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“O Parque Capibaribe aponta uma solução para as mudanças climáticas”.

“O Parque Capibaribe aponta uma solução para as mudanças climáticas”.

Publicado em 09/11/2021 por Revista algomais às 4:30
Roberto Montezuma, arquiteto e urbanista, fala sobre a vulnerabilidade do Recife diante do aquecimento global e explica porque transformá-la numa cidade parque pode ajudar na adaptação às mudanças climáticas.

Nestes dias em que acontece a COP 26 (26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), temos uma boa notícia para comemorar: apesar de o Recife estar entre as 16 cidades mais vulneráveis do planeta, as ações para enfrentar essa situação não estão começando do zero. O Projeto Parque Capibaribe é um passo fundamental para a adaptação ao aquecimento global. A constatação aconteceu no workshop RXN (Recife Exchange Netherlands), que reuniu especialistas pernambucanos e holandeses para estudar seus territórios e debater a elevação da temperatura e do nível do oceano.

Nesta entrevista a Cláudia Santos, Roberto Montezuma, coordenador geral do projeto Recife Exchange (no qual a ideia do Parque Capibaribe foi gerada), explica a concepção do Recife como cidade parque e a sua integração a os outros como projetos, Parque Beberibe, Parque Tejipió e Parque Marinho. Montezuma, que é arquiteto, urbanista e professor da UFPE, também fala das perspectivas da COP 26 e diz que as pessoas estão descobrindo que para enfrentar as mudanças climáticas é necessária uma visão sistêmica do mundo que leve em conta os aspectos econômicos, sociais e ambientais. “É o planeta dizendo: ou pensam o coletivo ou não temos saída”, alerta o urbanista.

O que é o Recife Exchange?

É um time que busca excelência em pesquisa, ensino e inovação. Ele é parte do Observatório do Recife, que une academia, governo e sociedade civil, articulado a ONU-Habitat, ao Instituto das Águas da Unesco e a universidades internacionais, como a de Toulouse. Tem como objetivo pensar projetos que ajudem as políticas públicas.

O Recife Exchange nasceu na Universidade Federal de Pernambuco, durante a comemoração dos 100 anos de migração holandesa para o Brasil. Ele surgiu da provocação de pensar o futuro do Recife.

Nesse sentido, o workshop realizado em 2011, RXA (Recife Exchange Amsterdam), que reuniu profissionais do Brasil e dos Países Baixos, deu o primeiro passo, ao desenvolver o conceito Recife árvore d’água. Ao observarem a cidade numa vista aérea, revelou-se a forma de uma árvore, onde as raízes são o mar, o tronco é o encontro das bacias hídricas, os galhos são os rios, e as folhas e frutos são as pessoas inseridas em movimentos sociais. A partir dessa visão, a conclusão é de que o Recife deveria ser reinventado com base no entendimento de que a natureza – rios, mangues, córregos, mar e vegetação – precisava ser aceita e acolhida.

O RXH (Recife Exchange Holland) pensou o Centro Histórico, em 2019. Depois entrou a pandemia, e o RXN (Recife Exchange Netherlands), que foi a versão virtual em 2021, elegeu o tema Águas como Patrimônio e as discussões abrangeram as reflexões e estudos sobre o aquecimento global e o aumento do nível dos oceanos. Em 2022 haverá uma versão do evento na Holanda como um espelhamento das experiências.

Desde o RXA foram criados grupos no Recife e na Holanda, cada um estudava seu território e depois se reuniam para cruzar as informações. Fizemos o nosso projeto em parceria com eles, que voltaram em 2012 para pensar o Recife, surgindo daí os conceitos da árvore d’água, e do Recife 500 anos. Ambos os conceitos vão desdobrar em duas ações de política pública: O Parque Capibaribe, cujo desenvolvimento ficou a cargo da UFPE e da Prefeitura do Recife, a visão de um planejamento de longo prazo para a cidade, com etapas e prazos, que está sendo desenvolvido pela Agência ARIES.

Um aspecto que foi muito interessante para eles foi o fato de o projeto do Recife ter virado política pública. Em 2020, as experiências RXA e RXH foram premiadas como best practice pela Agência de Patrimônio Cultural da Holanda. A partir daí eles nos viram como um time estratégico para continuar essa relação que está sendo muito boa.

Esses workshops foram muito inovadores porque a universidade está articulada com a sociedade civil, com órgãos públicos e com seus grupos de pesquisa. Em relação à sociedade civil, foi importantíssima a experiência com o Observatório do Recife que incorporou a visão da arvore d’água e seus desafios a serem superados no documento O Recife que Precisamos, que foi apresentado aos candidatos à prefeitura da cidade como uma demanda da sociedade.

O Recife, como já noticiamos no ano passado, é a capital mais ameaçada do país e a 16ª cidade mais vulnerável do planeta ao aumento do nível do mar provocado pelo aquecimento global. A carta do RXN afirma que essa vulnerabilidade é uma das consequências da pouca importância dada às “águas” que compõem a cidade. Você poderia explicar essa relação?

