“Podemos aprender com o mangue a nos adaptar às mudanças climáticas” – Revista Algomais – a revista de Pernambuco

“Podemos aprender com o mangue a nos adaptar às mudanças climáticas”

Marcus André Silva, Professor do Departamento de Oceanografia da UFPE, alerta que o processo de modificação do clima tem ocorrido de forma mais acelerada do que apontavam as previsões, mas que o Brasil tem potencial para adotar soluções para mitigar os danos do fenômeno, muitas delas baseada na natureza.

Diante dos efeitos das mudanças climáticas, que seguem em ritmo acelerado, teremos que encontrar soluções que se adaptem à natureza ao invés de confrontá-la. A recomendação é do professor do Departamento de Oceanografia da UFPE Marcus André Silva. Ele sugere que em alguns lugares do Recife, poderemos não recorrer à fria engenharia que ergue barreiras de concreto para impedir a cheia da maré, mas deixar que a água invada e depois vá embora. “Em Veneza, por exemplo, nas macro-marés, alguns lugares são alagados e todo veneziano sai de galocha”, compara o professor que também é coordenador substituto do Centro de Estudos Avançados da universidade.

Assim como Chico Science inspirou-se na riqueza da vida no mangue para produzir a sua arte, Marcus Silva, pelas vias da ciência, nos convida também a aprender com esse ecossistema que convive com as oscilações da maré. Nesse sentido, até a palafita pode se tornar uma boa solução, desde que receba modificações para que se transformar numa moradia digna aos ribeirinhos. Nesta entrevista a Cláudia Santos, o oceanógrafo fala dessas soluções, explica como acontece o complexo processo de elevação do nível dos oceanos e alerta que temos que ser ligeiros em abandonar práticas como o uso de combustíveis fósseis porque o curso das mudanças climáticas está mais adiantado do que mostraram as previsões dos estudiosos.

Como se dá o processo de elevação do nível dos oceanos?

Não é um processo simples, ele envolve uma série de características físicas associadas à água, principalmente a do mar, e ao processo de mudança climática, que começou a partir da Revolução Industrial. Esse evento provocou o aumento das emissões de gás carbônico na atmosfera, que age como um filtro, impedindo que o calor seja dissipado para o espaço. Isso faz com que o planeta retenha mais calor.

O oceano é um elemento importante no balanço da temperatura do planeta. Esses 2/3 de água que fazem parte da superfície da Terra retém 90% do calor que é absorvido da radiação solar. Se o continente não tivesse a parcela de oceano, a temperatura entre dia e noite oscilaria bastante. Um exemplo é o deserto do Saara, que é carente de água. Durante o dia ele chega a quase 50°C e, à noite, a temperatura está abaixo de zero. Enquanto no Recife, às margens do Atlântico, mesmo no inverno, a temperatura ficar abaixo de 20° é muito raro, porque recebemos o calor do oceano.

Uma vez que aumenta o calor retido no planeta, a temperatura da superfície do mar também aumenta e aí a água vai expandir, vai haver o processo de expansão térmica, um fenômeno físico. Mas esse fenômeno não acontece apenas na superfície do oceano. Se focarmos na temperatura do Atlântico tropical, por exemplo, ela é mais quente até mais ou menos uns 100m de profundidade.

Mas no oceano profundo, a 4 mil metros, as temperaturas caem para 4°C. Essa é uma água mais fria, que vem do Ártico e da Antártica. Nos oceanos há uma circulação que conecta a circulação superficial da água, que é basicamente induzida pelo vento, e a circulação profunda, induzida pelas diferenças de temperatura e salinidade que comandam a densidade da água. Então, se a gente tem uma água gelada mais densa ela vai empurrar uma água mais quente e menos densa. Basta pensar num aquário: se colocarmos água gelada de um lado e água quente do outro e juntarmos essas duas águas, a água gelada tende a circular por baixo e a água quente vai circular por cima.

