Startups: atalho para inovação

Startups: atalho para inovação

Publicado em 07/05/2018 por Revista algomais às 5:11
José Menezes, Júlio Dantas e Vitor Hazin, da Neurobots, desenvolvem exoesqueleto controlado pelo cérebro para reabilitar pacientes com AVC. Tratamento tem resultado 30% superior às técnicas convencionais. Foto: Tom Cabral

Pernambuco tornou-se um solo fértil para o surgimento de startups. É o Estado que possui a maior concentração dessas empresas embrionárias no Nordeste, de acordo com a Associação Brasileira de Startups. Somente no Recife são mais de 300 em diferentes estágios de maturação. Um ecossistema onde já surgiram exemplos disruptivos como a In Loco Media (que faturou R$ 50 milhões em 2016) e que desperta interesse dos setores produtivos tradicionais em busca de soluções inovadoras.

“As startups vão modernizar as empresas tradicionais. A expectativa é que elas encontrem novos modelos produtivos ou mesmo novos produtos, resolvendo problemas das organizações e da sociedade”, afirma Sérgio Cavalcante, CEO do C.E.S.A.R.. Ele revela que as corporações dos segmentos historicamente em atividade no Estado já estão de olho nos jovens empreendedores. “Os empresários estão atentos para as mudanças e inovações. Não querem perder o bonde, como aconteceu com várias empresas como a Blockbuster, que morreu com o surgimento da Netflix”.

“As startups vão modernizar as empresas tradicionais”, declara Sérgio Cavalcante, CEO do C.E.S.A.R. Foto: Tom Cabral

Todo esse vigor de inovação conta com incentivos das 15 incubadoras em operação no Estado, cada uma abrigando em média oito startups, segundo a Secretaria de Ciência e Tecnologia estadual. No Recife, inclusive, surgiu uma comunidade dessas empresas para apoiar práticas colaborativas e de empreendedorismo para todo esse ecossistema, a Manguez.al.

Dessa iniciativa nasceu informalmente um grupo composto somente por startups da área de saúde (o Mangue Health) que têm projetos com alto potencial, como a Neurobots. Fundada em 2016 e instalada no Parktel, a empresa desenvolve um exoesqueleto controlado pelo cérebro e usado na reabilitação de pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC). Os dois sócios, Vitor Hazin e Júlio Dantas, estão ainda terminando a graduação em engenharia biomédica.

“A intenção é reabilitar de forma mais efetiva o movimento perdido do paciente, por meio de um equipamento que faz a interface cérebro-máquina”, diz Hazin. Segundo estudos de universidades alemãs, o tratamento apresenta um resultado 30% superior ao dos métodos tradicionais.

Apesar de jovem, a Neurobots arrebatou alguns editais e prêmios que permitiram à empresa contar hoje com um profissional trabalhando em tempo integral no desenvolvimento do projeto, o mestre em inteligência artificial José Menezes. Ainda neste ano a equipe será ampliada para oito pessoas e até 2019 deverá receber um aporte de R$ 800 mil.
Em fase de testes, o produto tem previsão de chegar no mercado ainda neste ano. “A demanda é muito latente por esse tipo de reabilitação. No Brasil são 300 mil casos de AVC por ano. Queremos atender primeiro, a partir de maio, na vertente de home care, e, na segunda etapa, fornecer esses equipamentos para as clínicas de reabilitação neurológicas”, projeta Júlio. No Brasil há mais de 16 mil serviços especializados nesse segmento.

Ainda no setor de saúde, outra startup promissora é a Epitrack. Com produtos já lançados no mercado, a empresa ficou conhecida por desenvolver a plataforma de vigilância de epidemias durante a Copa do Mundo de 2014, quando o País passava por um surto de sarampo. A mesma tecnologia foi usada nos Estados Unidos e Canadá no mapeamento dos casos provocados pelo vírus influenza. O sucesso do aplicativo e os recursos que foram aportados durante o mundial deram musculatura para os primeiros passos da empresa, que hoje tem nove pessoas trabalhando, sendo uma delas em Londres.

