Polarização no eleitorado brasileiro está ligado ao sentimento de medo

Polarização no eleitorado brasileiro está ligado ao sentimento de medo

Publicado em 03/12/2019 por Revista algomais às 4:59
Dissertação relaciona níveis de ameaça econômica e física ao aumento da divisão no país

Em decorrência das manifestações políticas ocorridas em 2013 e 2015 no Brasil, grande parte da população foi acometida por uma descrença na classe política, com bandeiras reivindicando um “fora todos”. Após as ondas protestos e a separação de manifestantes pró e anti-PT, durante o impeachment de Dilma Rousseff, dados do Latin American Public Opinion Project (LAPOP, 2017) confirmaram uma alta rejeição aos dois maiores partidos políticos do país, o PT e o PSDB; numa escala de 1 a 10, 42,7% das entrevistadas expressaram forte rejeição a petistas e 44,6% a psdbistas. Baseada nesses resultados a dissertação “O que você sente sobre política?: A influência da percepção de ameaça sobre a polarização afetiva no eleitorado”, produzida por Mariana Meneses, analisa como a ideia de ameaça induz à polarização afetiva e aponta que somente a ideologia não é suficiente para explicar discordância no Brasil.

A pesquisa, produzida no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPE (PPGCP), antecipa que situações onde o indivíduo se sente ameaçado levam a um aumento da polarização afetiva em relação a diversos grupos. O estudo tenta antecipar que situações em que o indivíduo se sente ameaçado levam a um aumento da polarização afetiva em relação a diversos grupos. “Essa expectativa se deve a que contextos de ameaça desencadeiam emoções responsáveis por aumentar a necessidade de isolamento do indivíduo, fortalecendo seus laços identitários e, consequentemente, maior etnocentrismo em relação a grupos do qual o indivíduo participa e discriminação em relação aos grupos com os quais ele não se identifica”, diz a pesquisa.

HIPÓTESES | Para testar a veracidade dessa relação, a autora criou quatro hipóteses: 1) a percepção de ameaça econômica aumenta a polarização afetiva em relação aos grupos analisados; 2) a percepção de ameaça física aumenta a polarização afetiva em relação aos grupos analisados; 3) a percepção de ameaça econômica aumenta a polarização negativa em relação aos grupos analisados; e 4) a percepção de ameaça física aumenta a polarização negativa em relação aos grupos analisados.

As hipóteses foram testadas em cinco grupos, sendo eles compostos por pessoas que são a favor da legalização do aborto; que são a favor do regime militar; comunistas; petistas e simpatizantes do PT; e psdbistas e simpatizantes do PSDB. Para chegar aos resultados, Mariana Meneses também utilizou como recorte os perfis que levam em conta a ameaça econômica e física, sexo, idade, conservadorismo, partidarismo, interesse por política, escolaridade, religiosidade e etnia. O trabalho, orientado pela professora Nara Pavão, não consegue testar todas as hipóteses da melhor forma, pois a teoria e os dados disponíveis utilizadas se encontram distantes de alguma forma, mas alguns resultados devem ser salientados.

Segundo a dissertação, a ameaça econômica esteve associada ao aumento da polarização entre os simpatizantes do PSDB, e a ameaça física mostrou-se ligada ao aumento da polarização dos simpatizantes do PT. Ou seja, “o medo de ser vítima de crimes e assassinato esteve relacionado a atitudes mais radicais em relação a pessoas que defendem o PT, enquanto perspectivas negativas sobre a situação econômica individual e do país estiveram relacionadas a sentimentos mais radicais e radicalmente negativos em relação a pessoas que apoiam o PSDB”, detalha a pesquisadora.

ESCOLARIDADE | O estudo também pontua a escolaridade foi um preditor (profetizador) com significância nos modelos de polarização negativa para todos os grupos, com exceção do grupo 1 (pessoas que são a favor da legalização do aborto). “Para os outros quatro grupos, em ambos os modelos de ameaça, indivíduos com maior escolaridade estiveram relacionados a níveis mais elevados de rejeição, ou afeto negativo. Sexo e etnia foram os preditores com menor capacidade explicativa dentre os controles empregados, e a religiosidade, em geral, só pôde ser relacionada à polarização em relação a pessoas que defendem a legalização do aborto (grupo 1)”, aponta a pesquisa.

A pesquisa também oferece perfis com características individuais relacionadas à polarização afetiva no Brasil. Mariana comenta que, “em geral, pessoas mais velhas estão relacionadas a atitudes mais radicais em relação aos grupos, com uma exceção: são os mais jovens que rejeitam mais veementemente defensores do regime militar. Essa é a mesma tendência observada para o interesse por política: em geral, as pessoas com menor interesse em política são as mais polarizadas. Mas isso muda para o caso do grupo 2: quanto maior o interesse em política, maior a polarização em módulo e negativa [ou seja, maior a rejeição] em relação a pessoas que defendem o regime militar”.

A mestra e atualmente doutoranda em Ciência Política também comenta sobre a dificuldade de relacionar a teoria utilizada e o que as variáveis capturaram. “A percepção de ameaça é um conceito de difícil mensuração através de dados secundários e não é possível estimar com precisão o quanto as limitações nessa mensuração impactam sobre os resultados do presente estudo”, afirma. Apesar disso, com base na teoria desenvolvida na dissertação, Mariana e dois coautores vêm trabalhando em um artigo para publicação que olha especificamente para a relação entre o medo de ser vítima de crimes na rua e a polarização afetiva em relação a petistas. Os resultados encontrados, afirma, são promissores e foram discutidos este ano no V Workshop sobre Comportamento Político e Opinião Pública, realizado na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, em março.

(Por Larissa Valentim, do site da UFPE)

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