Arraes, uma liderança no exílio

Arraes, uma liderança no exílio

Publicado em 12/12/2016 por Revista algomais às 17:39

O Golpe de 1964, responsável pela deposição e posterior exílio de Miguel Arraes, lançou o político a uma atuação internacional intensa. O período de 14 anos em que esteve exilado é um episódio de sua biografia nem sempre muito conhecido, mas que o levou a relacionar-se com lideranças da política mundial. Ele chegou a auxiliar no comércio exterior de ex-colônias portuguesas e sua livraria em Paris tornou-se um centro de debates entre intelectuais estrangeiros e brasileiros também exilados. Graças ao pequeno jornal que publicava, a Frente Brasileira de Informação (FBI), o autoritarismo e a tortura praticados pelo governo militar foram denunciados. A repercussão chegou a veículos estrangeiros, como o Le Monde, da França, que retransmitiu as denúncias.
Enquanto muitos exilados brasileiros seguiram para Paris ou Santiago, Arraes foi para o continente africano por alguns fatores. De acordo com o filho, Lula Arraes, que morou alguns anos com o pai em Argel, muitos países lhe negaram asilo por pressão dos militares no Brasil. “O governo brasileiro chantageava outros países. Castelo Branco fez um pedido pessoal para De Gaulle (então presidente francês) não aceitá-lo na França”. Depois de passar 15 meses preso após o golpe (entre Recife, Fernando de Noronha, Fortaleza e o Rio de Janeiro), o habeas corpus foi concedido quando Arraes estava na capital fluminense, numa época em que muitas embaixadas foram transferidas para Brasília. Entendendo que sua liberdade teria vida curta, o advogado Sobral Pinto conseguiu articular seu refúgio na embaixada da Argélia.
Ao pisar no continente africano, estoura um Golpe de Estado no país que o acolheu. O embaixador que o levou e herói de três guerras– que se tornaria um amigo pessoal de Arraes – era um dos conspiradores. Durante seu período de exílio, várias antigas colônias africanas tornaram-se independentes, uma época de efervescência política, que propiciou ao ex-governador ter outra atividade. “Ele teve uma participação real junto aos líderes da libertação das colônias portuguesas. Todos passaram por Argel e ele teve contato direto com eles”, lembra Lula.

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Arraes ao lado de Tayebi Larbi

Arraes, por exemplo, contribuiu para que lideranças africanas se relacionassem com homens de negócios interessados em investir ou em manter relações comerciais com as novas nações independentes. “Sem Portugal, elas não tinham abertura para o mundo. Essa colaboração foi de grande ajuda para o começo da economia desses países”. O escoamento da produção de diamantes de Angola, no primeiro ano após a libertação, foi viabilizada através da conexão que Arraes promoveu entre o governo angolano e um grupo econômico da época.

FRENTE BRASILEIRA DE INFORMAÇÃO
Nas primeiras semanas da África, Miguel Arraes teve muitas dificuldades de comunicação, porque não dominava fluentemente o francês. Na biografia de Arraes, escrita por Tereza Rozowykwiat, a autora relata que ele só começou a se comunicar no país três semanas após a chegada. Depois de um tempo sem atividades, o ex-governador entrou em contato com outros exilados e produziram o jornal Boletim da Frente Brasileira de Informação (FBI). Essa publicação noticiou torturas e desmandos realizados pelos militares no Brasil. “Os folhetos eram escritos em várias línguas para divulgar da forma mais ampla possível as denúncias dos atos praticados pelo governo brasileiro”, escreveu Rozowykwiat.