Existe um processo que é a circulação profunda da água do mar que vem dos polos para a região tropical e a água quente vai passar a fluir na superfície ao ser empurrada pela água fria da profundidade. Um processo que é contínuo. Acontece que há um aquecimento dos polos, principalmente do Ártico, que está perdendo massa de gelo, de permafrost, o gelo permanente do Ártico. As previsões apontam que essa água doce, que está aportando do desgelo da calota polar, tem a tendência de enfraquecer a circulação profunda. Ela é doce porque quando a água marinha congela, o sal fica na superfície. E, como eu disse, além da temperatura, a salinidade também aumenta a densidade dessa água e ela afunda, fazendo com que ela seja a bomba, o propulsor dessa circulação profunda. Mas com o aporte de água doce do derretimento da calota das geleiras, a água está menos salina, o que diminui a densidade da água do mar do Ártico enfraquecendo essa circulação profunda.

Aí, ocorre o enfraquecimento do que chamamos de Célula de Revolvimento Meridional. Ela conecta as principais correntes num processo em que a circulação superficial da água do mar retira calor dos trópicos e o leva para as regiões temperadas e aos polos. A Célula de Revolvimento Meridional funciona como grande trocador de calor do planeta mas, ao enfraquecer, leva o planeta a reter mais calor na superfície do oceano tropical e diminuir o transporte de calor superficial para as regiões temperadas dos hemisférios sul e norte que tendem a ficar mais frias. Por isso que hoje falamos de mudança climática e não de aquecimento global, porque há uma transformação do clima no planeta todo onde algumas regiões apontam ficar mais frias e, outras, mais quentes.

Além disso, essa água profunda também está esquentando, logo também está expandindo. Então, não temos só o processo da radiação e da temperatura da atmosfera induzindo a circulação e a temperatura da superfície do mar mas, também, uma tendência de aquecimento de toda a água do oceano. Isso é um processo lento, que as previsões avaliam começar em 2100 e evoluir ao longo do dos séculos.

Então o processo é muito mais complexo do que o aumento de água provocado pelo derretimento das geleiras?

Isso. Se a gente computar todo o gelo do Ártico, ele vai aumentar o nível do mar em 3%. Temos um processo ainda mais complexo porque toda a margem oeste, ocidental dos oceanos, tende a sofrer mais com o processo de elevação porque, ao reter mais calor na região tropical, haverá uma diferença de temperatura maior entre essa região e a região temperada. Isso vai intensificar os ventos e vai tender a empilhar mais água do lado ocidental do oceano, que é onde estamos. Por isso se fala que as ilhas do Pacífico Sul vão desaparecer, porque elas são planas, estão próximas do nível do mar e da margem ocidental do Pacífico.

Quais são as previsões de elevação dos oceanos?

O Relatório de 2021 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) alertava que estávamos seguindo a curva de pior cenário que foi traçada no 5° relatório do painel, entre 2014/2015, que aponta a elevação de 1m e 1,5m entre 2050 e 2100. Só que as últimas observações têm mostrado que esses resultados estão se antecipando. É bem alarmante a resposta que o Atlântico e o El Niño no Pacífico estão dando agora em 2023. Mas nem tudo está perdido porque existe uma série de outros estudos apontando que temos tecnologia e recursos suficientes para mitigar. Se tivéssemos levado a sério os alertas dos pesquisadores em 2014, muito provavelmente não teríamos chegado a esse cenário.

Como está a situação de Pernambuco em relação ao aumento do nível do mar?

Estamos no Nordeste do Brasil, na margem oeste do Atlântico, aquela que vai sofrer mais do que o lado leste. A Região Metropolitana do Recife é uma mais adensadas na orla do País. A capital tem um adensamento populacional mais elevado que Copacabana, no Rio de Janeiro. Precisamos reconhecer que alguns trechos da cidade estão sobre o que antes era a praia e isso não é diferente em outras capitais do Nordeste.

João Pessoa começa a ter problemas de erosão, como tivemos há 10 anos em Piedade e resolvemos com um processo de engorda. Nós, da UFPE, estamos trabalhando como consultores sobre o que pode ser feito. Eles nos chamaram porque o Departamento de Oceanografia, de certa forma, contribuiu para o processo exitoso da engorda da orla de Jaboatão. Outros consultores do Brasil também estão ajudando.

Como foi esse processo?

