Matrix 4: um reboot, uma nova fase ou apenas fan service?
Breno Carvalho

Matrix 4: um reboot, uma nova fase ou apenas fan service?

Publicado em 05/03/2020 por Breno Carvalho às 6:30

Antes de mais nada, você tomou a pílula vermelha, meu véi? Vamos conversar sobre um filme que tem gerado muita expectativa e também revolta entre os fãs de uma das franquias mais ‘extrapower do pipoco de zion’. Aclamada pelo público nerd e geek, como também acadêmicos, Matrix Influenciou a cultura pop, a maneira de pensar personagens, coreografias de combate, os efeitos especiais, técnicas de filmagem, e, também, mostrou nas telas do cinema uma reflexão sobre nossa existência. Sim, falo da trilogia de ficção científica idealizada e produzida pelas irmãs Lilly e Lana Wachowski, criadoras de não apenas dos filmes, mas do universo The Matrix.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Uma publicação compartilhada por 🎬 к/т “Юнион” 🎬 (@union_nrb) em


Atualmente, nas redes sociais, é possível observar todo um frenesi de fãs ‘virados na gota serena’ postando imagens e vídeos de cenas do quarto filme, que está sendo rodado na cidade de São Francisco, no norte da Califórnia, Estados Unidos. Alguns gritam de êxtase, outros ficam apreensivos com a possibilidade de ser desintegrado do legado da Matrix. Tome #matrix4! 

Mas falamos de um filme que não chamou atenção do público em sua época, antes de seu lançamento. Falo dos final dos anos de 1990, ‘home-rapaz’. Naquele período, tínhamos pouquíssimos vídeos, imagens. Para ver um trailer, você ralava até ‘perder o couro’ por causa da conexão de internet que era lenta que só ‘a murrinha’. Poucos ‘cabras da peste’ e ‘marias bonitas’ passavam horas na frente do PC para esperar o carregamento do ‘danado’ do vídeo, muitas vezes no formato .MOV e, assim, poder assisti-lo, isso tudo fazendo figa, meu véi. Era o mundo em 1999, monitores de tubo, sem Google, Youtube, Facebook ou Instagram, você precisava ser nerd com ‘mindset elevado ao cosseno de teta’ para navegar na web e encontrar assuntos ou conteúdos interessantes, principalmente os que eram extrapowers. 

The Matrix foi lançado no dia 31 de março de 1999, nos Estados Unidos, e posteriormente, em 21 de maio do mesmo ano no Brasil. Antes da estreia não havia publicação de postagens, comentários nos aplicativos de ICQ ou MSN Messenger na quantidade que vemos hoje. Falo de uma época em que ainda nem existia o hoje falecido Orkut. Não haviam fãs antes do lançamento, e muitos dos possíveis adoradores foram ver a película de tons esverdeados sem pretensão alguma. Eu fui um deles. 

Keanu Reeves não tinha a fama que possui hoje, uma imagem que foi explorada até no filme Sonic (2020). Falando nos Games e no Oscar, os danados estão tirando uma casquinha ‘da cebola’ da ‘aura’ e do ‘Chi’ do ator (Se não tomou a pílula vermelha, vá tomar para continuar lendo). Acredito que é a única pessoa que encarnou dois personagens que não existiam nos quadrinhos nem em livros, filmes e que viraram marca. Os dois personagens, interpretados por Reeves, estão sendo usados em todo tipo de produto off-line e on-line: Neo, da trilogia Matrix, e John Wick, da franquia de mesmo nome.

Keanu Reeves como Neo em Matrix, John Wick no game Fortnite, Johnny Silverhand no jogo Cyberpunk 2020

 

Mas o que esperar de The Matrix 4, depois do que ocorreu no final da trilogia? Cuidado com spoiler do último filme (pois ainda tem pessoas que podem não  ter assistido, de maneira inacreditável). Em Matrix Revolutions (novembro de 2003), Trinity (Carrie-Anne Moss) morreu e Neo ficou cego no mundo real. Os dois são os únicos a verem o brilho do sol acima das nuvens, pois a natureza tinha sido completamente devastada pelas guerras entre os humanos e as máquinas antes da criação da primeira versão da Matrix. 

Neo na cidade das Máquinas em Matrix Revolutions

 

Ele negociou a paz entre humanos e as máquinas com o Deus Ex Machina, uma espécie de interface central da Cidade das Máquinas. Para isso Mr. Anderson (Neo no mundo real) prometeu que acabaria com o vírus do agente Smith dentro da Matrix. Neo consegue vencer a luta sem usar os golpes e poderes ‘sobrenaturais’ que ele tem dentro do Sistema. Simplesmente cria uma conexão direta de Smith com o Deus Ex Machina. No final do terceiro filme (na verdade a última parte do segundo), aparentemente Mr. Anderson morre e é levado para algum lugar na cidade das máquinas, conseguindo criar um bug inesperado no processo de ‘looping do infinito’ da Matrix. Traduzindo, ele libera humanos e reinicia o sistema de forma diferente do programado pelas máquinas.

