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Entrevista com Jessica Simon: cônsul-geral dos EUA fala sobre a agenda diplomática para o Nordeste
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Entrevista com Jessica Simon: cônsul-geral dos EUA fala sobre a agenda diplomática para o Nordeste

Publicado em 17/11/2021 por Revista algomais às 19:00

Jessica Simon, cônsul-geral no Consulado Geral dos Estados Unido no Recife e Senior Fellow do Iperid, fala nesta entrevista sobre a sua agenda de trabalho na região Nordeste e destaca algumas das prioridades diplomáticas do Governo Biden desde o início do seu mandato. Há pouco mais de um ano na capital pernambucana, a cônsul-geral comenta também sobre algumas parcerias firmadas nesse período, mesmo com as restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus. O combate às mudanças climáticas, a defesa do meio ambiente e o enfrentamento da Covid-19 estão na agenda do dia do governo americano e do consulado, que tem interesses também em pautas como o fomento às energias renováveis, infraestrutura e tecnologia.

 

Na sua visão, quais as principais agendas globais no cenário pós-pandemia?

O mês de setembro marcou meu primeiro ano como cônsul geral dos Estados Unidos no Recife. E desde que cheguei ao Consulado Geral no Recife, temos feito um trabalho extraordinário em diversas áreas: apoiando a promoção dos direitos humanos com parceiros locais; trabalhando para ampliar laços comerciais entre os Estados Unidos e o Nordeste do Brasil; e dando suporte à agenda do presidente Biden, como o combate à mudança climática e proteção ao meio ambiente. E isso inclui apoiar empresas e governos a estabelecer boas práticas socioambientais. Nós também criamos a Parceria Nordeste para destacar o trabalho que tem sido desenvolvido na região.

E é claro, uma das prioridades da Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil é o combate à Covid-19. Temos trabalhado e conversado com governos estaduais e municipais no Nordeste e fornecemos dezenas de milhares de equipamentos médicos e cestas básicas para parceiros em Pernambuco e no Ceará; e de um hospital de campanha com capacidade para 40 leitos para a cidade de Bacabal, no Maranhão. Além das ações nacionais, como a doação de três milhões de doses da vacina Janssen ao Brasil.

Nossa atuação é em oito estados do Nordeste: Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Maranhão, Piauí, Alagoas e Sergipe. E, durante a pandemia, seguimos todos os protocolos determinados pelos governos locais e adaptamos nosso trabalho, assim como todos tiveram que fazer. Com reuniões online e poucas viagens ou encontros presenciais, conseguimos dar continuidade às nossas atividades e debater assuntos que são relevantes para os EUA e para o Brasil. Destaco a recuperação econômica, promoções de negócios e a promoção dos direitos humanos.

Nossa ações na preservação ao meio ambiente e combate às mudanças climáticas são importantes assuntos para o presidente Biden, que nomeou John Kerry como enviado especial para o Clima e que já participou de encontro virtual com governadores brasileiros. Dentre os participantes do encontro, em que foram discutidos temas como redução de CO2, estavam o governador do Maranhão, Flávio Dino, e o governador do Piauí e presidente do Consórcio Nordeste, Wellington Dias. Esperamos sempre que conversas como essa gerem intercâmbio de conhecimento e projetos que sejam relevantes para os dois países.

Como Pernambuco e o Recife poderiam se beneficiar mais da presença consular tão forte na capital?

É a segunda vez que moro e trabalho no Brasil como diplomata americana. Tenho consciência e respeito pela longa e rica história da presença americana em Pernambuco, onde se estabeleceu a primeira presença diplomática dos Estados Unidos no Brasil em 1815. Nossa sede se localiza no bairro da Boa Vista, no Recife, há mais de 50 anos – e confesso que fiquei feliz ao saber que as pessoas se referem a Rua Gonçalves Maia como “a rua do consulado”. Tudo isso mostra como temos raízes fortes com a população e com o estado de Pernambuco. Somos o mais antigo e o maior consulado no Nordeste do Brasil, o que demostra nosso comprometimento e importância da região para os EUA.

