Uma mulher trocando de pele – Revista Algomais – a revista de Pernambuco
Reticências

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Manu Siqueira

Uma mulher trocando de pele

*Por Manu Siqueira

Um dia desses, ouvi esse termo da atriz Isabel Teixeira, em uma entrevista na qual ela falava sobre envelhecer e todos os processos que cercam essa fase da vida. Tive tanta conexão com a frase, que pensei, por milésimos de segundos, em perpetuá-la na minha pele, a mesma que habito há 46 anos, e que está perdendo colágeno e ganhando algumas tatuagens, manchas e rugas. Tudo junto! 

Envelhecer é um processo natural e que deveria ser visto de tal forma. Na natureza, podemos observar o envelhecimento de algumas espécies. Em casa, com os animais domésticos, também acompanhamos essa fase.  

E assim, como uma serpente ou camaleoa, também me vejo trocando de pele, só que em uma proporção mais ampla. Além de ganhar celulites, enxergo essa “troca de pele” como uma mudança, um renascimento, uma nova oportunidade de ser, finalmente, quem sempre desejei me tornar. É como se despir em camadas, fazendo aflorar uma essência verdadeira, que muitas vezes é suprimida ou esmagada por situações abusivas.

A cantora Maria Bethania fala que gosta dos seus cabelos brancos, das rugas. Diz que pertencem a ela, que o tempo a presenteou, que ela mereceu ganhar, e completa: “envelhecer é um privilégio”. Pegando carona nesse pensamento, te pergunto: “não seria mais prático e fácil a gente simplesmente aceitar pacificamente o nosso processo de envelhecimento?”. E já te respondo: “NÃO!”. Exatamente assim, com letras garrafais.

Ir de encontro a um sistema mundial gigante e devastador, que venera a juventude e despreza os velhos pode ser muito, mais muito exaustivo. Desde crianças, na própria família, aprendemos que não podemos ser gordas, mesmo que as nossas taxas sanguíneas estejam normais. Também não podemos ter cabelos brancos. Se surgir uma ruga, já devemos fazer um procedimento estético ou passar algum creme como se aquilo fosse uma doença. Aprendemos que as unhas devem estar sempre bem feitas e pintadas, e que não podemos sair sem maquiagem e, muito menos, sem sutiã.

“Já passei da idade”, “estou velha demais para isso”, “não tenho mais corpo para usar biquíni”, “meu tempo já passou”. Quem nunca ouviu uma dessas frases, dita, geralmente, por uma tia, mãe ou avó?

Depois de um tempo tentando entender essa avalanche de nomenclatura para mulheres que estão em processo de envelhecimento, entendi que madura, coroa, loba ou ageless (sem idade), por mais que esse movimento seja interessante, são algumas expressões usadas pela mídia apenas para camuflar a palavra velha. 

De um lado, eu entendo essa linguagem, criada pela indústria estética, que te leva a acreditar em uma juventude eterna, que sabemos, é inexistente, mas que, mesmo assim, movimenta milhões de reais todos os anos. Afinal, se você parar essa leitura agora e for pesquisar no Google alguns sinônimos para mulher velha, você vai encontrar as seguintes palavras: caduca, decrépita, engelhada, anciã, arcaica, antiga, antiquada, idosa e obsoleta. 

Do outro lado, continuo sonhando com o dia em que a palavra ‘velha’ não ressoe como xingamento, não tenha conotação pejorativa e nem venha associada à demência. Quero ter orgulho de estar me tornando uma velha. Nesse momento, você deve estar se perguntando se eu não estou exagerando, já que tenho 46 anos, apenas. Apenas? Pois bem antes disso eu já sofri etarismo, acredita? Mas esse é outro papo.

Quero abrir aqui, porém, um parêntese em luz neon: “Não sou fruta para ser ou estar madura, e acumulo idade sim, aliás, coleciono. E isso, caro leitor, nunca deve ser motivo de vergonha. Afinal, só não envelhece quem morre jovem”. Anotou?

Nas culturas indígenas, que enobrecem a ancestralidade e os antepassados, os mais velhos são tratados com imenso respeito, se tornando responsáveis pela liderança e condução de vários rituais. Na China, Japão e na cultura judaica, eles têm um papel importante por serem vistos como sábios. 

Quando eu tinha 39 anos, escrevi em um blog que mantinha na época, quase em tom de confissão: “nos últimos anos vividos, em quase quatro décadas, os sinais do envelhecimento já são latentes. No pescoço, certo enrugamento. Os seios, antes firmes, já começam a dar sinais de flacidez. A gravidade insiste em pô-los para baixo. O metabolismo é bem mais lento, a gordura se acumula nos braços e quadris. E agora? O que se faz? Vive-se! Apenas vive-se”.

Continuo compactuando com esse pensamento. Claro que agora, sem tanto foco estético no corpo e sim, na saúde, destacando os cuidados com a mente, com o emocional e com o espiritual. Dessa forma, todos os dias, eu arranjo uma maneira de exercitar o meu olhar pueril e encantado pela vida. E garanto: com o tempo, isso só melhora e se aperfeiçoa. A gente encontra mais felicidade nas horinhas de descuido e observa os detalhes que ninguém reparou. E isso é mágico!

Ah! E uma das coisas mais importantes que tenho feito nos últimos anos é escolher bem a minha rede de apoio e de afeto. São essas pessoas que não vão te julgar, te abandonar e nem largar a sua mão quando você estiver em uma guerra. Essa presença será mais importante que a própria trincheira, como diria Ernest Hemingway. Por isso, cultive as pessoas que lhe querem bem e siga rodeada de boas energias. Só quem conhece a profundidade das sombras, reconhece um olhar iluminado. 

*Manu Siqueira é jornalista (mmsiqueira77@yahoo.com.br)

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