O trânsito que adoece as cidades

O trânsito que adoece as cidades

Publicado em 09/05/2018 por Revista algomais às 17:17
Azáfama - do artista plástico Luiz Rangel

Contemplar a obra Azáfama, do arquiteto e artista plástico Luiz Rangel, nos remete velozmente aos dias em que seguimos estressados no lento tráfego das metrópoles. O estresse de atravessar a Avenida Agamenon Magalhães, travada nos horários de pico; a lembrança dos inúmeros acidentes com vítimas; e o aspecto cinzento da poluição atmosférica dos carros e motos compõem esse cenário que mata e adoece as cidades.

Um quadro pintado pela maioria dos municípios brasileiros que fizeram opção pelo veículo motorizado individual como principal modal de transporte. Um contexto, porém, que está sendo rediscutido por especialistas, poder público e pela sociedade civil organizada em busca de soluções.

“Os engarrafamentos levam ao aumento do tempo de transporte, o que afeta o organismo, pois geram ainda mais emissões de poluentes. Aproximadamente 40% desses gases vêm dos veículos. Quem está no trânsito por mais tempo fica exposto às piores condições de saúde”, aponta a pesquisadora da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Tamar Roitman. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), uma a cada nove pessoas morre no mundo devido à poluição atmosférica. No Brasil, a cada 100 mil pessoas, 14 tem mortes ligadas à poluição do ar.

As alternativas apontadas pela especialista para reverter essa situação seriam os veículos movidos a biocombustíveis, que são mais limpos, e a priorização do transporte público. “O uso de biocombustíveis é importante para o País, devido à nossa capacidade de produção. É preciso também reduzir o número de automóveis nas ruas. É muito ineficiente ter um carro com uma única pessoa, por exemplo”, explica Roitman. Ela lembra que os veículos elétricos são tendência no mundo, mas sua disseminação é lenta.

O adoecimento da população não acontece apenas pela poluição. O tempo desperdiçado nos congestionamentos e a violência no trânsito expõem motoristas, ciclistas e pedestres a um nível de estresse que interfere na qualidade de vida e na produtividades. Estudo do Ministério de Educação e Pesquisa da Alemanha e do Hospital Universitário da Universidade de Duisburg-Essen aponta que o estresse no trânsito intensifica as dores de cabeça. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação indica que essa tensão das avenidas brasileiras provoca distúrbios fisiológicos e psicológicos.

Daniel Valença, representante do GT de Mobilidade do Observatório do Recife e coordenador da Ameciclo (Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife), destaca ainda que ao trocar os deslocamentos a pé, de bike e de transporte público pelos veículos particulares, há uma redução da atividade física das pessoas que se tornam mais sedentárias. “Para mudar esse cenário é preciso estímulo aos transportes ativos, que diminuem a poluição e fazem com que a população caminhe. Isso reduz também a carga de estresse diário.”

Valença destaca que, apesar da situação negativa da mobilidade, a disposição da população em deixar o carro, caso tenha outras alternativas qualificadas, aponta para um horizonte mais otimista. “Hoje apenas 17% dos motoristas relutariam a sair do carro a qualquer custo. A maioria da população mudaria o seu modal de transporte. Mas para isso é preciso investir na infraestrutura para que as pessoas se sintam seguras e deixem seus carros em casa”, diz. Em relação ao apoio aos ciclistas, ele informa que a principal demanda é pela construção de ciclovias, com estrutura segregada dos veículos motorizados, seguindo as orientações do Plano Cicloviário da Região Metropolitana do Recife.

Outro fator que põe em cheque o atual modelo de transporte são as mortes pelos acidentes de trânsito. Só em 2014 foram 560 mortos no Recife, quase o mesmo número de homicídios por arma de fogo naquele ano. Isso torna o trânsito da capital pernambucana um dos mais violentos do País. A imprudência dos motoristas é a principal causa dos acidentes com óbitos e feridos na cidade, de acordo com o diretor de educação no trânsito da CTTU, Francisco Irineu. “Apesar de termos diminuído o índice de violência no trânsito em 30% entre 2012 e 2016, percebemos que há ainda uma incidência grande, principalmente entre os motociclistas”, afirma o diretor.

Frente ao cenário agravante de insegurança no trânsito, há um esforço de conscientização dos motoristas neste mês, com o Maio Amarelo, realizado pelo poder público em parceria com instituições da sociedade civil organizada. A programação conta com Blitz Educativa sobre a Lei Seca, voltada para motociclistas; ações nos estacionamentos para destacar sobre o respeito à vaga de pessoas com necessidades especiais; entre outras iniciativas de orientação para motoristas e pedestres. Na próxima edição da série sobre transporte e cidadania, abordaremos os quatro anos de instalação do BRT.

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