Mas tenho que dizer que nosso objetivo é trabalhar sempre com todos os estados que fazem parte do nosso distrito consular. É por isso que criamos a Parceria Nordeste, uma iniciativa que reforçam nosso comprometimento com os oito estados nordestinos onde trabalhamos. Reforço que a pandemia não nos impediu de continuar estabelecendo parcerias e dialogando com representantes dos governos, sociedade civil, organizações não-governamentais e instituições educacionais. Posso citar alguns exemplos, como os memorandos de entendimento assinados com os governos de Pernambuco ou da Paraíba; ou programas da área de educação e empreendedorismo, como o curso online American English Experience, e a Academia para Mulheres Empreendedoras (AWE).

Mas, (risos) quando reuniões presenciais são possíveis, o recifense tem o benefício de estar fisicamente mais perto para tomar um cafezinho comigo. Também estão mais perto do nosso escritório do Serviço Comercial, cuja algumas das áreas de atuação no momento são produtos e equipamentos do setor de Saúde, Tecnologia da Informação e energia renovável.

Quais os principais projetos ou planos do Consulado Americano no horizonte até 2022?

Já citei alguns assuntos importantes na agenda dos EUA no Brasil, mas quero reforçar que também temos interesse nas áreas de infraestrutura que abrange portos, aeroportos, água e saneamento; 5G e inovação. Gostaríamos de ampliar as parcerias com o Nordeste para lidar com as preocupações ambientais na região, incluindo a sustentabilidade dos biomas da Caatinga e do Sertão. Os investimentos em geração de energia solar e eólica é de interesse mútuo e o mercado americano está pronto para fornecer a tecnologia necessária para ajudar o desenvolvimento do setor na região.

E queria dar um exemplo, no setor de inovação, de colaboração com uma instituição pernambucana. Ajudamos a viabilizar a doação ao Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) de um protótipo de equipamento da empresa americana Wave Water Works, especializada em tecnologia de geração de energia através das ondas do mar. O processo contou com o trabalho também da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) e do Porto de Suape, onde em breve o equipamento deve ser instalado. Nos orgulhamos de ter fortes parcerias locais, como o Porto Digital e CESAR na área de tecnologia, e queremos ampliar o diálogo para que novos laços sejam estabelecidos.

Também temos um leque amplo de programas em educação e cultura. Um dos focos atuais é uma parceria para apoiar a internacionalização do ensino dos Institutos Federais. Através da iniciativa Pontes Americanas, a Embaixada e Consulados dos Estados Unidos no Brasil e o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif) estão trabalhando juntos para ampliar informações sobre o estudo nos Estados Unidos, facilitar o acesso das instituições aos centros de aconselhamento EducationUSA.

Qual a sua visão sobre o trabalho do Iperid?

Relações internacionais e diplomacia parecem assuntos distantes para a maioria da população. Por isso considero o trabalho do Iperid de extrema relevância para que a reflexão sobre esses tópicos, através de think tanks ou de eventos, estejam sempre presentes no Recife. Parabenizo a todos que fazem parte do Iperid e que constantemente organizam encontros que facilitam o debate sobre fatos e acontecimentos no mundo impactam a vida de todos. Um tópico que gostaria de incluir nas próximas pautas é liderança feminina e os desafios da mulher na diplomacia. Assuntos como equidade de gênero e diversidade precisam estar mais presentes em discussões sobre qualquer área da sociedade.

Quais as perspectivas de futuro podemos esperar para o Iperid?

Com certeza muitos debates e conversas sobre como ampliar o conhecimento na área de Relações Internacionais e Diplomacia. É do encontro com lideranças, pensadores, estudantes e acadêmicos que surgem novas ideias, projetos e identificação de valores em comum. Acredito que é a partir do diálogo e da troca de conhecimentos que podemos avançar juntos.

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*Por Rafael Dantas, repórter da Revista Algomais (rafael@algomais.com)

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