro.”

Para compreender o porte atual das gigantes pernambucanas do Porto e projetar seus próximos passos, tratamos nas próximas páginas os planos da In Loco, Tempest, Neurotech, Avantia e Serttel. As informações indicam o papel que o polo tecnológico pernambucano poderá ocupar no cenário nacional e global.

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IN LOCO

André Ferraz: “Nos próximos cinco anos queremos ser um dos líderes do nosso segmento nos Estados Unidos”.

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Com um faturamento de R$ 50 milhões no ano passado e projeção de fechar 2019 atingindo a marca de R$ 100 milhões, a In Loco é um dos players mais promissores do polo. A empresa é conhecida pelo seu serviço de mídia geolocalizada, que influencia a geração de fluxo de consumidores em lojas físicas. Mas três novidades recentes apontam para duas novas colunas de expansão: a entrada no mercado de bancos, com a oferta de soluções de segurança, autenticação e privacidade; a oferta de soluções de engajamento para os aplicativos de e-commerce e delivery; e a estruturação de um escritório nos Estados Unidos.

“Temos um desempenho muito bom neste ano e agora, bem capitalizados, vamos crescer com dois objetivos: um investimento muito grande em tecnologia, com a abertura de mais de 100 vagas para desenvolver novos softwares e para crescer nos EUA. Estamos começando nossa operação lá, enquanto que no Brasil o negócio tem avançado pela diversificação de produtos”, conta o CEO André Ferraz. A empresa, a exemplo das outras gigantes locais, tem, há alguns anos, um escritório em São Paulo com foco comercial.

André estima que os novos produtos que estão sendo oferecidos no Brasil representarão 30% da receita da empresa em um ano. No exterior, a estratégia inicial é formar um time de produto nos EUA, identificar o que precisa ser adaptado das soluções desenvolvidas pela In Loco e prospectar as oportunidades de criação de novos produtos. “Só depois começaremos um processo de crescimento do time de vendas e de marketing. Nosso objetivo é fazer isso acontecer até março do ano que vem. Nos próximos cinco anos queremos ser um dos líderes do nosso segmento lá. E, além disso, em termos de tecnologia, pretendemos chegar numa posição relevante dentro do mercado de internet das coisas e ser a maior referência global de privacidade na internet”, afirma o CEO.

Para dar esses passos, a In Loco recebeu recentemente um aporte de R$ 80 milhões para investimentos dos fundos Valor Capital Group (CargoX, Gympass, Pipefy e Stone Pagamentos) e Unbox Capital (fundo de Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza).

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TEMPEST

Cristiano Lincoln afirma que oferece soluções para o setor financeiro, e-commerce e um produto que atende a veículos como BBC, The Guardian e The Economist.

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A internacionalização da oferta de serviços é o caminho também já trilhado pela Tempest. Especializada em segurança cibernética, a empresa tem há alguns anos um escritório em Londres, responsável por fechar contratos em outros países. A unidade europeia, inclusive, fechou recentemente um contrato para prestação de serviço de cibersegurança no Japão. Apesar do negócio ter sido conduzido pelo time londrino da Tempest, o trabalho será feito numa parceria entre a sede recifense e o enxuto time que trabalha no Reino Unido.

A experiência da Tempest ilustra o que já ocorre com outras empresas do Porto Digital que atendem clientes nacionais ou no exterior. Apesar da força comercial vir de São Paulo ou outras praças para fechar os contratos, a inteligência embarcada no serviço é desenvolvida em sua maioria pelos profissionais que atuam no Recife.

Os negócios no exterior, no entanto, ainda são minoria na receita da empresa que deve fechar 2019 com faturamento em torno de R$ 130 milhões. No ano passado foram R$ 98 milhões. Ao ser provocado para projetar o horizonte dos próximos 5 anos, o CEO Cristiano Lincoln cravou a meta de faturamento: R$ 500 milhões. “A gente vem crescendo entre 30% e 60% nos últimos seis anos. Foi um período em que o País acordou para o problema da cibersegurança”.

Além dos serviços de segurança digital oferecidos a grandes empresas principalmente dos setores financeiro e de comércio eletrônico, a Tempest tem crescido em duas outras frentes. Uma é a venda no Brasil do software de segurança AllowMe. Um segmento do negócio que tem dobrado de faturamento a cada ano. A outra é uma solução focada em uma necessidade específica para empresas de comunicação que atende os grandes veículos de mídia de Londres, como BBC, The Economist e The Guardian. No Velho Mundo, a empresa tem clientes ainda no setor de bancos e de grandes redes de varejo.
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NEUROTECH

Monteiro: “Hoje, 30% do nosso faturamento veio de negócios que não existiam antes de 2016. São negócios com cara de soluções e crescem de forma exponencial”.

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A Neurotech nasceu com a missão de conectar dados com inteligência para tornar o futuro mais previsível para os clientes, que são principalmente bancos e seguradoras.

Para ter uma ideia do avanço recente da empresa, que fechou 2018 com um faturamento de R$ 37 milhões, o seu presidente, Domingos Monteiro, informou o mantra para os próximos três anos, que é conhecido de toda a equipe: “50, 70, 90”. Esses números representam simplesmente o faturamento esperado para o triênio. “A previsão para 2019 era fechar em R$ 49,9 milhões, mas já estamos com mais de R$ 52 milhões. Vamos crescer além do planejado. Nossa meta é faturar R$ 70 milhões no próximo ano e R$ 90 em 2021. Temos um mapa para chegar onde queremos e a empresa inteira conhece. Antes de iniciar qualquer projeto nos perguntamos: Isso vai nos levar para o 50, 70, 90?”

