Entre barragens, canaviais e gente

Entre barragens, canaviais e gente

Publicado em 16/04/2018 por Revista algomais às 15:33

A paisagem, / com tantos nomes é quase a mesma / A mesma dor calada, / o mesmo soluço seco. Com essa triste descrição, João Cabral de Melo Neto introduz seus leitores do poema O Rio ao trecho da bacia que entra pelos municípios do Médio Capibaribe. Continuando a série de reportagem Rio da Resistência, mergulhamos num cenário entre barragens, cana-de-açúcar e muita gente que o poeta não chegou a conhecer.

Escrito há 65 anos, o rio que fala em primeira pessoa nos versos de Cabral não conhecia ainda o sistema de barragens que foi construído em Pernambuco tempos depois. A primeira erguida foi a de Tapacurá, cinco anos após a publicação no poema. As demais, como a de Jucazinho e de Lagoa do Carro (que até recentemente tinha o nome de Carpina), foram motivadas pela grande cheia do Recife em 1975. Além de represar a ameaça de grandes enchentes na capital, esse sistema é usado para o abastecimento de água da maioria dos municípios da região.

Na época do poeta, porém, as poucas águas que “viam de longe” Caruaru, Vertentes e João Alfredo, passavam por Surubim, mas não ficavam represadas na Barragem de Jucazinho. Construída em 1998 e em colapso desde 2016, a represa inundou várias comunidades conhecidas por João Cabral.

Entre as casas que ficaram embaixo d’água após a construção estavam as das famílias de Carlos Rocha, 51 anos, que hoje trabalha numa empresa terceirizada da Compesa, e de Inácio de Arruda, 66, que era recém-nascido quando Cabral pisou no leito seco do rio. Do alto da represa é possível ver, a poucos metros, o local onde fora no passado a vila da infância desses homens. Um cenário que atualmente combina solo rachado, sol escaldante, silêncio sepulcral e uma vista deslumbrante da imensidão das terras do Agreste.

Inácio e Carlos moravam na área que ficou submersa pelas águas do Capibaribe. A região ficou anos seca e nos últimos dias voltou a receber chuvas. Foto: Tom Cabral

Por décadas essas famílias pescavam e plantavam quando havia água e sobreviviam como bons agricultores quando o Capibaribe desaparecia. Não havia luz, água encanada ou estradas para a cidade. Com a chegada da represa, veio o período de prosperidade para a região, na avaliação dos seus antigos moradores, que perderam as casas, mas encontraram oportunidades de renda e emprego.

Inácio, por exemplo, montou um pequeno restaurante a poucos metros da barragem. “A vida mudou, era muita gente por aqui”, recorda. Mas com os sete anos de seca, seus negócios foram afetados. “Hoje quero que façam o serviço da barragem para o povo voltar a ficar tranquilo”, anseia.

Inácio refere-se à sustentação da barragem, que segundo relatório da ANA (Agência Nacional das Águas) sofre risco de rompimento. O comerciante revela que muitas casas de vilarejos como Cheos, também mencionado no poema, foram abandonadas pela população por medo que a estrutura não segure um volume de águas maior após tanto tempo seco. “O povo está cismado”, sentencia.

De acordo com o presidente da Compesa, Roberto Tavares, a primeira parte da reforma da barragem já foi realizada pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) e a segunda deve entrar em licitação em breve. A primeira parte das obras foi composta por ações emergenciais de reforço das estruturas. A segunda incluirá ações de modernização do reservatório.

POLUIÇÃO
O gestor da Compesa afirma que o Governo do Estado executa também um programa de despoluição da Bacia do Capibaribe. “Já temos obras em Surubim, estamos começando em Santa Cruz do Capibaribe e temos, na RMR, o Programa Cidade Saneada. Se os futuros gestores públicos derem continuidade, teremos um novo rio na próxima década.”

A poluição das águas, que não estava presente da narrativa do poeta, é também uma preocupação da população ao longo da bacia do rio. Em Limoeiro, há 20 anos, a Amatur (Sociedade de Apoio ao Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável) faz um trabalho de conscientização em torno da preservação do Rio Capibaribe, além de promover o reflorestamento no município, orientar a destinação correta dos resíduos sólidos e de incentivar o artesanato local.