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O boletim atravessou fronteiras. Recebeu forte apoio na circulação na Suécia, Inglaterra, Holanda, Itália e França. Também chegava ao Brasil através do jornalista Darwin Brandão. Seus textos reverberavam em notícias em grandes jornais do mundo, revelando a verdadeira realidade do Governo Militar no cenário internacional. Figuras de renome nacional contribuíram para a Frente Brasileira de Informação, como o economista Celso Furtado, o pedagogo Paulo Freire e o historiador Luíz Felipe de Alencastro.
Arraes também viajou muito durante o exílio, organizando suas bases e para se encontrar com outros exilados e atores da esquerda global. De acordo com Lula, ele esteve na França, antes mesmo da proibição de sua entrada naquele país ter sido suspensa. Mas a permanência clandestina em solo francês foi descoberta graças a uma foto publicada na imprensa em que aparece ao lado do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre numa manifestação de rua.
Após a queda da proibição, Paris foi local de atuação do político, onde chegou a montar uma livraria na Rue des Écoles, especializada em livros que tratavam da situação da América Latina e do terceiro mundo. “Essa livraria virou um centro de discussão. Eu era estudante nessa época em Paris e conheci grandes intelectuais latino americanos que discutiam literatura e a situação política dos seus respectivos países. Ele era um provocador desses debates”, relembra Lula. Arraes manteve contatos com nomes de peso no cenário político francês, como os ex-primeiros-ministros François Mitterrand e Michell Rocard.
O ex-governador ainda associouse a movimentos relevantes como o fato de ter integrado o Tribunal Internacional Bertrand Russell pelos Direitos Humanos, presidido à época por Jean-Paul Sartre. “Ele participou das sessões sobre os direitos dos índios e sobre as torturas no mundo. Foi um dos principais relatores”. Integrou também o Grupo Cristão pela Paz na Palestina e em território palestino teria tido contato com Yasser Arafat. Não há registros oficiais sobre suas missões no mundo árabe, mas esses encontros foram mencionados por pessoas que conviveram com o ex-governador. Existem, também, cartas trocadas com o líder palestino, datadas de 1975. A atuação do brasileiro também teve destaque como membro da Fundação Internacional Lelio Basso pelos Direitos e pela Libertação dos Povos, liderada pelo senador italiano de mesmo nome.
Além de Paris, Arraes se relacionou com importantes lideranças políticas de centro-esquerda e de esquerda de outros países europeus enquanto esteve exilado. Manteve contato também com políticos do chamado terceiro mundo, de acordo com o cientista político Túlio Velho Barreto. “Teve importantes encontros com o presidente Jango, na França, para discutir a Frente Ampla. E com Brizola para alertá-lo acerca da Operação Condor (aliança entre as ditaduras instaladas nos países do Cone Sul na década de 1970 para atuar de forma coordenada no sequestro, tortura e assassinato de militantes que faziam oposição aos regimes militares)”, afirma. “Em 1973, esteve no Chile antes do golpe e chegou a alertar Salvador Allende sobre como o clima político naquele país era semelhante aos meses pré-golpe no Brasil dos anos 1970”. (Leia entrevista completa com o cientista político no site: migre.me/vEUUv).
No mundo comunista, Arraes manteve amizade com o comandante cubano Fidel Castro. “Em Havana meu pai era recebido como chefe de Estado. Eram amigos, tinham conversas de horas”, conta Lula. Arraes visitou a China, União Soviética, Polônia, Bulgária e Tchecoslováquia. “Esteve por dois meses na China. Ele se encontrou com dirigentes chineses, mas não com Mao Tse Tung, que já estava muito idoso nessa época”.
Túlio Velho Barreto revela que, em entrevista realizada com Arraes em 2005, o ex-governador afirmou que se comunicava com lideranças políticas no Brasil, porém de forma muito cautelosa. “Teriam sido poucos os políticos brasileiros que mantinham contato com ele durante o exílio. Para Arraes, havia um certo receio de que isso criasse mal-estar junto aos militares na medida em que ele era uma das lideranças mais temidas pelos interventores. O que não o impediu de gozar de grande prestígio internacional junto às principais lideranças de centro-esquerda e de esquerda”, afirmou. Arraes teria sido procurado pelos brasileiros para ajudar na arrecadação de fundos para campanhas eleitorais no Brasil.
Na biografia escrita por Tereza Rozowykwiat, há um registro feito por Arraes quando o regime militar completou 20 anos. “Durante os 14 anos em que permaneci fora do País, procurei acompanhar, na medida do possível, as coisas que aconteciam aqui. As dificuldades eram enormes porque o governo brasileiro e seus aliados no mundo obstaculavam nossa movimentação, censuravam correspondências, enfim, procuravam de todas as formas nos isolar. Havia inclusive a ameaça de eliminação física dos exilados, em alguns casos até consumada”.

Os passos do líder socialista no exílio ainda são alvo de pesquisa, pois muitos dos seus documentos que estavam na França, com Márcio Moreira Alves (jornalista e ex-deputado), só chegaram ao Recife após sua morte. Os mais próximos dizem que esse é ainda um período pouco conhecido da sua vida, apesar de muito rico em produção intelectual e articulações políticas.

*Por Rafael Dantas, repórter da Revista Algomais (rdantas@smftgi.com.br)

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