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Uma entrevista com o revolucionário Felippe Menna Calado

Uma entrevista com o revolucionário Felippe Menna Calado

Publicado em 05/10/2021 por Revista algomais às 4:10

*Por Rafael Dantas

A maioria dos pernambucanos nunca ouviu falar de Felippe Menna Calado da Fonseca (Felipe Mena). Ele foi preso na Revolução Pernambucana de 1817 e foi um dos líderes da Revolução de 1821, tendo atuado como secretário da Junta de Goiana. Esse movimento, em que ele foi um dos protagonistas, foi responsável pela derrubada do último governador português em Pernambuco, Luiz do Rego Barreto. Uma mudança no cenário político que tornou Pernambuco independente de Portugal um ano antes do Grito da Independência e que abriu caminho para as primeiras eleições, que consagraram Gervásio Pires como governante.

Felippe Menna Calado deixou escrito um livro de memórias sobre essa revolução tão pouco conhecida. A partir da transcrição de parte dos textos dessa publicação, que ficou guardada no volume XIII (1908-1909) da Revista do Instituto Histórico Geográfico de Pernambuco, apresentamos hoje uma entrevista com perguntas nossas ao texto do revolucionário. O livro foi escrito quando ele tinha já 82 anos. Os textos referente às respostas de Menna Calado têm pequenas adaptações dos seus originais para facilitar a leitura e compreensão.

Qual a motivação que o Senhor teve para escrever o livro “O Movimento Revolucionário de Goiana de 1821”?

Sem poder imaginar interesse algum para o público, nem para a minha família a publicação dessas recordações, contudo para não levar à sepultura o sobrenome de emperrado, cedi à minha família e a meus amigos. Estas recordações, mal alinhavadas, provam não obstante o espírito e o objeto, que houve naquele movimento imaginado por meu amigo Manoel Clemente Cavalcanti de Albuquerque e por mim.

Quando começou o seu envolvimento com os movimentos políticos daquela época?

Desde pouca idade, ligado a todos os interesses do Brasil sentia-me dedicado a sua prosperidade; daí proveio-me cingir-me ao movimento tresloucado, mas nobre, de 1817, nessa província onde espero terminar a vida. A consequência foi ser arrebatado pelo redemoinho que envolveu os impensados republicanos dessa era, sendo levado com número grande de comprometidos para a cadeia da Bahía, onde entramos trezentos e tantos. Com o tempo decorrido de outras prisões, ali completamos quase quatro anos.

Como o Senhor recebeu a notícia de que havia 12 mil homens a serviço do General Luiz do Rego Barreto em 1821, além de exércitos no Maranhão, Bahia e no Rio de Janeiro para defender os interesses de Portugal no Brasil? 

Todas estas aterradoras notícias, despertando os brios brasileiros, fizeram que nesse atropelo se discutisse um meio de quebrar esse cordão sanitário (assim era chamado essa linha de exércitos que estavam distribuídos no Maranhão, na Bahia, em Pernambuco e no Rio de Janeiro) voltando-se todas as vistas para Pernambuco. Nesta diligência ocorreu a necessidade de promover-se uma revolução que lançasse fora da província o General Luiz do Rego, a enxorrada de oficiais e a tropa de Portugal.

Após a descoberta dos dois primeiros líderes desse movimento pelos espiões de Luiz do Rego Barreto, como o Senhor e seu amigo assumiram o comando do movimento?

Os pareceres eram tão discordes sobre o chefe a nomear que eu e meu amigo Manuel Clemente nos levantamos e dissemos: Se acreditam em nós, nos oferecemos para realizar o projeto e botar para fora o General Luiz do Rego, oficialidade e tropa de Portugal. Aceitou-se o nosso oferecimento e dali partimos para Pernambuco em fins de maio de 1821. Em princípio de junho seguinte chegamos aqui.

Por que a opção do movimento de começar pelo interior?

Lembrados do mau êxito que tiveram os dois líderes enviados da Bahia anteriores, mandamos vir cavalos e partimos no mesmo dia em que chegamos para o interior da província, indo nos hospedar no Engenho Cangaú, do Sargento-mor Joaquim Martins da Cunha Souto Maior, mui distinto cavalheiro e exímio patriota. Ali, longe da vizinhança da cidade do Recife, do General Luiz do Rego e das atmosferas dos seus espiões e aduladores, começamos o estudo das circunstâncias em que se achava o País e das pessoas que era preciso para que tivéssemos bom êxito no nosso plano.