Muitos não gostaram do final, eu particularmente não gostei tanto, mas entendi que o herói só é visto assim porque se doa por uma causa maior, e Neo terminou optando em salvar a humanidade, pois seu amor já tinha falecido. Mas poderia ter sido diferente, poderia ser do tipo ‘eu sou Neo’. 

Isso se torna até contraditório, pois ele causou um problema inédito no Sistema por renegar seu papel de escolhido para salvar a humanidade, optando por evitar a iminente morte de Trinity em Matrix Reloaded (maio de 2003). Sim, pense numa ‘mulé virada no mói de coento’ a Trinity, tinha esse negócio de depender de homem não: bonita, inteligente, hacker, pilota de moto e helicóptero, mestra em arte marcial, subcapitã da Nabucodonosor, pense numa extrapower, que ‘dá um caldo’ nos inimigos e policiais logo nas primeiras cenas do filme de 1999.

Trinity em uma das cenas emblemáticas de Matrix

 

Nas teorias desenvolvidas por fãs da franquia, uma delas narra que tudo que vimos relacionado ao mundo real é, na verdade, outra camada da Matrix, ou seja, os humanos não acordaram, continuam fazendo aquilo programado pelas máquinas. Essa teoria estabelece um pensamento de que as máquinas, no esforço de aperfeiçoar o programa de controle da humanidade, teriam percebido que seria necessário uma simulação de uma versão da realidade para que alguns homens e mulheres, os dissidentes, pudessem achar que conseguiram sua liberdade, habitando a cidade de Zion e, desta maneira, terminaram por ajudar na atualização da Matrix. Seria por isso que Mr. Anderson conseguia parar e destruir as Sentinelas, robôs sanguinários e espiões na imensidão do mundo real, o simulacro, o Escolhido já tinha um caminho a seguir.  

Entretanto, mesmo achando isso possível, discordo da hipótese, pois em nenhum momento da franquia, incluindo outro material desenvolvido pelo universo da Matrix, apresenta esta narrativa, a exemplo do episódio ‘O segundo renascer – Partes 1 e 2’, uma das animações da coleção Animatrix (2003). Acredito que por mais que as máquinas tentem entender os humanos, há algo de inexplicável, de irracional, de não lógico na natureza, na essência da vida, e este fato já fora compreendido pelas máquinas, pois haviam projetado cinco versões da Matrix. Outro ponto é que Neo não fez a jornada messiânica delegada ao Escolhido, ele não deu um reboot na Matrix, mas teria salvo as próprias máquinas de um colapso do sistema, infectado pelo Smith.  

A partir das gravações de cenas postadas na web, principalmente no Instagram, é possível notar Neo, no mundo da simulação, de barba, mais velho e andando na rua como se fosse um andarilho qualquer. Creio eu que o Escolhido apenas entrou em um coma profundo em Matrix Revolutions e, após acordar, deve ter negociado com as máquinas para reintroduzir uma versão do ‘eu digital’ da Trinity no sistema ou até mesmo de ser recriado um corpo para introduzir as ‘memórias’ de sua amada, justificando a personagem no elenco e nas aparições nas cenas.

Uma das postagens mostra duas pessoas voando pelos prédios, o que poderia ser Neo treinando um novo Escolhido, que agora saberia a ‘verdade’ que Morpheus não conhecia e não quis compreender. Na trama, a paz que está pairando no universo deve ser comprometida pelos humanos, pois, infelizmente, é a raça que incita todo o caos da guerra, culminando na criação da Matrix e na escravidão da humanidade para servir de baterias às máquinas. 

 

Ver essa foto no Instagram

 

Uma publicação compartilhada por Michele (@cosplaymike) em

Outra ‘viagem do bagulho’, caso bebemos da tese que a realidade é outra camada da Matrix, Mr. Anderson teria de fato acordado do sono profundo, conhecido a realidade mais trágica de que os humanos e ele mesmo entenderá isso: o que existe é uma simulação da simulação, um sonho dentro de outro, como na animação Paprika (2006), de Yasutaka Tsutsui. Dessa maneira, ele não estava cego, Trinity não teria morrido e pode até ser que ele nunca tenha conhecido o próprio Morpheus. A partir disso, Mr. Anderson ou Neo seria o Escolhido não pelas máquinas e começaria sua saga de reunir os desertores para, de fato, aniquilar com a Matrix. Pense numa pílula vermelha da ‘gota serena’!

Cena da animação Paprika

 

Não há registros do que será a trama, mas como os lançamentos dos filmes Matrix 4 e John Wick 4 será no mesmo dia, seria muito interessante perceber que o universo de John Wick nada mais é que uma simulação da própria Matrix.

Para continuar lendo:
Tenha acesso a 5 textos
gratuitos todo mês
Cadastre-se gratuitamente »
Aproveite todo conteúdo da Revista Algomais sem limites
Assine »