Ao promover essas ações, os voluntários da ONG já observam mudanças no comportamento das pessoas e na própria vitalidade do rio. “O que houve de melhor foi a volta das capivaras e jacarés. O retorno da cobertura vegetal e a redução do lixo nas águas contribuíram para esses animais procriarem”, afirma Ricardo Rodrigues, presidente da Amatur. Ele revela que no passado o Capibaribe foi bastante explorado, com a retirada de areia, a poluição química de uma tecelagem e mesmo com a caça dos bichos da região.

O combate ao despejo de lixos no leito do rio contou com ações como a distribuição de lixeiras na cidade e o estímulo à coleta seletiva, mesmo que de maneira informal ainda. Frente ao reconhecimento do trabalho da ONG, a prefeitura concedeu um terreno de dois hectares, onde será construído um galpão para reciclagem e plantio de mudas. “Estamos buscando parceiros para tornar viável esse projeto que terá um importante impacto social também no município, que é uma das preocupações do nosso trabalho”, afirma Nilo Queiroz, tesoureiro da Amatur.

Como a maioria das cidades da Bacia do Capibaribe, o crescimento urbano deu as costas ao rio. Em Limoeiro, para intervir nessa situação e fazer a população valorizar esse ativo ambiental que corta o seu território, a Amatur realiza eventos de vivência nas margens do Capibaribe em datas especiais, como no Dia do Meio Ambiente e no Dia da Água. Uma dessas ações foi a realização de um concurso de fotografias com crianças da Escola Municipal São Francisco, que resultou numa exposição das melhores imagens.

Se por um lado a indiferença da maioria da população pelo rio é uma constante em quase toda extensão do Capibaribe, por outro há gente espalhada pelos diferentes municípios que resiste em defendê-lo da exploração predatória e da poluição. Um esforço que gerou recentemente a elaboração de uma carta de compromisso pelo rio. Produzido dentro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Capibaribe, o documento já foi assinado por 19 prefeitos.

ENTRE OS CANAVIAIS
“No outro dia deixava/ o Agreste, na Chã de Carpina. / Entrava por Paudalho,/ terra já de cana e de usinas. (…)/ Foram terras de engenho, / agora são terras de usina”. Na região, em que o poeta enxergava apenas a imensidão dos canaviais, o tempo tratou de dotar outras vocações, como a pesca e a atividade turística.
Após Limoeiro, nossa primeira parada é no município de Lagoa do Carro, antigo distrito de Carpina. A construção de uma barragem em 1978 melhorou a vida das poucas famílias que viviam da pesca. “Pescava com minha mãe desde os 7 anos, antes da construção da represa. Só não sabíamos que era profissão. Hoje, com menos água por causa da estiagem está difícil para capturar os peixes”, relata a presidente da Colônia Z-18 de Pescadores no município, Maria das Neves, apelidada de Maria das Águas.

As lutas da colônia são contra a devastação ambiental e o combate à pesca predatória. Maria lembra ainda que entre as bandeiras pelas quais luta está a tentativa de reconhecimento do câncer de pele como doença do trabalho na atividade pesqueira. Uma conquista recente do movimento foi conseguir que a água represada da barragem chegue às casas da agrovila, onde vivem os pescadores, por meio de uma tubulação recém-instalada.

A principal queixa dos pescadores, no entanto, é o fato das tilápias, piabas, carpas, tambaquis e camarões estarem “se escondendo” após a redução do nível das águas, que atualmente é de apenas 13%, segundo dados da Apac (Agência Pernambucana de Águas e Climas). Outro fator dificultador foi a chegada do peixe pintado, que é um predador e se alimenta de algumas das demais espécies.

Um dos trabalhadores resistentes em permanecer na atividade é Ednaldo da Silva, o Nado, de 35 anos. Das mil famílias da colônia, ele estima que apenas 50 ainda sigam pescando. Outros pescadores falam em 150 famílias. A maioria dos moradores da agrovila é composta por aposentados, mas há uma parcela também de agricultores.