Por quanto tempo vocês planejaram a revolução?

Neste estudo levamos dois meses e pouco, mais ou menos.

Como passaram esse tempo sem serem descobertos?

As nossas cautelas eram tamanhas que mesmo os nossos maiores amigos ignoravam as nossas intenções. Nem mesmo o senhor de engenho que nos alojara soube o fim que nos propunhamos, senão no dia que rebentou a revolução.

Como foi o dia em que vocês partiram do Engenho Tamataúpe de Flores em direção à Goiana para iniciar a revolução?

Em frente à tropa eu li um manifesto. Finda a leitura apresentei as manifestações precisas a fim de eletrizar a tropa e animá-la. Com o número de 600 e tanto fuzileiros e de cavalaria incitamos a marcha para Goiana. Eram cinco horas da tarde e o tempo estava carregado e logo começou a chuva, que continuou até as quatro da madrugada quando chegamos nas proximidades de Goiana. Ali passou-se uma revista e acharam-se menos de 200 homens.

Após essa entrada em Goiana, eleição da Junta Governativa e trocas envio de correspondências para o Governador, quando você iniciaram o caminho em direção à tomada do Recife?

No dia 15 de setembro começou a marcha para o Recife. Formada a guarda avançada de toda a força, dos esquadrões de cavalaria, dos esqudrões de linha, pago, dos esquadrões de Goiana, de Mocós, de Nazaré, de Limoeiro, de Paudalho, de Igarassu e toda a tropa. Marchou em sua frente o primeiro batalhão de caçadores e na retaguarda marchava o Governo e empregados dele.

Após os confrontos em Olinda, Afogados e outros lugares da cidade, quando vocês chegam em Beberibe?

Havendo-se as tropas que se defenderam do ataque em Olinda, recolhido aos seus quarteis no Engenho Fragoso, na Lagoa da Santa, nos Fornos de Cal e em parte da estrada de Beberibe, tratou-se da marcha para essa povoação a fim de colocar ali o quartel-general. O Governo foi para a povoação de Beberibe que estava ocupada.

Como ocorreu a rendição do Governador Luiz do Rego?

(Luiz do Rego) tratou de chamar o tenente coronel Luiz Francisco Cavalcanti de Albuquerque, o negociante Gervasio Pires Ferreira e o tenente coronel João de Araújo Cruz, esse fora enviado do Governo de Paraíba e que já uma vez fora a Goiana com proposições de paz, que não foram aceitas. Apresentaram-se esses em Beberibe para resolver-se a forma de acabar com a gerencia de Luiz do Rego nos negócios da província, e do seu conselho governativo.

Como ocorreu a eleição do primeiro governante?

Enviamos ofícios para todas as câmaras sobre esse desfecho e também ordenamos a cada uma o envio de três indivíduos que as representassem na reunião que seria efetuada na cidade de Olinda, em 27 de outubro para efeito de eleger-se o governo provisório, na conformidade do Governo da Monarquia. Reuniram-se na Catedral de Olinda todos os representantes das Câmaras da Província e ali elegeram o Governo Constitucional Provisório, onde a unanimidade saíram os seguintes nomes: Presidente Gervásio Pires Pereira; Felippe Nery Ferreira; Bento José da Costa; Antonio José Victoriano Borges da Fonseca. Ali mesmo na Catedral deram a posse ao governo novamente eleito, sendo este no mesmo dia recolhido ao Recife.

A Revolução de 1821 influenciou a Independência do Brasil no ano seguinte?

Da Revolução Pernambucana de 1821 aniquilou-se o sistema do cordão sanitário, por efeito dela deixaram de mandar de Portugal mais tropas para reforçar aquelas aqui existentes. Estas recordações provam que a Revolução de Goiana, mesmo quando não tivesse em vistas preparar o grande ato da independência, teve ao menos a glória de iniciar os meios necessários para elevar o Brasil a nação independente.

As respostas de Felippe Menna Calado foram todas extraídas do seu livro de memórias.

*Rafael Dantas é reporter da Revista Algomais (rafael@algomais.com)

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