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“Usinas solares e eólicas podem viabilizar desenvolvimento das áreas secas do Nordeste”
Rafael Dantas

“Usinas solares e eólicas podem viabilizar desenvolvimento das áreas secas do Nordeste”

Publicado em 04/05/2021 por Revista algomais às 17:15
Sérgio Xavier avalia momento dos investimentos em novas matrizes energéticas e aponta os potenciais do semiárido nordestino. Apesar dessa região atravessar um difícil processo de desertificação, a chegada de usinas solares e eólicas pode viabilizar recursos e oportunidades para o seu desenvolvimento.

Chegou o momento das matrizes renováveis e sustentáveis assumirem o protagonismo da produção de energia no Brasil e no mundo? Sérgio Xavier, ex-secretário de meio ambiente e sustentabilidade de Pernambuco e articulador da iniciativa Governadores Pelo Clima, do Centro Brasil no Clima (CBC), avalia que as políticas anunciadas pelo presidente norteamericano Joe Biden devem acelerar essa trasição. O Brasil e o Nordeste tem grandes oportunidades a partir dessa transformação que o mundo deverá passar nos próximos anos. Sérgio foi um dos especialistas consultados na última edição da Revista Algomais. Publicamos hoje a íntegra da entrevista concedida ao repórter Rafael Dantas.

 

Quais as perspectivas para o avanço das energias renováveis a partir desse compromisso do Joe Biden de acelerar os investimentos no setor em um prazo tão curto? Esse movimento de lá pode incentivar o crescimento no Brasil do uso de mais fontes renováveis?

As políticas anunciadas por Biden vão impulsionar rapidamente uma economia de descarbonização no mundo. O Brasil, que possui um gigantesco potencial de energias limpas, poderá se beneficiar se o Governo Federal ajustar imediatamente as políticas públicas para fortalecer as fontes renováveis, como eólica, solar e BioCombustiveis, e planejar uma transição justa e harmônica da velha matriz fóssil, que queima diesel, gasolina e carvão, para novos modelos sustentáveis.

Esse processo vai ter impactos positivos inclusive na saúde. Ao contrário das fontes fósseis que, segundo a OMS, matam mais de 7 milhões de pessoas por ano com a poluição das cidades e está nos levando ao inferno climático, as fontes limpas evitam poluições e deixam ar mais puro.


A carta do movimento dos Governadores pelo Clima é um esforço para se comunicar com o governo americano, frente à dificuldade do Governo Bolsonaro representar a agenda climática do País? Quais os resultados esperados desse movimento?

Diante das urgências sociais e climáticas e da necessidade de aproveitar oportunidades econômicas para reduzir desigualdades, os governadores têm papel estratégico no esforço de reduzir emissões de gases-estufa e atrair investimentos para gerar empregos nos eixos promissores da economia do menos carbono. Considerando a falta de sensibilidade socioambiental e de visão estratégica do Governo Federal, o movimento dos governadores é fundamental para fortalecer compromissos do Acordo de Paris e restaurar a imagem do Brasil no exterior.
A ação Governadores Pelo Clima, que iniciamos no CBC – Centro Brasil no Clima, em 2019, com Alfredo Sirkis (1950-2020), visa suprir a lacuna deixada pelo governo federal. Ela começa a gerar resultados de visibilidade internacional. A Carta, assinada por 24 governadores, sintetiza uma inédita articulação para enfrentar as mudanças climáticas, preservando todos os biomas do Brasil, valorizando as comunidades locais e criando uma nova economia sustentável. O governador Paulo Câmara participa desde o início do movimento e esteve em Nova York, na Semana do Clima, antes da pandemia, representando governadores do Nordeste.

Quais as principais oportunidades que se abrem para Pernambuco e para o Nordeste com essa possível “virada de chave” da geração de energia a partir de matrizes renováveis?

