O mais pernambucano dos alagoanos ou o mais alagoano dos pernambucanos?

Para ambas as questões a resposta é afirmativa. Aldemar Paiva é honra e glória de Alagoas e Pernambuco, protagonista de um inesquecível caso de dupla naturalidade. Caso começado cedo, diga-se, quando ele, militar, foi transferido de Maceió para o Recife. Aqui, dia a dia, se foram distanciando os sons das ordens-unidas, dando lugar aos que vinham da Rádio Clube de Pernambuco. Foi naquela emissora que ele deu os seus primeiros passos como radialista e, para começar, enfrentou a árdua missão de substituir ninguém menos que Chico Anysio.
Deu conta do recado, e com perfeição. Tanta, diga-se, que de lá para cá só conheceu o sucesso, tornando-se um dos mais disputados profissionais do mercado, inclusive fora do meio radiofônico. Afora haver sido produtor, apresentador e diretor artístico da Rádio Clube de Pernambuco, ele teve igual sucesso nas rádios Tamandaré e Jornal do Commercio, na TV Rádio Clube, onde foi diretor de teleteatro, e na TV Jornal do Commercio, onde foi apresentador. Registre-se, igualmente, que ele manteve coluna no jornal Fatorama, de Brasília, e foi redator da Golden Publicidade, na época a mais importante agência de propaganda do Estado.
Fora do meio de comunicação, presidiu a Empresa Metropolitana de Turismo, planejou e instalou a Empresa Cearense de Turismo, atuou como ator e diretor do Teatro de Amadores de Pernambuco e dirigiu o Museu Murillo La Greca.
Um homem de valor, não é mesmo? – mas ele foi, essencialmente, um homem de profunda sensibilidade. Assinou mais de 70 composições musicais, em meio a elas Saudade e Me abufelei, frevos-canção. Fez também Pajuçara, homenagem à bela praia maceioense, onde, dizia a letra, havia mais encanto, mais luz.
Em parceria com o maestro Nelson Ferreira, compôs Frevo da saudade e Sopa no mel – frevos, Brasil campeão do mundo – hino, Elegia a Calheiros – canção, Se me viste chorar – bolero, entre outras. Notou a versatilidade dos gêneros musicais?
No rádio, ele reinou. Basta dizer que, no horário, foi líder de audiência durante 25 anos ininterruptos, com o programa diário Pernambuco, você é meu. E não foi seu único sucesso. Credite-se-lhe igualmente Dona Pinoia e seus brotinhos, Festa no varandão, O céu é o limite, Campeonato das cidades…
Aldemar Paiva também escreveu livros e publicou seis: O caso eu conto, Monólogos e outros poemas, A chegada de Nelson Ferreira ao céu, Gilberto Freyre descobridor do Brasil e A saga do 44 espada d’água. Com muita razão, pois, ele foi membro da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, sócio honorário da Academia Maceioense de Letras, e foi homenageado com os títulos de Cidadão do Recife, Cidadão de Pernambuco, Memória Viva da Cidade do Recife, e o Troféu Cipriano Jucá, da Academia Maceioense de Letras.
Peças teatrais? Também escreveu, bastando registrar Auto do Batizado, um especial da Rede Globo sobre a Inconfidência Mineira.
Que tal conhecer agora o Aldemar Paiva poeta? Para falar dele, nada melhor do que sua própria poesia. Como este monólogo: Eu não gosto de você Papai Noel! | Também não gosto desse seu papel de vender ilusão pra burguesia. | Se os meninos pobres da cidade soubessem o desprezo que você tem pelos humildes; pela humildade, eu acho que eles jogavam pedra em sua fantasia. I Talvez você não se lembre mais, eu cresci me tornei rapaz, sem nunca esquecer daquilo que passou… | Eu lhe escrevi um bilhete pedindo o meu presente… a noite inteira eu esperei contente…| Chegou o sol, mas você não chegou. | Dias depois meu pobre pai cansado me trouxe um trenzinho velho, enferrujado, pôs na minha mão e falou: Tome filho, é pra você. Foi Papai Noel que mandou! | E vi quando ele disfarçou umas lágrimas com a mão. | Eu inocente e alegre nesse caso, pensei que meu bilhete, embora com atraso, tinha chegado em suas mãos no fim do mês. | Limpei ele bem limpado, dei corda, o trenzinho partiu, deu muitas voltas… O meu pai então se riu e me abraçou pela última vez. | O resto eu só pude compreender depois que cresci e via coisas com a realidade. | Um dia meu pai chegou assim pra mim como quem tá com medo e falou: -Filho, me dá aqui seu brinquedo, eu vou trocar por outro na cidade. | Então eu entreguei o meu trenzinho quase a soluçar, como quem não quer abandonar um mimo, um mimo que lhe deu quem lhe quer bem | Eu supliquei… Pai! Eu não quero outro brinquedo, eu quero meu trenzinho… Não vai levar meu trem pai…! | Meu pai calou-se e de seu rosto desceu uma lágrima que até hoje creio tão pura e santa assim só Deus chorou, ele saiu correndo, bateu a porta assim, como um doido varrido. | A minha mãe gritou: -José! José! José… Ele nem deu ouvido, foi-se embora e nunca mais voltou…| Você! Papai Noel, me transformou num homem que a infância arruinou… | Sem pai e sem brinquedo,
Afinal, dos meus presentes não há um que sobre da riqueza de um menino pobre, que sonha o ano inteiro com a noite de Natal! | Meu pobre pai, malvestido, pra não me ver naquele dia desiludido, pagou bem caro a minha ilusão… | Num gesto nobre, humano e decisivo, ele foi longe demais pra me trazer aquele lenitivo; tinha roubado aquele trenzinho do filho do patrão! | Quando ele sumiu, eu pensei que ele tinha viajado, só depois de eu grande minha mãe em prantos me contou… que ele foi preso, coitado! E transformado em réu. | Ninguém pra absolver meu pai se atrevia. Ele foi definhando na cadeia até que um dia, Nosso Senhor… Deus nosso Pai…Jesus entrou em sua cela e libertou ele pro céu.
Aldemar Buarque de Paiva, justo orgulho de alagoanos e pernambucanos, nasceu em Maceió, em 20 de julho de 1925 e repousa eternamente no Recife, desde 4 de novembro de 2014.
Poeta, cordelista, radialista, jornalista, compositor, produtor artístico e publicitário, foi um homem de múltiplos talentos e incontáveis admiradores.

*Por Marcelo Alcoforado

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