Equipe da Epitrack lançou plataforma de vigilância de epidemias usada na Copa de 2014 e, recentemente, pelos EUA e Canadá. Foto: Tom Cabral

Outro produto da Epitrack é o Clinio, aplicativo que reúne médicos de diversas especialidades para atender pacientes em domicílio. “O alvo dessa iniciativa é beneficiar os mais de 2,5 milhões de brasileiros que saíram dos planos de saúde nos últimos dois anos”, destaca Onício Neto, fundador da startup. No app os pacientes informam seus sintomas antes de chamar o profissional. Mais de 130 médicos do Recife e de Jaboatão e cerca de 2,3 mil usuários estão cadastrados. Com as informações desse serviço, a empresa consegue também entender como está a evolução das doenças em cada área da cidade.

A Epitrack realiza ainda um serviço de big data, análise de informações do banco de dados dos hospitais e planos de saúde. “Muitas dessas empresas têm informações supervaliosas e nem sabem disso. Nosso trabalho é para ajudar esses players a tomar decisões que podem reduzir os seus gastos, dar uma maior eficiência aos processos e mostrar como ter a melhor assistência com menos custos”, afirma.

A construção civil também se rendeu às startups do setor conhecidas como construtechs. A Coteaqui, por exemplo, criou uma plataforma que auxilia as construtoras na aquisição de materiais. Mais de quatro mil fornecedores estão cadastrados nesse sistema que já movimentou mais de R$ 100 milhões. “É um espaço digital em que as empresas do setor negociam diretamente com as companhias fornecedoras, tendo uma série de vantagens para os dois lados. A coleta de propostas comerciais fica mais rápida e os fornecedores têm um canal para acessar o que as construtoras estão comprando”, afirma o fundador Alyson Tabosa.
Trinta e uma empresas do setor em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte são atendidas pela tecnologia da Coteaqui. A startup, que nasceu de um projeto do curso de engenharia da computação da UFPE, tem a expectativa de fechar 2018 com uma cartela de 200 clientes e a nacionalização do negócio.

Site criado pelos empreendedores da Coteaqui auxilia construtoras na aquisição de materiais. Foto: Tom Cabral

No setor agrícola, o destaque é a incubadora da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco). “A Incubatec surgiu com o objetivo de estimular o empreendedorismo e a inovação nas atividades do agronegócio. Mas hoje também temos outros ramos de atuação. Fomentamos e incentivamos estudantes e a comunidade acadêmica a criar empresas e se apresentarem para o mercado”, explica o coordenador Paulo Santos.

Com sede em Carpina, a Polisa é uma das startups da incubadora que desenvolve materiais médicos hospitalares a partir dos biopolímeros (grandes moléculas) da cana-de-açúcar. Os produtos são atóxicos, biocompatíveis (não são prejudiciais aos seres vivos), com custos mais acessíveis para fabricação de órteses e próteses. Curativos e gel para uso semelhante ao silicone são alguns dos artigos em desenvolvimento. Segundo Paulo, essas soluções, por serem da área de biotecnologia, demoram muitos anos para serem regulamentadas.

A preocupação com o lixo também faz parte dos objetivos das startups da Incubatec. Para aproveitar os resíduos do coco, que são bastante volumosos no descarte dos aterros sanitários, o engenheiro agrônomo João Carlos Montenegro lançou a Carbono 21. A proposta da empresa é transformar o bagaço da fruta que iria para o lixo em solo agrícola (muito usado em jardinamentos e para produção de hortaliças), espumas para estofamento dos bancos para a indústria automotiva, artesanato, entre outros produtos. O líquido que é extraído do processo de esmagamento também pode ser transformado em inseticida natural. E o próprio processo industrial da biofábrica para gerar esses produtos poderia funcionar com energia gerada pela queima dos resíduos do coco.