Regiões semiáridas têm muito sol e vento. Portanto, as usinas solares e eólicas, que são indústrias que não precisam de água, podem viabilizar o desenvolvimento inclusivo e sustentável em áreas muito pobres, secas e em processo de desertificação.
Se forem planejadas com políticas públicas que interliguem atração de investimentos, capacitação de comunidades locais para empregos qualificados, programas de regeneração ambiental e gestão sustentável de água, podem impulsionar um novo modelo socioeconômico muito promissor para o nosso Sertão.
Instaladas em áreas suscetíveis a desertificação, estes empreendimentos, podem criar condições financeiras, técnicas e sociais para reverter degradações ambientais e reduzir desigualdades. Podem ainda permitir que as usinas hidrelétricas fiquem como reserva, acumulando água nos reservatórios do rio São Francisco e dos frágeis rios nordestinos, garantindo maior segurança hídrica para consumo, irrigação, indústrias, navegação, pesca, turismo etc.

Em fevereiro, realizamos encontro da iniciativa Governadores Pelo Clima, com representantes dos 11 estados que compõem o semiárido brasileiro (9 estados do Nordeste mais Espírito Santo e Minas Gerais) e iniciamos a construção de um plano regional, com 4 eixos interconectados: crescimento das energias renováveis; regeneração hidroambiental do rio São Francisco; oportunidades do Hidrogênio Verde e capacitação, inclusão social e geração de empregos verdes. O governador Renato Casagrande, do Espírito Santo, representou os governadores, que estão muito comprometidos em buscar uma retomada da economia, pós-pandemia, pela via de baixo carbono.

Para um processo ser sustentável, precisa ser viável hoje e daqui a milênios. Investir no sol e nos ventos é um caminho viável para hoje e para o futuro distante.

No Brasil temos enfatizado muito as energias solar e eólica, mas na nossa última entrevista você enfatizou o hidrogênio verde como um caminho relevante de geração de energia renovável. Alguma novidade importante dessa fonte?

Os investimentos em energia solar e eólica já estão acontecendo e mudando a realidade de diversos municípios do nosso Semiárido. Mas podem ter impactos multiplicados se forem articulados com novas cadeias produtivas limpas que estão despontando no século 21.
Uma dessas cadeias emergentes é a do Hidrogênio Verde, combustível que é produzido a partir de energia renovável. O Hidrogênio é abundante no planeta e pode ser uma solução para carros, ônibus, caminhões e Indústrias, eliminando a poluição nas cidades e evitando as emissões de carbono. Pode ser produzido com eletrólise, separando o H2 do oxigênio da água (H2O). E quando é usado, emite apenas vapor de água.

No processo de produção verde podem ser usadas energia solar, éolica ou de biomassa, fontes sustentáveis que o Nordeste possui em grandes quantidades. Assim, é possível conectar a produção de energia renovável do semiárido com usinas de Hidrogênio Verde implantadas próximas ao litoral, onde há maior disponibilidade de água e estruturas portuárias para exportação.

Pernambuco, Bahia e Ceará são estados com ótimas condições para se destacar na produção de Hidrogênio Verde. O governo de Pernambuco já criou um grupo de trabalho e começou a prospectar caminhos para acelerar esta promissora cadeia produtiva.

A União Europeia lançou em 2020 um robusto plano para impulsionar o Hidrogênio Verde como fonte energética da nova economia do descarbono e será um grande importador, abrindo ótimos horizontes para o Nordeste abastecer o mercado nacional e exportar um produto de ponta. O Porto de Suape tem excelentes condições para se destacar neste novo cenário.

O nosso polo de energias renováveis em Suape era muito destacado há alguns anos. Ele perdeu o dinamismo com a saída de grandes players? O que permanece daqueles investimentos e quais as perspectivas para esse tipo de indústria no Estado?
Suape continua sendo destaque no setor industrial eólico. A IMPSA encerrou as atividades em 2012, mas outras empresas importantes como a LM Wind Power (Pás Eólicas), GRI/Gestamp (Torres Eólicas) e SIW (Kits Eólicos) estão ampliando investimentos e gerando empregos.

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