Foi um convite do Ministério Público, que funcionou como um agente mediador entre as prefeituras, porque a solução tem que ser integrada para uma faixa extensa de litoral. A solução antes prevista para Jaboatão era local e ia transferir o problema para o vizinho. Todo o sistema de praia é dinâmico, a areia não é rígida. Ela é um processo que muda com o ciclo de maré, por isso a areia que está de manhã não é a mesma que está à tarde. Existe um processo dinâmico de transferência e de aporte natural dessa areia.

Acontece que a faixa litorânea está ocupada com moradia, houve supressão de mata ciliar nas margens dos rios e a construção de barragem para abastecimento de água para a população. Toda a ocupação urbana termina afetando o transporte e aporte de sedimento dos rios para as praias, que são as fontes naturais de areia, e a própria circulação costeira vai fazer com que essa areia seja distribuída.

Existem intervenções que impedem a transferência dessa areia de um lado para o outro, fazendo com que ela fique retida num lugar, onde será resolvido o problema de erosão. Mas criará um problema para o vizinho: a areia vai continuar saindo mas ele deixa de recebê-la. Foi o que aconteceu com as reformas do Porto do Recife, na década de 1950, e que nas décadas seguintes provocou, nas praias de Olinda, um processo de erosão porque elas eram alimentadas com sedimentos que vinham do canal do Porto. É tanto que foram criados todos aqueles enroncamentos (colocação de pedras e blocos de cimento), construídos para reter areia. Por que que eles não funcionaram? Porque a areia não chegava mais lá.

Já na engorda da praia de Piedade, foi feita uma costura entre as prefeituras de Jaboatão, do Recife, de Olinda e do Paulista, com uma série de estudos que levou mais de dois anos. Fizemos observações de correntes, de clima de ondas para toda a região metropolitana, num estudo que levou mais de dois anos. Esses estudos seguiram para que a empresa que foi contratada para fazer a engorda. E, aí, é necessária a manutenção.

Caso não sejam implantadas medidas para preparar a cidade para a mudança climática, o que pode acontecer?

Se nada for feito, algumas regiões da cidade serão inundadas duas vezes ao dia com a onda de maré. Temos uma intrusão de maré em alguns pontos dos canais de 2m e o Recife está a 4m médio acima do nível médio do mar. Mas se a onda de maré sobe de 2m a 2,5m numa lua cheia, por exemplo, há uma redução da proximidade da cidade com o mar.

Por isso, num dia de chuva forte, associamos a informação sobre qual é o nível da maré porque se a cota da maré tiver alta, os canais são forçados com uma onda de cheia que vem do mar, o que vai dificultar a drenagem da cidade e aumentar o acúmulo de água num período. Quando dá maré cheia de sizígia (quando o sol, a Terra e a lua estão alinhados) alguns trechos da cidade, que estão a zero ou abaixo do nível do mar, ficam debaixo da água, mesmo sem chover. Não é alagamento, é a onda da maré. É o caso da Rua Imperial.

Qual a importância dos mangues neste momento de mudança climática?

Do ponto de vista da oceanografia, os estuários são ambientes de transição entre os ecossistemas terrestres e marinhos. Nosso estuário está na região Nordeste do País, onde há marés oscilando entre 1m e 2m até 2,5m, quando ocorre uma superlua. O Recife e seus principais rios, Beberibe, Tejipió e Capibaribe, têm intrusão de maré e a presença de transição de sal é que faz com que existam os nossos mangues.

A vegetação de mangue de transição funciona como um berçário para organismos marinhos e ele é um grande reciclador de matéria orgânica urbana que nós depositamos nos nossos aquíferos. A vegetação também funciona como um amortecedor natural dessa onda de cheia, fazendo com que ela chegue de uma maneira menos intensa. Ele é um elemento fundamental e necessário, por isso eu digo sempre: a construção de diques, como fez a Holanda, não é solução para o Recife, porque ela mataria nosso manguezal. Inclusive, a água oceânica costeira oxigena com dois ciclos diário o estuário. Se não há oxigênio, vamos transformar o mangue numa grande fossa a céu aberto, vai matar tudo.