Zezinho do Coto com João Montenegro, responsável pela criação de uma tecnologia para reaproveitar resíduo do coco, cujo descarte somente em Boa Viagem e no Centro produz gasto de R$ 1 milhão/ano ao poder público.

“Hoje pagamos para colocar esse resíduo nos aterros sanitários. Trata-se de uma biomassa de alta qualidade que está misturada com o lixo doméstico”. Nos cálculos do engenheiro, incluídos na sua dissertação de mestrado, em 2009, o gasto do poder público só com o coco descartado pelos barraqueiros de Boa Viagem e do Centro do Recife foi de R$ 1 milhão. A startup está em negociação com a Fundação Banco do Brasil para receber o investimento dos equipamentos e busca um terreno na cidade para instalação da fábrica.

Até mesmo o moderno Porto de Suape entrou nesse movimento de inovação. O complexo portuário uniu-se ao Porto Digital, numa iniciativa coordenada pelo C.E.S.A.R, que tem o desafio de linkar startups às empresas de logística. A ação busca otimizar resultados, agilizar os processos e diminuir os custos no setor.

ECOSSISTEMA. Apesar do potencial dessas iniciativas, 30% das startups brasileiras não conseguem se manter no mercado, de acordo com pesquisa do Sebrae e do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Para evitar esse cenário e contribuir para os primeiros passos dos empreendedores, diversas instituições desenvolvem programas e políticas de apoio.

O Centro Universitário UniFBV criou um núcleo para estimular a continuidade de projetos de grande potencial dos estudantes surgidos na disciplina de empreendedorismo. “Provocamos os alunos e criamos um ambiente de experimentação e eles acabam apresentando grandes ideias de negócios”, entusiasma-se Dante Freitas, empresário e coordenador do núcleo.

Recentemente o UniFBV criou um programa para os estudantes conhecerem o Vale do Silício, na Califórnia. “Nossa proposta é conectar os alunos ao mercado. Educação é vida real”. Entre os projetos que passaram pelo núcleo estão a Mobix Software Studio, fábrica de software incubada no Porto Digital, e a Premia Pão, franquia especializada na publicidade em saco de pão, já com quase 300 franqueados e que em 2016 faturou R$ 3,5 milhões.

O Sebrae também se lança nesse mercado com o projeto Sebrae Lab. “Pretendemos fazer uma conexão contínua entre as startups e os setores tradicionais”, explica o analista de negócios Péricles Negromonte. A estrutura será um ambiente para promoção de cursos, oficinas e vários serviços com a missão de fazer com que os gargalos setoriais cheguem ao conhecimento dos profissionais focados em buscar inovações.

O contato de empreendedores com as empresas também tem acontecido em eventos conhecidos como hackathon – maratonas de programação destinadas a premiar o melhor projeto desenvolvido para solucionar determinado problema em um curto intervalo de tempo. Em janeiro aconteceu no Recife o Desafio Augment, promovido pela Queiroz Cavalcanti Advocacia. A ação reuniu 50 participantes que tiveram 50 horas para construir uma plataforma que promovesse a integração entre investidores, grandes empresas, PME’s e startups e o poder público.

Diante de toda essa efervescência provocada pelo surgimento das empresas inovadoras, a Secretaria de Ciência e Tecnologia de Pernambuco está criando o Programa de Apoio a Startups e a Rede de Incubadoras de Pernambuco. “Contamos com aproximadamente 15 iniciativas. Estamos montando um programa de pré-aceleração para suprir um gap do nosso ecossistema que, até então, negligenciava apoio a startups com modelos já validados em busca de primeiros clientes. Também desenvolvemos um projeto de lei contendo um conjunto de benefícios para apoiar essas empresas desde o seu nascimento”, explica Felipe Sabat, gestor do programa. “Esperamos que essas ações possam contribuir para gerar, consolidar e atrair startups relevantes para nosso Estado”, planeja.

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