Hoje Nado consegue faturar semanalmente cerca de 5% do que recebia há quatro anos, quando a barragem estava no seu volume máximo. “A poluição tem uma grande parcela de culpa nisso, não foi só a seca. Nós, pescadores, não conseguimos colocar na mente das pessoas que isso aqui é para toda a vida, que precisamos cuidar”. Ele se levanta diariamente às 4h e às 6h já está no barquinho. À tarde, cuida dos seus poucos animais. “É uma luta medonha, mas aqui é muito bonito. Gosto do que eu faço. Mas se aparecer emprego na cidade terei que ir porque tenho família. Aqui a gente tira a feira da semana, mas está muito fraco”, lamenta.

“Gosto do que eu faço”, afirma o pescador Nado, que trabalha em Lagoa do Carro. Foto: Tom Cabral

Irmã de Nado, Edilene Valdevino da Silva, 34 anos, é mãe de quatro filhos e pescadora desde os 8. O último filho de Lena nasceu quase dentro d’água, pois ela trabalhou até os 9 meses de gestação. Ela pesca principalmente camarões. “No momento eu tenho saído pouco. Quem está sobrevivendo ainda aqui é quem pesca os peixes”. Ela afirma que a maioria das pessoas da colônia estão amparadas pelo Programa Bolsa Família, como complemento de renda. E cada um busca “bicos” na cidade para conseguir se manter. Poucos estão exclusivamente com a atividade pesqueira.

Lena trabalha com a pesca desde a infância em Lagoa do Carro. Foto: Tom Cabral

Passada a barragem, começam os grandes canaviais da Mata Norte. As cidades da região cresceram, como Carpina, que é polo regional de comércio e serviços. Mas o setor sucroalcooleiro segue como um dos grandes empregadores da região. A grandeza da usina, a sua expansão sobre as terras e as povoações que viviam da cana ocupam a poesia e os sentimentos do poeta. “Via usinas comer / as terras que iram encontrando; / com grandes canaviais / todas as várzeas ocupando. (…)/ Por esta usina/ olhando com cuidado vou, / que esta foi a usina/ que toda esta mata dominou.”

O fascínio de Cabral pela região é tão grande que ele desejava ser enterrado no Engenho Trapuá, em Tracunhaém, que hoje é propriedade da Usina Petribú, sediada em Lagoa de Itaenga. Tendo falecido no Rio de Janeiro, o desejo do poeta não foi cumprido. O local é atualmente uma área preservada, com uma vista privilegiada da região e que abriga uma igreja. Jorge Petribú, presidente do conselho da usina, afirma que a área está disponível para caso a família deseje ainda realizar o pedido do poeta de descansar nas terras da sua infância.

Além da atividade canavieira, parte das antigas propriedades oferece atualmente experiências turísticas, como o caso do Engenho São Bernardo, em Paudalho, vizinho do Capibaribe. “A família do meu pai era proprietária da Usina Muçurepe, tinha vários engenhos. Moro hoje na antiga sede”, afirmou Angelina Bandeira de Melo.

Engenho São Bernardo. Foto: Tom Cabral

Banhado pelas águas de um açude, o local oferece ao visitante um parque aquático, bicas, pesque e solte, campo de futebol, que somados à visita para a casa grande e a capela compõem uma experiência de lazer pouco conhecida ainda pelos pernambucanos. No futuro, a propriedade oferecerá ainda a opção de realizar trilhas. Da casa, que fica na área mais alta, se observa também o Santuário de São Severino dos Ramos, que atrai anualmente milhares de fiéis para Paudalho. Uma das atividades de turismo religioso mais fortes do Estado.

A movimentação comercial e de romeiros, porém, tem ameaçado as poucas águas do Capibaribe que cortam o município. O lixo, esgotos e baronesas contrastam as paisagens retratadas por Cabral.

Em Paudalho, o poeta menciona ainda o trem que por lá fazia parada. Dessa memória ferroviária restam apenas os trilhos desgastados pelo tempo. E Cabral seguiu descendo no caminho do rio até o Recife. Com mais água e mais gente, que trazem outros desafios e histórias que contaremos na próxima edição.

*Por Rafael Dantas, repórter da Revista Algomais (rafael@algomais.com)

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