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No século do automóvel
Leonardo Dantas Silva

No século do automóvel

Publicado em 16/11/2021 por Revista algomais às 4:05
A família do médico Adolfo Silva Filho, de Caruaru, fotografada em um carro Ford, modelo T, ao lado do seu compenetrado “chauffeur”.

Nos primeiros anos do Século 20, vivia-se em Pernambuco um período de relativa paz e progresso, particularmente no Recife, vendo o movimento das obras do seu porto, iniciadas em 29 de julho de 1909.

As obras, orçadas em 54.242:838$000 e confiadas à companhia francesa Societé de Construction du Port de Pernambuco, arrastaram-se ao longo dos anos com sucessivas interrupções. O Porto do Recife que, em 1899, recebera 1.616 embarcações, num total de 1.200.650 toneladas e 9.748 passageiros, era o maior anseio da população, tendo a notícia da assinatura do contrato de construção, em 4 de agosto de 1908, sido motivo de grandes festas.

A conclusão de suas obras, porém, só foi efetivada em 15 de abril de 1922, quando o Arlanza, transatlântico inglês de 14 mil toneladas, atracou no seu ancoradouro interno. As obras do Porto do Recife, fizeram passar o bairro portuário por uma grande reforma urbana: seculares prédios, testemunhas do crescimento do velho burgo desde os primeiros anos da colonização, alguns até da primeira metade do Século 16, foram demolidos cedendo lugar às novas avenidas e ruas do novo traçado.

Com tais demolições também sumiram da paisagem em 1917, a igreja do Corpo Santo (Século 16), cujos primórdios datavam dos primeiros anos da colonização, e duas das primitivas portas da cidade, os arcos de Nossa Senhora da Conceição e de Santo Antônio, que se erguiam nas cabeceiras leste e oeste, respectivamente, da atual ponte Maurício de Nassau.

A cidade tomava novos aspectos. Nas ruas já corriam automóveis; o primeiro fora trazido, em 1904, da Europa, pelo médico Otávio de Freitas, sendo de marca Renault, iluminado à luz de carbureto e com a alavanca de marcha do lado externo.

Desde 1903, a partir 23 de março, o Recife estava ligado a Goiana por um carro ônibus que fazia o percurso com “pouco mais de oito horas”. Os carros de aluguel, precursores dos nossos táxis, só vieram a aparecer em 1919, sendo pertencentes às Garagens Ford e União.

Com o automóvel nas ruas surgiram os atropelamentos, como aquele acontecido na Rua Barão da Vitória (hoje Rua Nova), em 7 de novembro de 1915, com o saldo de um morto e quatro feridos.

A paisagem urbana foi-se modificando, com o desaparecimento dos bondes de tração animal, puxados por burros e que aqui circulavam desde 1870, substituídos por elétricos, cuja primeira linha foi inaugurada a 13 de maio de 1914, ligando a Praça Rio Branco à Maciel Pinheiro.

Na verdade, o século 20 veio a ser conhecido como o “Século do Automóvel”. A invenção foi elitizada com o aparecimento de novos adeptos, inclusive o governador Dantas Barreto em 1911, mas logo popularizada com os primeiros veículos de aluguel, em 1920, de propriedade das garagens Ford e União. O usuário pagava o preço de dez mil réis na primeira hora, decrescendo proporcionalmente para sete mil réis para quarta meia hora. O taxímetro dos nossos dias é invenção dos anos 1950. As ruas começaram a se adaptar para receber a nova invenção. A mão única, já conhecida no Recife desde 1864 quando foi assim considerado o tráfego na ponte da Boa Vista, passou a ser uso frequente em várias de nossas estreitas ruas, onde não mais era permitido o trânsito dos carros de bois (1905), sendo demolidos os pequeninos prédios da Praça da Independência.

Em 1974, numa consulta ao Departamento de Trânsito, recebi a informação que circulavam no Recife 82.486 veículos matriculados, sendo 5.870 táxis, 6.899 caminhões e 69.717 entre automóveis, ônibus e utilitários.

Em 2012 o número de veículos matriculados na cidade do Recife era de 598.433, dos quais 378.540 são automóveis, seguindo-se de 78.029 de carga e 78.029 de passageiros e 114.399 motocicletas.

*Leonardo Dantas Silva é jornalista e pesquisador

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