Consumo Infantil: um desafio de gente grande

Consumo Infantil: um desafio de gente grande

Publicado em 02/12/2019 por Revista algomais às 9:40

*Por Daniela Teixeira

O seu filho vê muita propaganda? Não desgruda do celular? O desejo pelo último brinquedo da moda surgiu de onde? Você já parou para pensar sobre estas questões? Pesquisa recente realizada pela empresa de inteligência Änimä com 647 pais e mães de crianças menores de 12 anos mostra que mais de 80% dos pais acham que a propaganda influencia o comportamento dos filhos, porém, apenas 46% conversam sobre o assunto em casa. E mais: 52% dos pais são contra qualquer tipo de propaganda voltada para crianças de até 12 anos – alimentos ultraprocessados encabeçam a lista de rejeição. Outro dado mostra que as atividades em que os pais mais veem os filhos envolvidos são: brincando em casa, usando celular ou tablet e em frente à TV. Segundo os pais, os youtubers são os que mais influenciam o consumo dos filhos e, também, os que encabeçam a lista de rejeição: 76% dos pais são contra youtuber como garoto-propaganda nas propagandas infantis.

A pesquisa gera um alerta não só para os pais, mas também para as marcas que miram esse público. Já está mais do que comprovado que o estímulo ao consumo tem gerado problemas das mais diversas dimensões, afetando a saúde física e emocional das crianças, criando conflitos familiares, estimulando comportamentos agressivos e influenciando a valorização do materialismo como estilo de vida. Não dá mais para ignorar os alertas que vêm sendo feitos para proteger as crianças das estratégias de marketing abusivas. Segundo a OMS, existem 41 milhões de crianças menores de 5 anos obesas em todo o mundo e os estudos já vinculam a obesidade a uma rotina sedentária e à promoção de produtos ultraprocessados.

O argumento usado por algumas empresas de que os pais são os responsáveis pela decisão de consumo dos filhos também não condiz com a visão de mundo sustentável tão necessária para garantir a nossa sobrevivência enquanto sociedade. Não parece razoável que, em pleno Século 21, empresas se valham desta velha retórica para garantir as suas receitas.

Felizmente parece que começa a acender uma luz no fim do túnel. Consumidores mais conscientes, pressão de grupos civis organizados, impacto na rede de saúde pública, exposição negativa na mídia e receio de uma regulamentação mais rígida vêm abrindo espaço para uma nova realidade no mercado infantil. Iniciativas de gigantes como McDonald´s, Coca-Cola e Pepsi de reverem suas práticas mercadológicas para crianças menores de 12 anos são o primeiro passo de uma longa caminhada.

Se o desafio é grande para as empresas, não deixa de ser maior para os pais. É preciso que eles se conscientizem sobre o impacto de uma rotina voltada para o consumo, muitas vezes promovida dentro da própria família. São brinquedos que desestimulam o livre brincar, que promovem a violência e o sexismo ou que substituem o afeto parental. Alimentos ultraprocessados no lugar de uma refeição pela facilidade de preparo e um celular como recompensa para a falta de tempo ou de paciência com os filhos. As crianças estão observando e irão cobrar essa conta um pouco mais à frente. A responsabilidade é de todos nós.

*Daniela Teixeira é mestre em consumo pela Bournemouth University, na Inglaterra (danielateixeira1979@hotmail.com)

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