Em 2014, a cidade foi considerada a 16ª hot spot do planeta porque foram levados em consideração três aspectos: o fato de ser uma cidade marinha, uma capital com uma das maiores concentrações habitacionais do Brasil e por ser uma cidade patrimônio. O Recife deu as costas para as suas águas. O Recife é uma cidade aquarina e estuarina, que recebe a água que vem dos morros e vai para o mar e recebe as águas do mar que vão para dentro da cidade também. Então duas vezes por dia, aproximadamente, as marés fazem esse filtro nos rios.

A cidade nasce do porto, da água, porque a capital era Olinda e o Recife, o porto. São cidades que nasceram irmãs. Quando os holandeses chegaram, incendiaram Olinda e botaram o centro do poder para o porto, que ficou no meio desse anfiteatro. Esta é uma outra visão da cidade: um anfiteatro em meio círculo, onde o Recife é o limite dele, os morros fazem uma espécie de plateia e o chão, a mata atlântica, é o palco, um palco molhado, e o fim desse anfiteatro é o mar.

No primeiro projeto urbano, a Cidade Maurícia, essa cidade que vem para o centro do anfiteatro se amplia para a Ilha de Antonio Vaz, porque já não cabe na região do porto. O plano leva em consideração a ilha seguinte, o porto, Olinda e os caminhos de plantação situados na planície molhada que produzia açúcar. Nesta planície, os rios fazem papel de vias de transporte. A cidade era voltada para o rio, porque ele era a via que se conectava até o porto.

Com o tempo, em especial na passagem do Século 19 para o 20, com o desenvolvimento das vias ferroviárias, foi-se, gradativamente, expandindo a cidade e dando as costas para as águas. Quando você sai do Centro Histórico, de repente, começa a desaparecer o rio da sua visão porque as estradas não se relacionaram com o rio, por serem caminhos do trem urbano a vapor (“maxabomba”), dos bondes e dos carros.

Ao dar as costas para o rio, ele ficou desvalorizado, tudo aquilo que você não vê, você não valoriza. Com o tempo, foi transformado em local de dejetos, de descarte, de lixo. E aí, não se nega só o rio, mas se passa a negar também a própria natureza que é a essência do Recife. Ocorre uma diminuição da relação da cidade com a natureza e essa é a causa dos efeitos das mudanças climáticas na maioria das cidades e faz com que a natureza comece a reagir. Ou seja, as cidades não são só cor cinza, elas têm que ter os espaços públicos e verdes, elas têm que se oxigenar. Os espaços verdes, os parques, as praças são também lugares de encontro, da socialização, da fricção social.

Não foram só as cidades, mas a própria economia achava que a natureza era uma fonte inesgotável de recursos. Estamos neste ponto nevrálgico, neste iceberg de mudança de paradigma para implantar uma reconciliação com a natureza em todos os campos: ambientais, sociais e econômicos.

Ao se ocupar a planície molhada, foram feitos aterros no encontro de três grandes bacias – do Beberibe, do Capibaribe e do Tejipió. Quando se começa a ocupar e a desconsiderar esse solo molhado, tornando-o seco, as águas vinham e começaram a se represar. As cheias eram exemplo disso: as águas querendo retomar o seu lugar.

Além dos aterros, as bordas do rio ficaram ocupadas demais, o que não permite que as águas venham em situação de maior quantidade, se acomodem e depois voltem. Aí, ela começa a entrar no território construído da cidade.

Qual a importância do Parque Capibaribe para evitar a ameaça das mudanças climáticas?

O RXN 2021 concentrou uma grande gama de profissionais locais e internacionais para refletir sobre o território. Quando eles viram a apresentação do Parque Capibaribe perceberam que o projeto apontava uma solução para as mudanças climáticas. Ele lança o conceito da cidade parque, que é um parque do tamanho de um terço do Recife que se concentra nas bordas do Rio Capibaribe quase 500m de cada margem. Se fizermos o mesmo ao norte com o Beberibe e ao sul com o Tejipió, e com o mar temos quatro imensos parques.

Ao fazer a adequação da cidade por intermédio do seu meio ambiente e onde esses três parques se articulam com os morros, que são originalmente mata atlântica, ao recuperarmos essa mata, recuperamos o ecossistema. Descobrimos que o Rio Capibaribe é um corredor ecológico, que liga os peixes e demais animais da mata atlântica até o manguezal. E o manguezal é um berçário do mar. Então esse projeto é toda uma costura de articulação com a natureza.

Os participantes do RXN, ao analisarem o projeto Capibaribe, disseram que já temos um ponto de partida para a questão das mudanças climáticas, não vamos começar do zero. Disseram, ainda, que o prêmio oferecido pela Agência de Patrimônio Cultural da Holanda foi mais do que legítimo. Isso nos animou muito e continuamos em processo de planejamento. A COP 26 recomenda planejar a sua adaptação. Continuamos as pesquisas, articulados com as experiências da Unesco, com outros centros de pesquisas locais e internacionais e com a sociedade civil organizada, porque é ela quem vai fazer o papel de defensor desse grande projeto de cidade em relação ao futuro.

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