Para dar conta desse crescimento, o quadro de pessoal da Neurotech, que funciona no Paço Alfândega, saltou de 140 pessoas em 2018 para 200 neste ano. Há ainda 20 vagas em aberto. A empresa tem um escritório em São Paulo, mas a maioria do quadro trabalha no Recife, principalmente na área técnica. E a estratégia da empresa para dar esse salto tem sido atender “as dores, desejos e sonhos” da sua atual clientela, como destaca Domingos. “Temos mais de 100 clientes corporativos médios e grandes que usam o serviço da Neurotech para um processo pontual, mas eles sabem que podem usar nossas soluções em vários outros processos”, destaca o empresário. Na cartela de empresas atendidas estão o Bradesco Seguros, Allianz e Mapfre, os bancos CBSS e GM, além de grandes varejistas, a exemplo da Renner, Marisa e Insinuante.

Outra estratégia para atingir a marca dos R$ 90 milhões em 2021 é inovar. Para isso há um time dedicado exclusivamente para desenhar novas soluções. A análise para roubo e furto das seguradoras, por exemplo, é um serviço que não existia há três anos e hoje está presente em sete das maiores corporações do País no segmento. Foi um serviço que surgiu a partir da demanda de uma seguradora que solicitou ajuda para prever com mais qualidade a possibilidade de roubo e furto na sua carteira. “Hoje, quatro anos depois, 30% do nosso faturamento veio de negócios que não existiam antes de 2016. Mais importante, são negócios que têm cara de soluções e crescem de forma exponencial”, relata o presidente.

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SERTTEL

Ângelo Leite: A empresa criou o sistema de carro elétrico compartilhado em Fortaleza, e um ônibus que atua de forma semelhante ao Uber.

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Com uma gama de soluções focadas na mobilidade urbana, um dos grandes gargalos da qualidade de vida nas grandes cidades, a Serttel ganhou o País e já tem experiências no exterior. A empresa, que é bastante conhecida no Recife pelo serviço do aluguel de bicicletas, não revela faturamento, mas está presente em 23 cidades brasileiras, com 800 funcionários.

Além de desenvolver o sistema de aluguel de bikes com uso de aplicativo e estações operadas com energia solar, a Serttel atua também com o compartilhamento de carro elétrico (car sharing), com a micromobilidade dos patinetes e com uma plataforma de ônibus sob demanda. O monitoramento eletrônico urbano, a gestão de estacionamentos públicos e de redes semafóricas entram no leque de serviços prestados pela pernambucana que é uma das gigantes locais.

“Nosso sistema Vamo, de carros compartilhados, usa veículos 100% elétricos ofertados em estações de compartilhamento espalhadas pela cidade de Fortaleza. Ao todo são 12 estações cada uma com quatro vagas e quatro carregadores de veículos elétricos”, conta Ângelo Leite.

A outra novidade criada pela Serttel é o Rebus, uma plataforma que visa ofertar uma solução inteligente para que os usuários possam “chamar” um ônibus de 12 a 23 lugares, das mesma forma que chama um Uber, sem rotas fixas e com coleta “porta a porta”.

Além do Recife e de Fortaleza, a Serttel está em grandes capitais brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, entre outras. O CEO Ângelo Leite afirma que a tecnologia da empresa já está na Argentina e Colômbia, onde já possui sucursais, e no México e Equador, onde a Serttel opera em alguns projetos em parceria com empresas locais.
“No momento estamos focados em evoluir com a digitalização dos nossos produtos e serviços e em resultado. Nos próximos cinco anos queremos nos tornar uma empresa provedora de plataformas digitais de serviços para mobilidade urbana, possibilitando a operação além das fronteiras do Brasil, sem a necessidade de presença”, conta Ângelo.

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AVANTIA

Eduardo Lima afirma que a empresa usa inteligência artificial para mapear comportamentos estranhos nas áreas urbanas públicas e em ambientes internos.empresas

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Com 500 pessoas na operação, a Avantia atua nacionalmente oferecendo tecnologias de segurança e monitoramento de processos corporativos a partir da análise inteligente de imagens e som. A empresa pernambucana começou na área de engenharia, focada em automação bancária e instalações elétricas. No entanto, ao longo dos seus 21 anos, ela foi se metamorfoseando até chegar ao patamar atual de ser uma das referências no seu novo segmento. De acordo com o diretor comercial da Avantia, Eduardo Ferreira Lima, a empresa cresceu 15% de faturamento em 2018 e projeta um novo salto de 20% neste ano.

Mapear com inteligência artificial comportamentos estranhos nas áreas urbanas públicas e mesmo internas das empresas, que indiquem situações de insegurança é um dos serviços da Avantia. Outra grande solução para os clientes corporativos é o uso de inteligência artificial na análise de imagens da rotina de empresas que atuam em rede. Com a identificação de falhas em seus processos, como uma fila que demora muito em um caixa ou em um drive thru, os clientes conseguem aperfeiçoar a operação e melhorar seus resultados. Marcas como McDonald’s, Drogasil e Gerdau, por exemplo, são atendidas pelas soluções da Avantia.

O início da trajetória da empresa na área de tecnologia aconteceu mais como uma integradora de soluções de terceiros. No entanto, com o tempo e o investimento em formação de mão de obra e em pesquisa e desenvolvimento, a pernambucana já detém tecnologias próprias que são oferecidas aos seus clientes. Inovações construídas também em parcerias com grandes centros acadêmicos do mundo, como a Universidade de Michigan, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Singularity University, da Califórnia.

Com os investimentos no desenvolvimento de novas tecnologias, a projeção para os próximos anos é arrojada. “Em cinco anos queremos estar consolidados como principal empresa nacional do setor de tecnologia para área de segurança no Brasil e nos preparando para uma expansão internacional”, projeta o diretor comercial.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais (rafael@algomais.com)

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