Ele tem um papel ecológico importantíssimo que tem chamado a atenção da população com a construção do Parque Capibaribe que está aproximando as pessoas do ecossistema que era tido como sujo, feio. Agora, começam a enxergá-lo de forma positiva. O que é muito bom, podemos aprender com o mangue a nos adaptar às mudanças climáticas. O mangue é um ecossistema que sobrevive dentro dessa zona de transição, ora ele está cheio, ora está seco e os organismos que ali vivem têm toda uma série de processos adaptativos para sobreviver a essa onda de maré que pode ser muito mais frequente para nós da cidade.

Quais seriam as soluções para preparar a cidade para a mudança climática?

O Recife, apesar de ser uma cidade pequena, possui paisagens distintas no Capibaribe, no Beberibe e no Tejipió, que requerem soluções específicas aos cenários que precisamos enfrentar. A Ilha do Recife, patrimônio histórico e cultural, por exemplo, precisa passar por um processo de proteção. Outras áreas da cidade, requerem a adaptação à intrusão da maré entrando e saindo. Outras regiões vamos ter que abandonar, deixar o mar tomar. Temos que discutir a vulnerabilidade social dos ribeirinhos de regiões de canais, de regiões às margens do Tejipió, do Beberibe, do Capibaribe. Precisam ou ser oferecidas tecnologias de adaptação para essa população ou ela precisará sair dali, por se tratar de uma região alagável.

Quais seriam as tecnologias para mitigar os danos?

Temos que ter uma escala de mudança de políticas públicas. Precisamos, por exemplo, desenvolver e produzir energia de forma sustentável. Não dá mais para obtermos energia barata a partir de queima de combustível fóssil. Existe uma série de elementos mitigadores para essa política, mas numa esfera de ordenamento mundial.

Precisamos de políticas públicas de esfera nacional e de engajamento de governos com relação a isso. Como sociedade, precisamos mostrar que não queremos mais aquela energia barata, que estamos dispostos também a pagar o preço. Precisamos reconhecer que, às vezes, temos que ceder um pouco para que o ambiente se transforme e se adapta àquele cenário. Existe uma política de adaptação, de manutenção de margens de rios, de foz, de identificação de regiões de dunas, por exemplo, que são menos suscetíveis a esse processo de elevação, porque têm um acúmulo muito grande de areia. Então, existem estratégias diferentes do que as oferecidas pela engenharia dura, cinza, entre as décadas de 1950 e 1980, que preconizava que resolveríamos tudo com um paredão, com estrutura rígida e física.

Veneza passou pelo processo com soluções baseadas na natureza. Esse é mais ou menos o caminho que apontamos. Precisamos entender que uma parte do Recife era água quando os portugueses chegaram aqui e quando os holandeses ocuparam a cidade. Em Veneza, por exemplo, nas macro-marés, todo veneziano sai de galocha. Eu estava em Veneza numa semana em que saiu o alerta de que haveria superlua em determinado dia e que algumas regiões seriam inundadas. Neste dia todos saíram de galocha. Teremos que revisitar as políticas públicas dentro da cidade. A questão da moradia é muito séria, a vulnerabilidade social envolvida com essas comunidades ribeirinhas é muito alta. No entanto, elas têm um processo de adaptação que nós não temos. Por exemplo, as palafitas podem ser soluções maravilhosas se forem construídas com dignidade.

O mar não está trazendo só problema, ele também aponta soluções. Há uma série de discussões sobre a expansão de fazendas eólicas para não só ficarem no continente, mas na parte rasa do oceano, onde há um potencial eólico elevado. E o Brasil é a bola da vez no Século 21, porque tem o maior potencial de produção de energia limpa do planeta.

Temos uma série de oportunidades que podem transformar o País numa referência global nessa mudança, porque temos riqueza de biodiversidade, de energia solar associada ao potencial de energia eólica enorme. Temos mecanismos para que não fiquemos dependentes de uma única matriz como a Europa está do gás, produzido na Rússia, que está alavancando uma série de crises mundiais. A gente consegue ter esse horizonte positivo. Não é só tragédia, não é só catástrofe.

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