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Posso empreender durante a crise? Confira a entrevista com Tiago Siqueira
Rafael Dantas

Posso empreender durante a crise? Confira a entrevista com Tiago Siqueira

Publicado em 02/04/2021 por Revista algomais às 6:25
Consultor e sócio da TGI comenta sobre os empreendimentos que nasceram durante a pandemia, aponta os riscos de abrir um negócio neste período e dá dicas de como enxergar boas oportunidades.

Momentos de crise são ocasiões interessantes para empreender? Essa pergunta não tem uma resposta fácil. Ao mesmo tempo que em um período como o atual muitas oportunidades se abrem diante de novas demandas dos consumidores, diversos riscos também se acentuam com o elevado índice de desemprego, a redução do poder de consumo das pessoas e com a instabilidade do cenário socioeconômico.

Para tratar sobre empreendedorismo durante a crise, conversamos com o consultor e sócio da TGI Tiago Siqueira. Ele trata também sobre o que o empreendedor deve fazer para organizar os negócios que nasceram diante da pressa de gerar renda.

Muitas pessoas empreendem por necessidades em momentos de crise, como a atual. O que um empreendedor que iniciou os negócios às pressas deve fazer para amadurecer sua pequena empresa e garantir uma maior longevidade? 

Num momento de crise, como essa de proporções abissais que estamos vivendo atualmente, alguma pessoa que tenha decidido empreender “às pressas”, possivelmente, deve ter sido afetada por essa crise, como por exemplo, ter ficado desempregada. E, por razões óbvias de sobrevivência, acabou levando-a a abrir algum negócio no mercado.
Da mesma forma, por conta do momento atual de crise, empresas já existentes no mercado também podem ter sentido a necessidade de se reposicionarem urgentemente (ou seja, “às pressas”), para poder se manter no mercado, forçando o empresário (que é um empreendedor) a reavaliar o seu produto ou serviço e, com isso, precisar reposicionar o seu negócio (empreendendo novas ideias) para também garantir a sua sobrevivência no mercado.
Em qualquer uma dessas duas experiências (que tenho certeza de que foram bastante recorrentes ao longo de todo esse período de pandemia), é preciso amadurecer o negócio (ou uma nova ideia) para potencializar a sua longevidade. E para isso, o fator emoção, muito movido pela situação em que o empreendedor (ou a empresa) se encontrava no momento da decisão de iniciar um negócio (ou reposicioná-lo), deve ser diminuído para que o empreendimento não seja puxado por uma reação à crise, mas sim por uma oportunidade de negócio identificada diante dela.

Uma vez investido na viabilização desse negócio, há questões fundamentais para serem consideradas: a primeira é ter clareza do que se quer para poder iniciar o negócio (onde vai atuar, que clientes vai buscar e de que forma vai atrai-lo, quais serão os seus diferenciais competitivos, com que qualidade vai entregar o seu produto ou serviço etc.). Além disso, faz-se fundamental construir a estratégia empresarial (para dar visibilidade sobre o futuro a conquistar) e formular um planejamento financeiro adequado para a realidade da empresa, sobretudo considerando esse momento de crise, em que a economia está bastante afetada.

Muitas pessoas tiraram alguns planos antigos de empreender do papel nesse período de crise. Quais as vantagens e desvantagens de iniciar um negócio em um período como o atual?

E muitas pessoas também engavetaram novamente planos e ideias que estavam programando empreender, mas que por conta da crise foram forçadas a guardar novamente para investir mais para frente.
Entender a situação que todos estão vivendo é fundamental. É essencial também compreender que fazemos parte de um sistema e que há a interdependência na cadeia produtiva e de fornecimento. Então, por exemplo, se desconsideramos o nosso fornecedor ou se apertamos o nosso cliente, possivelmente não teremos sucesso no nosso empreendimento. É preciso que todos se deem as mãos em momentos como esse para poder sair bem dessa crise.
Vantagens e desvantagens vão depender de cada realidade. Penso que esses atributos não serão comuns a todos os segmentos de negócio. Há singularidades em cada negócio que precisam ser consideradas. Mas, no geral, sobressairá aquele empreendedor que conseguir entregar o seu produto ou serviço com competência para o seu cliente a preços competitivos, considerando o momento de dificuldade atual. E entrará em desvantagem aquele que, exatamente por conta da pandemia, for afetado de alguma forma impactando na relação com o seu cliente (exemplos: falta de insumos na cadeia de fornecimento ocasionando em atrasos na entrega, preço não conseguindo ser compatível com a realidade atual, entre outros).

Algumas empresas ou empreendedores criaram negócios a partir de oportunidades que nasceram nas necessidades do período atual. Algumas empresas criaram suportes para dispênseres de álcool 70, como tótens, e muitas costureiras desempregadas passaram a fazer máscaras, por exemplo. Que dica você daria para que os empreendedores enxerguem oportunidades como essas, que nascem das necessidades da população?

Ficar atento à dinâmica do mercado. Observar o que as pessoas estão precisando ou mesmo provocar uma nova necessidade de consumo nas pessoas. Pensar fora da caixa. Ser provocado a ver coisas e experiências diferentes para criar ideias inovadoras. Conversar com pessoas. Pesquisar. Estudar.
Grandes oportunidades aparecem muitas vezes a partir de ideias ou de conversas aparentemente simples. Então, assim como essas experiências bem sucedidas na crise que foi citada na pergunta, uma infinidade de outras podem aparecer no dia a dia.
Por exemplo, eu assisti uma reportagem que apresentava a criação de um empreendimento inovador, cuja ideia apareceu a partir da observação do que estava acontecendo no mercado local. Foi o seguinte: por conta da crise e do alto índice de desemprego, em determinado conjunto habitacional no Recife, vários moradores começaram a vender produtos e serviços que sabiam fazer para a própria comunidade (bolo, salgadinho, quentinhas; serviços de encanamento, elétrica, reforma, faxina etc. Cada morador fazendo alguma coisa diferente). Aí veio outro morador, observando essa nova forma de relacionamento comercial na vizinhança, e teve a brilhante ideia de construir um aplicativo para que todas essas pessoas anunciassem seus produtos ou serviços por ele. Isso fez com que várias dessas pessoas ganhassem mais visibilidade e espaço e, com isso, passaram a profissionalizar os seus pequenos negócios.

O fechamento de várias empresas na atual crise deixa um “vácuo” de oportunidades para empreendedores interessados em investir?

Sim. Várias empresas fecharam muito por conta da dificuldade financeira para continuar sobrevivendo ou mesmo pelas dificuldades de gestão que, por conta da crise, algumas questões ganharam mais força e acabaram inviabilizando essas empresas. Mas isso não significa necessariamente que o produto ou serviço dessa empresa tenha perdido espaço no mercado e interesse do cliente por conta da crise.
Então abre sim oportunidades para empreendedores investirem nesse mercado. Serão novos entrantes assumindo um mercado já existente, com um ambiente concorrencial extremamente afetado pela crise. Além disso, esses empreendedores podem iniciar o negócio trazendo inovações, despertando ainda mais o interesse do mercado.

*Por Rafael Dantas, repórter da Revista Algomais
(rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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