Cidade para carros ou para pessoas?

Cidade para carros ou para pessoas?

Publicado em 14/04/2018 por Revista algomais às 14:00
Melhoria da qualidade de vida urbana exige novo modelo para o transporte. Acima, o quadro Exílio, de Luiz Rangel.

O Recife está há alguns anos entre as cidades com mais congestionamentos do País. Pesquisas, como a da companhia holandesa TomTom, apontam o trânsito da capital pernambucana como o 8º pior do mundo. Um cenário que na avaliação dos especialistas só será revertido com a valorização do transporte público e o desincentivo ao uso de veículos particulares. A relação entre a priorização dos modais de deslocamento coletivos e a qualidade de vida nas cidades é o tema da série Transporte Público e Cidadania, que iniciamos nesta edição da Algomais.

Com o crescimento de renda da população no início desta década, a chamada nova Classe C passou a adquirir automóveis e motos. Fenômeno que foi freado com a crise econômica que o País atravessa, mas que deixou sequelas. “Em busca de uma situação mais confortável, as pessoas substituem o transporte público pelo individual, aumentando ainda mais os congestionamentos. Isso amplia o tempo nos deslocamentos, que é ruim para o cidadão e para o País”, aponta a pesquisadora da FGV Energia Tamar Roitman.

De acordo com levantamento do Numbeo, portal especializado em comparar indicadores de metrópoles do mundo, a média de tempo de viagens no Recife é de 55,6 minutos, a pior do País. “A cidade acabou para o carro. A situação do trânsito não está pior porque a situação econômica reduziu a vendas de automóveis e a circulação de veículos. Mas, com a economia melhorando, há uma tendência dos congestionamentos aumentarem ainda mais”, aponta Sidney Schreiner, diretor executivo de planejamento da mobilidade do Instituto da Cidade Pelópidas Silveira.

Para superar o desperdício de tempo e de desgaste físico e mental da população nos engarrafamentos, o caminho traçado pelo poder público no Plano de Mobilidade Urbana do Recife é desestimular o uso de automóveis. “Os projetos do plano vão trazer uma indicação muito forte para a priorização do transporte coletivo (ônibus e metrô) e ativo (a pé e bicicletas)”, apontou Schreiner. De acordo com a última pesquisa Origem e Destino da cidade, 70% da população tem esses modais como principal forma de deslocamento para o trabalho, sendo que 71,7% desses são usuários do sistema de ônibus.

A Prefeitura do Recife e o Governo do Estado fizeram investimentos para aumentar a velocidade dos coletivos. A PCR implantou 58 quilômetros de vias exclusivas de ônibus, as chamadas faixas azuis. De acordo com a CTTU (Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife), o melhor desempenho delas está na Avenida Herculano Bandeira, onde o aumento da velocidade dos coletivos chegou a 118% após a instalação da medida. Já o governo instalou o BRT que, somando os dois ramais, tem 25,3 quilômetros de vias reservadas a esses veículos, tendo alcançado um ganho de velocidade entre14% e 17%.

A aposta nas faixas azuis e o trabalho de controle urbano em pontos críticos da cidade, como as feiras públicas, são os dois trabalhos destacados pelo secretário de Mobilidade do Recife, João Braga. “Há um grande esforço no sentido de melhorar a qualidade do serviço e o tempo de viagem do transporte público. Temos discutido com as diversas comunidades para estabelecer ações que melhorem a fluidez dos ônibus”, ressalta.

O secretário destaca o desafio de conscientizar a população. “Todo avanço para o transporte público gera uma reação. A maioria das pessoas tem carros hoje. Por outro lado, aumenta a pressão pela ampliação das faixas exclusivas. Mas a cidade precisa privilegiar quem transporta mais gente”, pondera Braga.

Essa disputa gerou recentemente a proposta de uma comissão de vereadores do Recife para que a faixa azul da Avenida Antônio de Góes, na Zona Sul, fosse compartilhada com carros nos horários de pico. A sugestão foi negada pela CTTU, baseando-se no fato de que após a restrição do trecho para veículos individuais a velocidade dos coletivos aumentou em 35%.

Além da supressão de faixas para os carros, há diversos instrumentos utilizados nas grandes metrópoles do mundo para reduzir a circulação do transporte individual, como a diminuição de vagas de estacionamentos públicos, rodízio de carros e até a instituição de tarifas de congestionamento (conhecidos como pedágios urbanos). No Recife, o Plano de Mobilidade prevê a pedestrianização de algumas vias. “O primeiro passo é focar na qualidade do sistema, investindo na eficiência e qualificação dos veículos, com ar-condicionado, wi-fi e acessos com piso baixo, por exemplo. Os resultados não serão instantâneos. Esse é um processo de médio prazo para gerar uma migração do transporte individual para o coletivo”, diz Schreiner.

Na próxima edição trataremos do impacto na saúde das pessoas provocado pelo atual modelo de transportes, ancorado nos veículos individuais e movido a combustíveis fósseis.

*Por Rafael Dantas, repórter da Revista Algomais (rafael@algomais.com)

 

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